VIOLÊNCIA X PROIBIÇÃO

O coro comendo

O couro comendo

Por LGFerreira

No ano de 1985 ocorreu uma tragédia na Bélgica, quando 39 pessoas morreram e sei lá mais quantas ficaram feridas na partida entre Juventus x Liverpool. Isso revolucionou o futebol europeu no quesito segurança, em especial na Inglaterra, que passou a reprimir os hooligans com força total, o que era muito necessário porque eles estavam tocando o terror em todos os lugares e em todos os jogos.

Sempre depois de uma tragédia chovem comentários sobre o que deve ser feito, como está acontecendo atualmente no Brasil depois da morte do garoto boliviano. Li e ouvi muitas pessoas dizendo que as torcidas organizadas e os sinalizadores devem ser banidos, que esta tragédia em Oruro deve servir como lição para o futebol brasileiro começar a aplicar penas rígidas aos delinquentes-torcedores, assim como fizeram os europeus. Acho esta comparação exagerada e burra, seja pela diferença de proporção, seja pela própria necessidade disso. No Brasil as atitudes pedidas pelo público e tomadas pelas autoridades sempre tendem para um lado pouco razoável, até mesmo ditatorial.

Em relação às organizadas, faz catorze anos que frequento assiduamente estádios e sempre fui de arquibancada no meio das organizadas, mesmo não fazendo parte de nenhuma delas. Em todos estes anos a única confusão que presenciei foi a tentativa de invasão do campo na libertadores de 2006, no jogo entre Corinthians x River Plate. Do lado de fora eu nunca vi nada.

A situação no futebol brasileiro não é ruim no quesito segurança. Todas as brigas de torcedores são no caminho do estádio. Todas mesmo, basta observar as manchetes. Nem no entorno do estádio são, pois sempre há policiamento. Neste ponto o Brasil chegou a um nível excelente. Ninguém briga nos arredores dos estádios, nem dentro. As brigas são combinadas em locais afastados, ou seja, só briga quem quer.

É impossível que em uma torcida organizada todos os seus membros estejam dispostos apenas a lutar com seus rivais. Óbvio que existe os que têm essa intenção, porém, são a minoria. Banir as torcidas organizadas não resolverá o problema. A organização das torcidas não está na camisa que eles usam, nos tambores, nas suas bandeiras. Esta organização é muito mais da alma, da vontade de seguir o time. Simplesmente eliminar a denominação de um grupo de torcedores não vai acabar com a organização deles.

Fecharam a Mancha Verde, por exemplo. O que aconteceu? Ela virou Mancha Alviverde. Sensacional, uma cusparada na cara desses burocratas que nunca levantaram a bunda da cadeira e acham que entendem alguma coisa de futebol. Identifique aqueles que só querem violência e os prenda, essa é a solução. Só que as autoridades preferem que outras pessoas levem a culpa por sua incompetência.

Da mesma forma, é exagerado e contrário à festa do futebol proibir todos os sinalizadores dentro do estádio, o que já era uma realidade antes mesmo do que ocorreu em Oruro. O sinalizador que matou o menino boliviano é um sinalizador náutico e, como o nome já diz, deve ser usado em embarcações para pedir ajuda. Este, rojões e outros que possam ser usados como arma devem ser proibidos mesmo, mas existem outros tipos de sinalizadores, como os que soltam fumaça colorida, aquele “chuva de prata”, entre outros, que até crianças são autorizadas a usar. Além disso, a diferença física é claramente óbvia, o que facilitaria na hora da revista nos portões dos estádios. Pra que proibi-los então? Proibicionismo burro.

Peguemos outro exemplo, a proibição de bandeiras com mastro dentro dos estádios paulistas. Elas foram proibidas depois da morte de um rapaz agredido com estes mastros numa batalha campal, na Copa São Paulo de Futebol Júnior de 1995, no jogo entre São Paulo x Palmeiras. Foi usado como arma, mas é motivo para banir? Por que não são banidas nos outros estados? Muitas pessoas são agredidas com estes mastros nas partidas em que as torcidas podem levar estas bandeiras? Acho que não. Pelo menos a mim não chega nenhuma notícia do gênero. Se um bando de torcedores invade o campo e começa a brigar, a falha não foi da polícia? Quanto maior o número de proibições maior o número de pessoas enquadradas como fora da lei.

Resumindo, o que aconteceu na Bolívia serve para pensarmos sim. Vamos pensar em como a Conmebol é obscura, omissa e corrupta. Vamos pensar que todas estas proibições que estão acontecendo fazem parte de um plano maior para atingir os “padrões FIFA”. Vamos pensar que apenas os torcedores que assistem aos jogos sentados com seus cachecóis perigosamente empunhados é que são aceitos por essa entidade. Vamos pensar que o presidente da CBF foi colaborador íntimo da ditadura militar e tem um gostinho todo especial em abafar casos e roubar coisas alheias. Vamos pensar que vários estádios estão sendo construídos pelo Brasil com dinheiro público. Vamos apenas pensar, porque ações que modifiquem o que há de ruim no futebol não vão acontecer pelo simples fato de que tais ações são tomadas pelos donos da bola, que querem que as coisas fiquem como estão. E nem pense em protestar nas arquibancadas, é proibido (http://globoesporte.globo.com/futebol/times/nautico/noticia/2012/10/vuaden-relata-na-sumula-protesto-organizado-pela-torcida-do-nautico.html) pelos mesmos motivos que o jogador não pode tirar a camisa: os patrocinadores não gostam.

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