Se não é do povo, de quem é o futebol?

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O que você faria se flagrasse a sua mulher (ou homem) te traindo no sofá da sala? Particularmente, eu não sei o que eu faria, mas a Federação Paulista de Futebol e as autoridades de segurança pública têm uma solução infalível para esse problema: jogar o sofá no lixo. É impressionante como uma mentalidade tacanha e retrograda está dominando o futebol brasileiro travestida de modernidade e altos investimentos. Para entender esse processo kafkiano, temos que voltar alguns belos anos no passado.

Voltemos a 1995, mais precisamente na final da Super Copa de Futebol Junior, em que o Palmeiras sagrou-se campeão diante de São Paulo com um gol de Rogério na prorrogação. Nesse dia o que menos importou foi o resultado do jogo e quem saiu ou não saiu campeão. Fato é que houve uma das maiores, senão a maior, batalha entre torcidas organizadas dentro de um estádio. Fato este muito mal explicado até hoje. Por que havia material de construção ali? Tijolos, barras de ferro, pedaços de pau, ferramentas e todo tipo de objeto que pudesse ser usado como arma. Ingressos gratuitos: quando a esmola é demais, o santo deveria desconfiar. Enfim, após essa tragédia ainda mal contada a Mancha Verde foi teoricamente extinta depois de forte pressão do ministério publico, principalmente de Fernando Capez, procurador de justiça na época, hoje o deputado estadual mais votado com quase 216 mil votos. Com isso proibiram também as bandeiras de bambu, o papel picado, e diversas outras coisas, de alta periculosidade segundo esse senhor, que não tinham outra função senão colorir as arquibancadas.

http://www.youtube.com/watch?v=oFVqcK8m0s0 (O vídeo é uma reportagem do jornalista Mauro Naves da Rede Globo um dia após o incidente)

Ao mesmo tempo começava a Ronaldomania. No ano seguinte o fenômeno seria eleito melhor jogador do mundo pela primeira vez. Apesar de ter começado no São Cristovão do Rio de Janeiro (sem nunca haver voltado lá depois de sua saída) e ter tido uma brilhante passagem pelo Cruzeiro antes de se mandar para o velho continente, Ronaldo não era até então identificado com nenhum clube nacional. Sua idolatria vinha dos gols que marcava no PSV, no Barcelona e na seleção brasileira; e também, principalmente das matérias especiais que o fantástico e o globo esporte faziam sobre o rapaz. Estava aí o personagem perfeito para a unificação nacional digamos: não despertaria sentimentos clubistas de rejeição, sua identidade seria apenas ligada à seleção brasileira. E o engraçado é que apos o fiasco de 98 em que o garoto propaganda da Nike refugou na final da Copa do Mundo, a ligação entre a seleção e o povo foi esvaindo-se.

Veio o ano 2000 e o bug do milênio não trouxe as bandeiras de volta. Os preços dos ingressos já estavam mais caros e, em 2003, uma inovação tremenda. “Nossa, que legal! Agora o campeonato brasileiro será de pontos corridos. Igual na Europa!!” Há dois tipos de argumentos a favor desse tipo de campeonato: os abertos e os obscuros. É um campeonato mais justo que premia o time que planejou mais, investiu mais e manteve uma certa regularidade ao longo do ano. Também é ótimo para os apostadores. Mas e as finais que paravam o país? Não se pode parar nem mais aos domingos. Clubismos a parte, em 2005 houve um baita escândalo de vendas de resultados por árbitros da CBF.

Ao longo desses 10 anos de pontos corridos, o poder da Globo sobre o futebol brasileiro se tornou absoluto, vimos a ascensão dos clubes de aluguel e agencias de jogadores de DVD; patrocinadores, cartolas, árbitros e tribunal de justiça desportiva se tornaram figuras centrais roubando a cena de jogadores e torcedores, não a toa que em uma escalada de quinze anos vimos uma decadência não só institucional mas também técnica do futebol brasileiro. Me mandem para a cadeira elétrica, mas ninguém me convence que o Neymar é melhor do que Denner, Edilson, Edmundo e tantos outros que chacoalhavam as redes e entortavam as colunas dos adversarios nos anos 90. Segurem o papagaio na Copa do Mundo ano que vem!

Não era para menos se vermos quem está no comando das federações. A Paulista por exemplo, já está faz tempo, assim como estavam as subprefeituras da capital do Estado, na mão de militares. A comissão de arbitragem por exemplo, na mão do Coronel Marcos Marinho, o mesmo que nutre ódio por torcedores organizados, como você ver no link a seguir(http://cruzdesavoia.wordpress.com/2009/02/16/quem-e-coronel-marinho/).

Em setembro de 2011, fui à FPF para um pronunciamento do presidente Marco Pólo Del Nero e do Coronel Marinho sobre medidas a serem tomadas para coibir a violência nos estádios. O que mais me chamou a atenção não foi o discurso de ódio aos pobres e nem às organizadas, pois isso eu já esperava. O que realmente chamou a atenção foi o apelo tecnológico com viés propagandístico da operação que me lembraram as aulas de história sobre o terceiro Reich. Seria então usada uma microcamera de altíssima definição na entrada do estádio e virada para as arquibancadas que leria o “T” facial dos torcedores e seria capaz de identificar e gravar torcedores que num jogo anterior tenham causado tumulto afim de barrá-lo na entrada do estádio. No final das contas, nunca mais ouvi falar desse sistema. Não deu certo? Está sendo usado mas não se fala mais nisso? Por que? Eis uma porrada de questões.

E assim vamos levando, sem esquecer que em 2009, com o Brasil já sabendo que sediaria a Copa do Mundo, o fenômeno voltou para o pais, inaugurando a fase corintiana da Ronaldomania. Não é a toa que na volta do agora Gordo, o Corinthians arrecadou mais do que nos dez anos anteriores e deu o tiro de meta para o estabelecimento das Novas Arenas no Brasil. Ou seja, se já proibiram artefatos festivos, aumentaram o preço dos ingressos absurdamente e a repressão sobre os torcedores pobres (sim, pobres, pois a PM nunca te pede carteirinha de Organizada na hora de te dar uma cacetada grátis) só faltava uma medida para redefinir de vez o futebol como esporte ativo para a elite e passivo para o povão: a destruição da tribuna popular, da geral, da arquibancada. A destruição física e não mais simbólica dela. Que coloca no povão numa situação que se consumir televisão e produtos do clube amado, já estará cumprindo com sua obrigação de torcedor.

E para piorar ainda mais o quadro, Romário marcou um golaço ao pedir que a comissão da verdade investigasse o passado do atual presidente da CBF até descobrir o seu direto envolvimento com o regime ditatorial e o assassinato do jornalista Vladmir Herzog no Doi Codi.

Será que essa herança de 1964 na CBF e nas federações estaduais e a aplicação do capitalismo selvagem extremo na lógica do futebol não são diretamente responsáveis por essa falência futebolística? Será que deixar os clubes reféns da Globo e dos grupos empresariais é a maneira de fazer com o nosso futebol ande para frente? E será que reprimir e expulsar 85% do povo brasileiro dos estádios de diversas formas é a solução para a violência? Esse povo tem história apesar de não conhecê-la e precisa ser respeitado. Foi ele que nos anos 10 e 20 democratizou o futebol paulista. Palestra Itália e Corinthians na sua fundação, trouxeram para os operários e para os campos de várzea o doce prazer de tocar o céu na dança da bola, tirando dos jardins a antiga hegemonia do futebol citadino. Hoje, o inverso acontece. Porém, fora das quatro linhas, em meio a um jogo mentiroso e uma guerra velada.

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3 Comentários

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3 Respostas para “Se não é do povo, de quem é o futebol?

  1. Thomé

    Belo texto!

    Vale lembrar que a herança da ditadura se estende além do futebol. A Polícia no Brasil ainda é militar, mesmo que seja para tratar com civis. Se os organismos que comandam o futebol são ligados à ditadura e se a polícia é militar, está aí o aparato necessário para extirpar o povo do esporte mais popular do planeta.
    Futebol, agora, só na Globo.

  2. Falae, Raphael……..Vou aproveitar seu texto e apontamento para entender q indaga sobre toda essa alienação q sofre o povo de nosso país. O episódio do pacaembú é emblemático para quem quer enxergar. A prostração ideológica q pairou no mundo após a recuada soviética fez com q, amaparados em Fukuyama, todos q tinham uma diferença com pessoas mais simples, aquelas q não tiveram oportunidades justas no sistema capitalista, adotassem a postura política neo-liberal. Pois então, a forma nojenta de atuação na implementação do neo-liberalismo se circundou de uma pratica nefasta a qualquer país ou economia; trata-se do sucateamento de tudo q não dependia de especulação financeira. Toda essa prática exercida servia, e serve ainda, para justificar a mudança no gerenciamento, ou seja, as tais privatizações. Como a telefonia, entre outros serviços q eram públicos ou estatais sofreram uma sabotagem orquestrada pelos interessados no fim último de um processo de privatização. Aquele jogo assisti ao vivo pela tv e questionei de pronto os entulhos demonstrando uma imprudência q me parecia proposital.
    Deu no q deu…….reforçou a idéia q futebol tem q ser apreciado por pessoas de bem, famílias e tals…..q na espanha eles sentam em poltronas estofadas, e por aí……
    Sou frequentador de cultura em sampa, foi tudo aburguesado. A festa de final de ano na paulista era sim uma festa, lembro q tive por lá umas 2 vezes e ambulantes de ocasião vendiam vinho, cerveja e tudo mais e tudo era clima de festa. Enfim, sem me alongar tanto, por conta de se ter ausência de policiamento para enventuais transtornos o senhor pau mandado do neo-liberalismo josé serra acabou com a festa livre e fez uma triagem de quem entraria na paulista e só se podia consumir cerveja e produtos da kaiser em kiosques…….
    Tentando resumir, aburguesaram os acessos todos, mas da forma mais indigna e q não devemos aceitar; destruiram, de propósito, as coisas q funcionavam…….Diria q essa prática é criminosa e devemos cobrar futuramente de seus implementadores…….

    Valeu…….abs

  3. Pingback: Se não é do povo, de quem é o Futebol? | Raphael Sanz

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