Almofadinha

Além do fato de serem irmãs gêmeas, as meninas eram populares na escola porque tinham um pai famoso, idolatrado pelos adultos e admirado por boa parte dos coleguinhas. E a fama do papai não vinha de uma atividade qualquer, ele era goleiro de futebol e dos diferentes.

“Um jogador articulado, um líder dentro de campo, o chefe do sistema defensivo e um excelente cobrador de faltas” repetiam alguns. Tudo o que ele fazia era motivo de orgulho, já tinha ganhado troféus por um time grande e foi até para a Copa do Mundo na Alemanha, onde passeou bastante, ajudou no aquecimento e distribuição de coletes, além de claro, ter trazido várias lembrancinhas  legais.

O respeito que o papai tinha dentro do clube que escolheu para chamar de seu era mais do que uma conquista esportiva. Revistas de comportamento e um partido dirigido a consumidores-cidadãos e “pessoas de bem” viam nele um modelo a ser seguido. Era como um Luciano Huck de chuteiras e luvas.

Mas o maior orgulho para as meninas era saber que toda a torcida daquele clube venerava o herói em forma de pai e gritava seu nome na frente da TV e, vez ou outra, dentro do estádio. Era muito fácil e prazeroso acreditar que era verdade, papai era sim o melhor goleiro do Brasil, melhor que os outros goleiros que só eram titulares da seleção devido à inveja dos poderosos que não reconhecem a anunciada hegemonia nacional do seu time.

Mas até aí tudo bem. Tudo era um mar de rosas e um passeio no bosque para as meninas até que, aos poucos, o apoio que vinha da torcida começou a se transformar. No lugar da credibilidade, desconfiança, ao invés de gritos de apoio, silêncio e vaias. Aquelas piadas chatas sobre a mania de ajoelhar, ter medo da bola e até uma alusão à rede KFC que partiam dos rivais já não eram mais abafadas pela torcida como antes. Ao contrário, encontravam eco no estádio vazio em tempos de seca de decisões. Na escolinha mesmo, os comentários já começavam a incomodar.

Um dia, logo que o paizão voltou de uma viagem mal sucedida a Bolívia, as meninas pularam no seu colo para tentar animá-lo. Com o carisma que lhe é peculiar, ele não fez rodeios em falar sobre lição de casa, disciplina, controle de peso, essas coisas, e vetou o sorvete na sobremesa. Então uma delas perguntou com ar de curiosidade:

– Papi, você trabalhou tanto, ficou tanto tempo em concentrações, vestiários, festas secretas com os seus colegas de time… não está na hora de passar mais tempo com a gente e descansar?

– Mas meu tesouro, o time depende de mim, sou o líder, o cérebro, o único cara que pensa e que mais conquistou títulos, e ainda estou em forma. Vocês não acham?

– Sim papis! E temos muito orgulho, não é maninha? (diz arregalando os olhos para a irmã, que permanece calada).

– Então qual é o problema?

(Silêncio)

– Pensa rápido! (gritam as duas meninas atirando 5 almofadas em direção ao pai, que é pego de surpresa) – Tá vendo? Se fossem bolas de futebol você já estaria perdendo de 5 a 0! Se aposenta!

rogério ceni

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