TOLERÂNCIA ZERO

nelson-rodrigues

 

Repensando e lendo outras notícias sobre a confusão entre argentinos e policiais mineiros, puxei na memória diversos jogos onde ocorreu a mesma coisa com os mesmos participantes. O caso mais emblemático é o da torcida do River contra a PM no Morumbi, que acabou com os fardados levando uma coça e um torcedor argentino com um capacete como prêmio. Esses fatos me levaram a questionar o motivo de tantos enfrentamentos, e cheguei à conclusão que não é porque os hermanos são apenas chegados numa encrenca.

A meu ver, o lance é que a relação entre o Estado e o cidadão é vista de uma forma totalmente diferente por eles. O grau de tolerância com os desmandos das “autoridades” é muito menor do que o dos brasileiros. O vídeo da briga em Minas mostra que a polícia chegou empurrando um dos jogadores e, a partir daí, o pau comeu. Tirando os questionamentos óbvios da polícia fazendo este tipo de segurança, o que caracteriza mais o meu pensamento é o policial achar que está agindo certo e outros tantos cretinos acharem que ele tem mesmo esse direito, podendo piorar ainda mais dizendo que argentino tem mais que apanhar mesmo.

A vida humana e a dignidade no Brasil são encaradas de uma maneira totalmente distorcida e guarda relação direta com a anuência de abusos de poder. O idiota que pensa que os PMs agiram certo, com certeza também é a favor da redução da maioridade penal, da pena de morte e outras questões desnecessárias de se debater. Digo desnecessária porque até chegar ao ponto de discutir a redução da maioridade penal, por exemplo, deve haver políticas que reduzam o desemprego, a diferença entre classes, que melhore a educação, a saúde, as condições nos presídios, a reinserção social, etc., ou seja, o debate deste assunto só pode existir a partir do momento em que as possibilidades de entrada no crime sejam reduzidas ao máximo e, se este ocorrer, que a pessoa tenha condições de ser reeducada e devolvida à sociedade de forma digna.

Usei o exemplo da maioridade penal porque recentemente um rapaz foi morto por um ladrão de 17 anos. Manchetes do dia seguinte: MORTE DE ESTUDANTE REACENDE A DISCUSSÃO DE IMPUNIDADE AOS MENORES. Aí a pessoa advoga pela causa que citei e vai além, acha que o rapaz tem que ser preso e se lascar dentro presídio, não basta a pena. Um retardado que pensa que o cara preso não tem que ter condições dignas lá dentro faz por merecer este adjetivo. Quem nunca ouviu que no massacre do Carandiru morreram poucos? Que a polícia tem mesmo que tocar o terror nas ruas? Raciocinar desta forma é ser conivente com um ´´sofrimento justificável´´, extrajudicial e, portanto, ilegal.

O cidadão pensar assim, apesar de ridículo, não faz a mínima diferença pra sociedade. Porém, este é um pensamento bastante disseminado e a consequência é que há representantes desta parcela da população no meio político. Só que o político não pode entrar nessas de confundir vingança pessoal com castigo estatal. O ser humano tem sentimentos, o Estado não. Se um vagabundo estuprar uma mulher da minha família eu vou querer mata-lo e, caso seja possível, de fato farei, mas o Estado não pode agir conforme esta lógica, lei é lei e tem que ser seguida friamente. Este é um dos motivos de a possibilidade de fazer leis que regulam o direito penal, que consequentemente regulam a sociedade, ser elaborada apenas pelo governo federal. O indivíduo tem todo o direito de pensar o que quiser, inclusive achar que o preso tem que sofrer dentro da cadeia. No entanto, o Estado instituiu que a punição ao criminoso é estar preso, separado da população, tão só e somente. Não há a previsão legal de sofrimento extra e quem aplica a lei é ele.

No entanto, sabemos que não é assim que funciona, pois até hoje passa na TV um corrupto assumido (Maluf) dizendo que na época dele havia segurança porque uma polícia comprovadamente assassina estava nas ruas (ROTA). Outro exemplo que podemos pegar é o símbolo do BOPE ser uma faca na caveira É a institucionalização da lei do cão, da morte.

ROTA, pegue este meliante

ROTA, pegue este meliante

Este grau de tolerância com o errado leva à mediocridade da sociedade. Vamos escolher como estereótipo do podre o PT. De opção de diferença virou o que todos haviam assumido antes, um partido ético no discurso. Mesmo assim, existem pessoas que fecham os olhos para todas as evidências teóricas e práticas e continuam levantando a bandeira do partido. O pior é que algumas destas pessoas são inteligentes, o que nos leva a crer que essa anuência com o lado errado é calculada, conectada muito mais com uma imbecilidade irracional do que com raciocínio decente. Imbecilidade esta que rege também os ignorantes que matam em nome de algum time, fomentando a guerra entre torcidas. Os partidos despertam paixões tais quais os clubes.

Nós brasileiros precisamos quebrar a lógica do pensamento medíocre. O cara reclama da omissão do povo em temas políticos, mas reclama que está preso no trânsito porque tem uma manifestação naquela rua. Vemos a irracionalidade de pensamento em todos os setores, levando ao errado e à atitude de gado, onde apenas obedecemos. Os partidos políticos, sejam os ditos de esquerda ou de direita, seguem a mesma linha nojenta que rege a sociedade como um todo. A visão de limites não é determinada. A divisão entre público e privado é quase inexistente.

Esta forma proporciona distorções como o pastor Feliciano na Comissão de Direitos Humanos e Genoíno e João Paulo Cunha na comissão de Justiça e Cidadania. O mais preocupante disso tudo é ter gente que apoia todos eles, ou seja, vários bandidos que estão no poder nada mais são que o reflexo do pensamento coletivo de determinado segmento. A Marina Silva inclusive, supostamente uma voz dissonante por toda sua história, defendeu a permanência de Feliciano no poder por ser evangélica. Mais uma prova de conchavo sujo em prol da ideologia corrompida, totalmente desconectada da realidade e que respinga em tantos outros setores sociais, como o futebol.

Estádio futuramente privado construído com dinheiro público? Ótimo, é para o meu time mesmo. Neste caso tudo bem destinar dinheiro de todos em benefício de pouquíssimos, certo?! Errado! Desalojar pessoas para fazer obras de melhoria da Copa, tipo um estacionamento, está correto? Não! Aceitar uma lei de exceção dentro do nosso país (Lei Geral da Copa) que apenas visa o melhor desempenho dos negócios de uma entidade privada (FIFA). Errado de novo! A tolerância com desvios de conduta tem que ser zero.

Repito, nós temos uma tolerância com o errado muito alta, estamos acostumados com o mais ou menos em tudo, temos um respeito excessivo por aqueles que deveriam nos representar e ou prestar serviços a nós. O respeito em si, obviamente, é benéfico, apenas pressuponho que se a sociedade mantém financeiramente um Estado que tem por obrigação constitucional prestar o básico para ela, esta prestação tem que ser boa e temos que cobrar se assim não for. É basicamente um policiamento, com o perdão da palavra.

Entre todas as coisas brilhantes que Nelson Rodrigues escreveu, uma das mais emblemáticas foi identificar o complexo de vira-lata do nosso povo. Todos querem ser a tal autoridade e várias pessoas têm um respeito serviente a ela. A nossa capacidade de não apenas obedecer as regras – ser um civil desobediente – é que faz com que a sociedade se desenvolva, levando-nos à questão que quanto mais esclarecido o povo pior para o poder. Como diz a célebre frase: “se votar mudasse alguma coisa seria proibido”.

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1 comentário

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Uma resposta para “TOLERÂNCIA ZERO

  1. Consideração perfeita!! Parabéns!!

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