15 mil x 2

15 mil x 2

06.16.13

Passamos as seis horas seguintes numa minúscula cela de concreto, na companhia de uns vinte porto-riquenhos. Não podíamos sentar, tinham mijado por todo o chão. Ficamos parados no meio da cela, distribuindo cigarros como se fôssemos representantes da Cruz Vermelha. Nossos companheiros tinham uma aparência ameaçadora. Alguns estavam bêbados, outros pareciam malucos. Enquanto ainda distribuíam cigarros me sentia seguro, mas fiquei tentando imaginar o que aconteceria quando eles acabassem.

Em algum lugar de Brasília, pouco depois das quatro horas da tarde de sábado, Neymar marcava um belo gol, um chute certeiro da meia-lua que deve ter rodado o mundo mesmo que o que tem de rodar o mundo é gente correndo de gás de pimenta e bala de borracha só porque quer gritar pra esse mesmo mundo que todo esse circo construído neste terreno abandonado é um abuso, uma covardia, um doce amargo enfiado goela abaixo e sem direito de resposta.

Mas tem um lugar – viva! – com um gol muito mais importante e este não esteve na pauta de nenhuma mesa redonda deste último domingo à noite. Clasher foi pra área e desviou do jeito que deu pro fundo da rede, fazendo o sexto gol da goleada do Autônomos sobre o Rossonero, na Lapa.

O Auto abriu cinco de vantagem – Boça, Bruno, Boça, Bruno e Gabri – e sofreu dois num momento de vacilo. Perto do fim, saiu o gol do Clasher, livre na área aos quase 30 do segundo tempo, livre na vida havia nem 24h.

Mas mais que isso foi um grande orgulho me ver ao lado de Alex, Zago, Jay, Clasher, Borba, André, Cardines, Gabriel, Boça, Bruno, Vinny, Valdivia. E o Guilherme e o Guga lá fora, o Toro também, todo mundo que à noite fez uma festa histórica na Casa Mafalda pra arrecadar dinheiro e colaborar com a fiança dos tantos Clashers, quem jogou de manhã, quem está nessa, todos eles.

Eu ainda peguei o Mandioca perguntando pro Lipe, ali pelas duas e pouco da manhã, se ele imaginava em 2006 que um dia estariam presenciando um momento deste tamanho; e o Gabriel, antes do jogo, lembrou que o Auto já havia feito os três pontos mais importantes de sua história durante a semana.

Pelo Auto, pelo Sema, pelo Clasher, sigamos fortes. E podemos.

Paulo Silva Júnior, meio-campista e escritor.

*O texto começa com um trecho de Rum: Diário de Um Jornalista Bêbado, do mestre do jornalismo gonzo Hunter Thompson, livro que o advogado do Clasher levou pra ele, preso, entre a noite de terça-feira e o fim da tarde de sexta. Baita escolha.

 

 

*texto do meu amigo Paulo Silva Jr. publicado inicialmente aqui (http://www.autonomosfc.com.br/blog/15-mil-x-2) sobre o gol marcado pelo Clasher, outro grande amigo, que havia sido preso durante os protestos da última terça-feira e que, saindo da cadeia, foi direto ao terrão marcar o gol que fechou que a goleada do seu time sobre o adversário. 

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