A Batalha da Tijuca

*Relato de minha autoria publicado na quarta-feira, dia 03 de julho de 2013 no Correio da Cidadania. Para ler a publicação original, entre neste link: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=8563:submanchete030713&catid=72:imagens-rolantes

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Enquanto o Brasil vencia a Espanha por 3 a 0, no último domingo, dia 30 de junho, no Maracanã, sagrando-se campeão da Copa das Confederações, uma verdadeira batalha acontecia no bairro da Tijuca, a poucos metros do palco da decisão.

 

Aproximadamente 15 mil manifestantes se reuniram na praça Saenz Peña, na Tijuca, zona norte, para protestar contra os gastos exorbitantes que envolvem a Copa das Confederações e a Copa do Mundo, ambas organizadas pela FIFA no país – além das Olimpíadas, marcadas para 2016 no Rio de Janeiro, elevando ainda mais os gastos e sequelas neste estado.

 

Obviamente, a pauta central foi seguida de diversas pautas adjacentes e não menos importantes. De acordo com a Lei Geral da Copa, os arredores dos estádios devem ser frequentados somente por torcedores que estiverem portando ingressos para o jogo e trabalhadores ligados diretamente à partida em questão. Por isso, a Polícia Militar do Rio de Janeiro e sua tropa de choque fizeram de tudo, o possível e o impossível, o aceitável e o inaceitável, para manterem os manifestantes longe daquela que outrora fora a casa do povo: o Maracanã.

 

À base de balas de borracha, espancamentos aleatórios, bombas de gás de pimenta e efeito moral, atiradas pela infantaria e também por helicópteros, a polícia conseguiu cumprir sua missão: deixar o povo longe da Copa, que é entoada em todos os microfones corporativos como sendo “de todos.”

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A concentração começou por volta das 16h na Praça Saenz Peña e lá se juntaram diversos setores da esquerda, de forma apartidária, com diversas pautas a serem expostas. Entre os grupos presentes, estava a Rede de Comunidades contra a Violência, demandando a desmilitarização da PM e a retratação pública da chacina da favela de Nova Holanda, ocorrida na madrugada do último dia 24, na comunidade situada no complexo da Maré, subúrbio. “Queremos a retratação pública do (secretário de segurança José Mariano) Beltrame e do governador Sérgio Cabral em relação à chacina da Maré, em que morreram 13 pessoas”, exigiu Everton, 27 anos e morador da Maré.

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Naquele dia, houve uma manifestação na região e algumas pessoas se aproveitaram da situação para praticar saques no comércio local, refugiando-se dentro da favela e criando um pretexto para o Bope invadir o bairro. “A polícia atirou nos transformadores que levam luz para a comunidade, deixando toda a favela no escuro antes de invadi-la”, prosseguiu Everton.

 

Durante a invasão houve troca de tiros com traficantes locais e um oficial do Bope acabou sendo morto, junto com outros traficantes. A partir daí, a barbárie se instalou. A força policial assassinou pelo menos 10 pessoas, entre elas menores de idade e cidadãos que não tinham antecedentes criminais. “Houve denúncias de que quatro dos treze mortos foram assassinados a facadas”, explicou Everton.

 

Além da Rede, também estava o SOS Bombeiros, grupo que reivindica o fim das perseguições dentro da corporação e exige melhores salários e equipamentos. “Sou um dos 14 bombeiros excluídos da corporação e presos em Bangu 1. Nós sofremos o crime de tortura na cadeia, ficando incomunicáveis durante três dias, e estamos aqui exigindo a reintegração dos bombeiros expulsos”, afirmou André Carlos Azevedo de Santos, 28 anos, ex-cabo do corpo de bombeiros.

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“Fomos expulsos por fazermos um ato de protesto contra a prisão do cabo Daciolo, também em Bangu 1. Fizemos o ato e depois fomos trabalhar normalmente, só que sem uniforme, e a grande mídia noticiou que estávamos em greve, o que é uma mentira; daí expulsaram e prenderam outros 13 bombeiros com a clara intenção de dar o exemplo aos oficiais descontentes”, explicou. André ainda garantiu que, não fosse a pressão dentro dos quartéis exercida pelos coronéis, eles teriam levado às ruas mais de mil bombeiros. “Não estamos satisfeitos com nossos baixos salários e com a falta de equipamentos, que nos prejudica na nossa missão de proteger os cidadãos cariocas”, protestou.

 

Um grupo de agricultores do sul da Bahia também estava presente, divulgando um documentário sobre a vassoura-de-bruxa, uma doença que ataca árvores, principalmente as de cacau, principal produto da região e que, segundo os ativistas, foi introduzida nos campos do sul da Bahia por via humana. Os agricultores baianos estavam ali denunciando as taxas de desemprego na região, altíssimas, afirmando que o cultivo do cacau está ameaçado graças a essa doença, que, segundo relatório da PF, foi introduzida por “ato deliberado humano”. Eles não quiseram dar entrevista, apenas conversaram a respeito.

 

Representando a Aldeia Maracanã, estava Luciano Roxo, de 33 anos, reivindicando a volta do espaço de cultura indígena e criticando a aliança entre o governo do estado do RJ e a FIFA, ao portar uma placa que dizia “FIFASCISMO”. Para ele, manter a aldeia Maracanã “era uma oportunidade histórica de retratação a tantos genocídios e massacres cometidos contra a população indígena ao longo de 513 anos”.

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Por volta das 16h20, houve um primeiro incidente. A reportagem da TV Globo foi expulsa da praça Saenz Peña por manifestantes e a PM foi ao foco do conflito para fazer a contenção dos envolvidos. Ao tentar deter um dos manifestantes, a multidão cercou os militares e, após alguma pressão, o rapaz foi solto. Poucos minutos depois a marcha saiu pela rua Conde de Bonfim, entoando diversos gritos, entre eles uma paródia da tradicional música corintiana, com os dizeres “Cabral, eu não me engano, teu coração é miliciano”, lembrando para todos do envolvimento, ou no mínimo leniência, do governador com as milícias que aterrorizam os subúrbios do Rio de Janeiro.

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A marcha foi seguindo tranquila em direção ao estádio do Maracanã, pela Rua Conde de Bonfim, passando pela São Francisco Xavier, até chegar na esquina da mesma com a Avenida Maracanã, um ponto completamente bloqueado pela polícia militar, em verdadeira operação de guerra.

 

Tomo, como repórter, a liberdade de colocar uma impressão extremamente pessoal: nunca vi tantos militares juntos, dessa forma e ao vivo, bloqueando um bairro inteiro e dispostos a usar a violência a qualquer momento e custo. Apenas moradores portando comprovantes de residência e torcedores com ingressos à mão podiam passar. A mídia corporativa pôde passar a barreira para fazer imagens; em contrapartida, a mídia independente foi barrada na base de ameaças verbais e físicas. Um fotógrafo teve a câmera quebrada. Os manifestantes ficaram ali até as 19h, quando foi iniciada a partida e a repressão. Sem nenhuma razão ou pretexto, além de alguma ordem superior, que justificasse a ação truculenta, a PM começou a dispersar a multidão atirando bombas e balas de borracha. Uma das balas, atirada à queima-roupa, rasgou a testa de um rapaz, deixando seu crânio exposto. Nem a barraquinha de acarajé localizada ali na mesma esquina foi poupada.

 

Mesmo com a bruta repressão, a marcha tentou reunir-se diversas vezes, sem sucesso. Até os helicópteros da PM se deram o luxo de atirar bombas de gás lacrimogêneo e efeito moral na multidão, e uma verdadeira caçada foi perpetrada pela polícia militar carioca nas ruas da Tijuca. Por volta das 20h, a manifestação estava dispersa e os participantes buscavam meios de ir embora e fugir dessa caça, pra lá de covarde e desproporcional. Acontece que, graças à Lei Geral da Copa, diversas estações de metrô estavam fechadas e muitas ruas bloqueadas, o que dificultou a fuga dos perseguidos e facilitou a perseguição dos militares.

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No momento em que a reportagem conseguiu chegar novamente à praça Saenz Peña, a fim de ir embora para a rodoviária, foi presenciada uma discussão entre uma garota que participava da manifestação e dois rapazes vestidos com a camiseta da equipe da CBF. Os rapazes, torcedores (pelo menos de ocasião) da seleção, estavam indignados por não conseguirem chegar ao estádio. “Nós gostamos disso (da Seleção, da Copa) e, por causa de vocês, vândalos, não conseguimos entrar no estádio”, bradava um dos rapazes. A moça contra-argumentava, dizendo que era necessário mudar o país e que os eventos da FIFA só serviam para fortalecer um mega-esquema de corrupção, enquanto os serviços públicos estavam completamente degradados. Em resposta, um dos rapazes gritou: “se você não está contente, vai embora para a Argentina e some do meu país”, proferindo um palavrão contra a garota logo em seguida.

 

O que houve no Rio neste fim de tarde é mais do que emblemático e demonstra o caráter de exclusão da Copa do Mundo que será realizada no Brasil no ano que vem. Os esforços do poder público e privado para separar o futebol do povo foram tantos que até os jogadores espanhóis estranharam o Maracanã. Eles, que esperavam jogar naquele templo monstruoso, encontraram apenas mais um estádio nos moldes europeus, que em nada lembra os grandes estádio brasileiros, onde jogaram os nossos maiores craques do passado.

 

“Quando estivemos no Maracanã, não tive a sensação de jogar em um estádio com tanta história. Chegamos e vimos um estádio moderno, novo, cheio de cor, mas que não é capaz de transmitir a história e os jogadores que passaram por ali. Não é como quando se vai a Anfield, La Bombonera, ao Monumental de Nuñez, em que se sente o tempo. Gostaria de ter jogado no Maracanã antes da remodelação”, revelou o lateral-direito Arbeloa, na véspera da final.

 

O pensamento do atleta já estava na boca do povo, principalmente aquele que frequentava o velho Maraca, e essas mesmas vozes que vêm das ruas, em concordância com Arbeloa, já estão avisando a todos no Rio, em São Paulo, em Fortaleza, em Belo Horizonte, em Brasília e em todo o país, no tom mais desafiante possível, para que o mundo escute: “não vai ter Copa!”.

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