Globufanismo

O rugby é um jogo animalesco jogado por cavalheiros e o futebol é um jogo de cavalheiros jogado por animais (Henry Blaha, jornalista estadunidense)

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Se por um lado, ver qualquer coisa em qualquer canal da globo a qualquer hora é de tirar qualquer ser minimamente inteligente do sério, por outro, ver a vontade global, quase divina, contrariada e frustrada é muito mais engraçado do que um ano inteiro de zorra total concentrado em cinco minutos.

 

Me refiro ao jogo de ontem. Ao primeiro jogo das finais da Copa Libertadores da América deste explosivo 2013, disputada no místico Defensores del Chaco, um baita templo do futebol localizado em Asunción. Um jogo em que decidi assistir por amor ao futebol e especialmente a este que é o maior campeonato de futebol do mundo (fodam-se as Copas da FIFA e as da UEFA).

 

Minha intenção inicial e natural – que é de assistir por amor e admiração ao esporte quando não é o meu time em campo – aos poucos foi mudando. No decorrer do jogo, mais precisamente a cada comentário paquidérmico da equipe do sportv, fui me tornando um torcedor. Quando me dei conta, havia me convertido em um hincha do Olimpia. Paraguaio, fanático e anti-brazuca desde criancinha. Já estava até xingando em “guarañol,” a mescla paraguaia entre os idiomas guarani e espanhol.

 

Isso tudo porque não suporto mais ouvir a voz de Luis Carlos Junior, Milton Leite, Galvão Bueno, Tiago Leifert e toda essa corja de yuppies metidos a besta e o seu ufanismo de quinta categoria misturados a um humor tosco de condomínio fechado. Além, é claro, dessa velha “bundamolice” oficial da nossa (quase) emissora estatal – visto que sem ajuda estatal, a globo teria fechado suas portas em 2003 – que está transformando o futebol brasileiro em uma espécie de golf das massas.

 

Mas voltemos ao assunto: o misto de brasileirismo e ufanismo de quinta categoria que rege a linha editorial do jornalismo esportivo global. Nesse caso, o narrador da partida foi Luis Carlos Junior, ele que embrulharia o estomago na noite de ontem de qualquer amante do futebol, falante de espanhol e apaixonado pelas ligas estrangeiras da nossa América. Por volta dos dez minutos de jogo, ainda com o marcador zerado, a torcida local cantava uma de suas canções a qual era claramente ouvida por qualquer um que assistisse o jogo pela TV. Afinal, o jogo era no Defensores del Chaco, no Paraguai, e o time da casa era o Olimpia, uma equipe de tradição que já faturou três Libertadores e tem a segunda maior torcida do país. Perfeitamente comum e aceitável que estivessem mais animados do que os torcedores visitantes. Eis que o diretor da transmissão da rede goebbels manda abaixar os microfones voltados ao público local e aumentar o dos visitantes. No mesmo instante, o papagaio oficial diz algo como “vejam a torcida do Galo cantando amigos, só se ouve a festa dos atleticanos.” Com todo o respeito a torcida do Atlético que é uma baita torcida: não! Ali não se ouvia a torcida mineira. Ouvia-se a torcida paraguaia. E como já dizia Eduardo Galeano, o futebol nada mais é do que a dança dos deuses. E os deuses da bola castigam. A Mística se faz presente. E logo após essa infelicidade da transmissão global, gol do Olímpia. E que golaço, amigos. Haja coração.

 

O jogo em si foi fraquíssimo na minha opinião. O Olimpia mantinha certo domínio no meio de campo, tocando bem a bola mas não tinha qualidade para definir as jogadas, enquanto o Galo mal armado e completamente atrapalhado tentava compensar na correria o desaparecimento – amarelamento – de Ronaldinho e o parco posicionamento de Luan.

 

No segundo tempo, o mesmo Luis Carlos Junior reparou que nas costas dos jogadores do Olimpia, estava estampada a frase: campeones del mundo. E o narrador repetiu isso sistematicamente durante todo o segundo tempo, sem informar aos telespectadores que essa frase se referia à história do clube, ao titulo de campeão mundial conquistado pelo Olimpia em 1979, o único conquistado pelos paraguaios até hoje. Este que foi o último mundial de clubes disputado em partidas de ida e volta, nas quais os paraguaios venceram os suecos do Malmô, na Suécia, por 1 a 0, e os venceram novamente, no Defensores del Chaco, por 2 a 1. Agora, o que pensa um telespectador médio ouvindo uma informação dessas pela metade? “Porra meu! Campeões do mundo? Os caras tão achando que já ganharam até do Bayern!” Foi uma frase que ouvi no bar em que assisti ao jogo.

 

Enfim, isso tudo tem a ver com a demonização dos argentinos perpetrada pela globo e toda essa babaquice que envolve a disputa entre Pelé e Maradona, e esse ufanismo barato que se faz necessário frente à “nossa bundamolice”. Acontece que o Brasil é um país enorme e muito mais rico que os vizinhos, mas mesmo assim, temos perdido de goleada nas arquibancadas, nas transmissões e na garra apresentada em campo. E a globo, como atual dona do futebol brasileiro, tem sim uma parcela enorme nessa nossa perda de identidade futebolística. Esse “bom-mocismo” de Caios Ribeiros e Tiagos Leiferts nada tem a ver com a cotovelada que Pelé deu nos uruguaios, com a marra do baixinho Romário, a fúria de Edmundo, Serginho Chulapa e tantos outros craques que construíram a nossa história. Assassinaram o Maracanã, assassinaram o Mineirão, assassinaram tantos outros estádios Brasil a fora, acabaram com a irreverência e a malandragem de jogadores e torcedores e ainda querem nos vender isso tudo a preços absurdos. Chegou mais do que o momento de dizer para a globo que o futebol brasileiro é do povo e não dela.

 

Fazendo uma breve pesquisa no youtube, digitei: “ei globo, vai tomar no cu”. E o site respondeu assim: “aproximadamente 5,600 resultados.” Separei alguns links aqui abaixo para divertir um pouco os leitores que simpatizem com essas idéias.

Grêmio, Porto Alegre

Palmeiras, São Paulo

Santos FC, Santos/São paulo

Sport, Recife

E para satisfazer os meus companheiros Palmeiristas, termino esse post raivoso com uma imagem que me mandaram no ano passado logo após a conquista da Copa do Brasil pelo meu time do coração, com mais um recadinho carinhoso para a emissora da ditadura militar:

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