Bater na Fifa virou esporte nacional

dilma blatter

Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed756_bater_na_fifa_virou_esporte_nacional

 

O esporte nacional não é mais o futebol. O esporte nacional é bater na Fifa, organizadora da Copa do Mundo. Não importa o que a Fifa diga, está errado – mesmo quando o que a Fifa diz está de acordo com as opiniões de quem a critica. Trata-se a Fifa, nos meios de comunicação, como se fosse uma entidade todo-poderosa, acima dos países e governos, a quem humilha por pura maldade, embora a Fifa seja apenas, para o bem e para o mal (e frequentemente para o mal, já que há inúmeros casos de corrupção a ela relacionados, que sempre procurou contornar em vez de esclarecer), uma empresa privada, não pertencente a governo nenhum, criada e operada com o objetivo exclusivo de desenvolver seus negócios e dar lucros.

Alguns fatos básicos têm sido esquecidos pelo jornalismo deste país – inclusive que, sob o comando da Fifa, o futebol cresceu constantemente no mundo inteiro. Como lembrava o ex-presidente João Havelange, há mais países filiados à Fifa do que à ONU. As tentativas de minar a organização internacional (como a formação de times não-afiliados, em especial o Millonarios, da Colômbia, que reuniu em certa época alguns dos maiores nomes do futebol mundial) sempre falharam. Estarão todos errados, não haverá ninguém que se salve?

1. A Fifa não pediu ao Brasil para organizar a Copa. Vários países, entre eles o Brasil, pediram à Fifa que os escolhesse para realizar o torneio. Entre vários candidatos, o Brasil venceu – não apenas a CBF, Confederação Brasileira de Futebol, mas o Estado brasileiro, já que o presidente da República participou das articulações para que o país fosse escolhido e assinou, oficialmente, uma carta em que se comprometia a realizar ou garantir uma série de providências. Entre elas, por exemplo, providenciar a permissão de venda de cerveja nos estádios, o que era vedado pela lei brasileira. O Brasil poderia ter rejeitado a exigência e a Fifa ou aceitaria a decisão ou realizaria a Copa em outro país. Simples assim.

2. A Fifa não determinou que o Brasil construísse estádios em cidades onde o futebol não é lá muito popular. Brasília, Manaus, Campo Grande provavelmente terão problemas para utilizar os estádios depois da Copa. Quem escolheu essas cidades? O governo brasileiro e a CBF. Se Belém fosse escolhida, em vez de Manaus, para a Fifa não faria diferença. E no Pará o futebol é esporte popular. Em Goiânia há um belo estádio que poderia ser modernizado a custo muito inferior ao da construção de um novo. Em Brasília é bem mais difícil utilizá-lo – a tal ponto que querem importar jogos cariocas para dar-lhe sentido.

3. A Fifa não determinou, também, que a Copa se realizasse em doze cidades-sede. Doze é muito; encareceu as obras (o que talvez tenha deixado muita gente satisfeita), encarecerá o turismo, tornará mais cansativo e mais caro o giro das seleções. Por que doze, e não seis? Porque o Brasil assim o quis.

4. O Brasil precisa de escolas, hospitais, transporte, e não de novos estádios. Voltamos à questão inicial: a opção foi oficial, brasileira. Para realizar a Copa, seria preciso deixar os estádios confortáveis, modernos, prontos para transmissão internacional de TV, equipados para uso de Internet. A Fifa também não obrigou o governo a colocar dinheiro em equipamento esportivo. O governo é que fez as opções: estádios padrão Fifa, muitos deles com dinheiro público. É ruim? Se for, a escolha foi nossa, do nosso governo democraticamente escolhido.

5. A realização da Copa não deixa nenhum legado útil à população do país. Aceitemos, para argumentar, que isto seja rigorosamente verdadeiro (e não é). Mas Barcelona aproveitou a oportunidade dos Jogos Olímpicos para modernizar-se, tornar-se mais bonita, mais agradável, mais acolhedora. A oportunidade é a mesma; se o Brasil a perdeu, não pode botar a culpa em gente de fora.

5. O presidente da Fifa, Joseph Blatter (que este colunista, a propósito, considera uma figura pouquíssimo recomendável), disse que talvez a entidade tenha cometido um erro ao escolher o Brasil para realizar a Copa. Pode ter razão ou não; mas não é exatamente a mesma coisa que dizem os críticos da disputa da Copa no Brasil? Blatter disse, em outras palavras, que poderia ter escolhido lugar mais tranquilo. Poderia; e parece estar arrependido da escolha. Não há em suas palavras, entretanto, nenhuma ameaça imperialista de violar a soberania brasileira e mudar a Copa de país, embora isso possa acontecer (e pelo menos dois outros países americanos, Estados Unidos e México, têm condições de realizá-la com pouquíssimo tempo de preparação). Se isso ocorresse, realizaria o sonho de quem acha que a Copa é um desperdício de tempo e dinheiro. E não seria a primeira vez: a Colômbia, em 1986, desistiu da Copa devido a problemas de segurança, e o México a realizou com tranquilidade.

Quanto ao mais, caro leitor, tanto Blatter como seu adjunto Jerôme Volcker não são pessoas cuja visita possa considerar-se agradável. Só que o problema não é este: os dois, arrogantes, autoritários, prepotentes, antipáticos, foram convidados pelo governo brasileiro. Não vieram à força; foram chamados. É duro admitir, mas estão aqui porque ueremos, conforme decisão de nossos governantes.

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