O DIA EM QUE A POLÍCIA MILITAR FEZ COM QUE EU DEIXASSE DE SER UM AMANTE DO FUTEBOL: RELATO DE VIOLAÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS

choque

Segue abaixo relato do amigo Luiz Enrique Vieira, torcedor do SPFC.

“Grandes clubes já foram rebaixados para a série B e o próximo a entrar pra lista será meu SPFC. Mas isto, em si, não me abala em nada e já estava preparado para assistir SPFC X Bragantino na segundona de 2014. Então fui ao Canindé, domingo passado, para ver SPFC X Portuguesa. No entanto, quando eu estava na fila pra comprar o ingresso, policiais militares começaram, de forma agressiva e truculenta, a “organizar” a fila. Eu protestei contra a maneira violenta como eles estavam procedendo e fui conduzido para uma das entradas do estádio. Quando estávamos num lugar escuro e longe dos olhos de testemunhas, um policial começou a me estrangular e outro me infligiu uma série de murros no peito. Enquanto eu ainda conseguia respirar, disse que aquilo não era necessário e que eu colaboraria com os procedimentos legais. Aos poucos fui sendo sufocado e percebi que desmaiaria. Antes de desmaiar, senti um pavor de que eu poderia não sair dali com vida e também me senti profundamente triste com meu último pensamento antes de desfalecer “se eu morrer aqui, terá sido a morte mais tola, algo que eu jamais teria imaginado”. Ao recobrar os sentidos, os policiais me levaram para uma salinha no interior do Canindé. Por ser um lugar iluminado, imaginei que estava a salvo e disse que queria um copo d’água e um telefonema. Os policiais recusaram-se a atender meus pedidos e então eu fiz um escarcéu dizendo que tinha sido estrangulado e que precisava de um copo d’água. Depois de esvaziar com um gole o copo que me trouxeram, eu disse que havia sido vítima de agressão policial, covardemente agredido por ter protestado contra a conduta truculenta dos policiais na fila. Eles começaram, então, a exercer terror psicológico e negaram meu direito a um telefonema (eu estava sem o meu celular, mas se o tivesse comigo também duvido que me teria sido permitido fazer a ligação). Minha argumentação fez com que o “sargento-ou-sei-lá-que-patente” que registrava os meus dados percebesse que eu tinha conhecimento da lei, poder de argumentação e que talvez pudesse lhes causar algum tipo de transtorno com uma denúncia formal. Ele buscou “contemporizar” e perguntou se eu queria assistir o jogo. Eu disse que sim, mas que, antes, queria que me explicassem a razão daquela brutalidade e de qual crime eu estava sendo acusado. Nesse momento entrou o “comandante-ou-sei-lá-o-que” e disse que era pra me “botar pra fora do estádio”. Então eu sai de mim, fiquei furioso e disse que estávamos no meio de uma ocorrência, aquilo não era a casa dele. “Coxinha (sim, o sentimento de indignação era tanto que eu o chamei de “coxinha” repetidas vezes), isso não é a sua casa, isso é um Estado democrático, nós não estamos na Turquia e eu quero que vocês expliquem por que me trouxeram pra cá arrastado e estrangulado”. Fui conduzido para fora do estádio: “Senhor Luiz, o senhor não possui ingresso”. Corri para comprar ingresso, pois, não sei exatamente por qual razão, assistir o jogo tinha se transformado numa questão de honra. Além disso, eu encontraria algum telefone público ou alguma pessoa disposta a me emprestar o celular. Mesmo com o ingresso na mão, o policial não me deixou entrar porque eu “havia causado confusão”. Argumentei que eu tinha ingresso e que ele não podia me impedir, ao que ele respondeu “então você vai ter que nos acompanhar ao DP”. Numa fração de segundo eu saí dali em pânico, o mais rápido que pude, pois, dado o que eles já me tinham feito e o tom da voz do policial, eu sabia que algo ruim me aguardava se eu o “acompanhasse ao DP”. Depois disso, pensei em ir à corregedoria, mas eu não possuía hematomas. A covardia deles é tanta que eles sabem estrangular e bater sem deixar marcas. Além disso, eu me sentia estuprado espiritualmente, não estava em condições emocionais de passar a noite registrando a ocorrência. Eu só queria chegar em casa, tomar um banho e chorar. Mas, se ainda houver algo que eu possa fazer, estou disposto a entrar com uma representação. Não tenho nenhuma esperança de que os covardes policiais que me agrediram sofram qualquer punição. Mas isso serviria, talvez, para fins estatísticos, pois são essas estatísticas que ao menos garantem que os órgãos internacionais continuem a denunciar as sistemáticas violações das instituições brasileiras aos princípios básicos de respeito aos direitos humanos”.

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Por Raphael Sanz

A PM trata a todos como escravos desprovidos de alma – Este não é o primeiro e nem será o último relato de abuso policial em estádios de futebol no Brasil. A questão implícita aí tem uma raiz histórica que vai muito mais longe do que a própria ditadura militar que gerou e mimou a PM, seu filhote herdeiro. Na gênese da força pública brasileira, pouco depois da independência é que encontramos a lógica desta maneira de atuar. Na época, a capital era o Rio de Janeiro e, como tal, a cidade tinha basicamente três classes sociais: funcionários públicos e artesãos (estes pouco importam), senhores de escravos e escravos. E um escravo não era considerado humano. A própria Igreja Católica não reconhecia a existência de “alma” nos homens e mulheres negros e, assim, justificava a escravidão e todo o sistema que dependia dela. Dependia? As relações de trabalho atualmente se assemelham muito àquela de outrora.

Mas enfim, muitos senhores de escravos naquela época não tinham nada, senão seus escravos. E esses escravos eram sua propriedade privada. Para se sustentar, esses ilustres senhores de escravos mandavam os mandavam para as ruas trabalhar em qualquer oficio (daí surgiram engraxates, vendedores de doces, e outras atividades rueiras) e, obviamente, o escravo que não levasse a quantia exigida pelo seu dono, sofria sanções que variavam de casa para casa. Essa violência patronal gerava claramente a violência nas ruas. Um escravo não queria passar o dia todo trabalhando na rua para chegar na senzala e ser açoitado, afinal, ninguém tem sangue de barata. Então era comum que esses “escravos de ganho” (como eram chamados) praticassem pequenos furtos e roubos para satisfazer as demandas dos seus donos e acalmar a fúria dos seus chicotes.

A polícia, quando os flagrava cometendo um pequeno delito destes, não podia mantê-los presos, afinal não eram pessoas, eram coisas, propriedades de alguém que se encontrava acima do incipiente policial na pirâmide social do Império. Além do que, se ficassem presos, trariam prejuízos aos seus donos. Sendo assim, os novos capitães-do-mato eram instruídos a não prendê-los e, em contrapartida, deveriam castigá-los ali mesmo, na rua, da maneira mais violenta que pudessem, porém, tomando cuidado para não invalidar o escravo já que seu dono teria o direito de usufruir do seu trabalho. Esta é a gênese da violência irracional da policia.

Portanto, sinto dizer isso ao camarada Luiz Enrique, mas aqui pode não ser a Turquia, mas é tão brutal e violento quanto. A questão é: pela primeira vez na historia deste país, o povo está contestando o papel da PM, exigindo o fim dela e o fim de um genocídio perpetrado por ela, colocando milhares de pessoas nas ruas com esta finalidade. E como qualquer animal que se sente ameaçado e acuado, a PM está se debatendo, esperneando e a cada dia que passa mais violenta. Então se preparem: até que ocorra a desmilitarização da PM, relatos como o do nosso amigo Luiz Enrique serão cada vez mais freqüentes.

Os vídeos abaixo explicam um pouco melhor essa questão histórica da violência institucional e estatal brasileira. Vale a pena conferir.

 

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