Arquivo do mês: setembro 2013

CAMPEÕES INVISÍVEIS

taça

 

Texto retirado daqui: http://www.apublica.org/2013/09/saga-da-selecao-esquecida-copa-do-mundo-homeless-futebol-social-brasil/

Por Ciro Barros e Giulia Afiune

Conheça a seleção das periferias brasileiras que, sem recursos nem aplausos, conquistou o título da Homeless World Cup de 2013

Acostumado a ser Golias nos torneios de futebol internacional, o Brasil viveu seu dia de Davi. E não faz muito tempo não. No último dia 18, quatro jovens brasileiros conquistaram a Homeless World Cup, a Copa do Mundo dos Sem Teto, campeonato de futebol criado há dez anos para denunciar as precárias condições de moradia que afetam um grande número de pessoas no mundo.  O primeiro torneio, em 2003, reuniu moradores de rua de diversos países na cidade de Graz, na Áustria. O mais recente, que deu a vitória aos brasileiros reuniu equipes de 50 países em Poznan, na Polônia.

Hoje o torneio engloba também pessoas que vivem em “situação de risco”  por  morarem em áreas violentas, em habitações precárias, em áreas sem acesso a infraestrutura básica, condição em que se encaixam boa parte dos moradores das periferias das grandes cidades brasileiras.

O jogo é dividido em dois tempos de sete minutos e as equipes se organizam como no futebol de rua: três jogadores na linha e um no gol. Vale até aquela clássica tabela com a parede, usada pra ajudar a driblar os adversários em campinhos e quadras no Brasil. Naquele dia 18 de agosto, estavam na linha Darlan Martins, morador do Cantagalo (Rio), Douglas Batista, do Jardim Ângela (São Paulo) e Robson Martins, do Campo Limpo (São Paulo); Vinícius Araújo, da Rocinha (Rio) estava no gol.

Por falta de recursos, o “país do futebol” mandou a menor delegação entre os 59 países participantes: além dos quatro atletas, viajou o técnico Flávio “Pupo” Fernandes, professor de Educação Física. Guilherme Araújo, da ONG Futebol Social, responsável pela montagem da equipe, explica: “A gente já vinha trabalhando com o mesmo patrocinador desde 2011, o patrocínio para esse ano era algo quase que automático. Como o patrocinador nos apoia mediante a Lei de Incentivo ao Esporte, o projeto foi submetido ao Ministério do Esporte, mas não foi aprovado a tempo”, conta.

O patrocinador em questão é a Eletrobras, empresa estatal de energia elétrica, e como era considerado certo, a ONG já se mexia para conseguir os aportes para o ano, quando veio a notícia de que a verba não viria. “A informação que a gente teve era de que faltava uma carta de intenção de patrocínio. Esse nosso patrocinador, uma estatal, não faz esse tipo de carta. E a empresa está passando por uma grande reestruturação, passando por sua maior crise da história, então era inviável”, resume.

Diversos patrocinados sofreram cortes com crise da Eletrobrás, que chegou a registrar a maior queda de suas ações em quinze anos – 15% – em novembro do ano passado. O aporte dado à Confederação Brasileira de Basquete (CBB), por exemplo, caiu 42%: passando de R$ 13 milhões em 2012 para R$ 7,5 milhões em 2013.

Já a delegação mexicana, que disputou a final com o Brasil, levou 45 pessoas à Polônia: além de 20 atletas, incluindo a comissão técnica, 25 pessoas foram como convidadas da Fundação Telmex, braço social da Telmex, gigante do ramo das telecomunicações que atua em países como a Argentina, o Chile, a Colômbia, os Estados Unidos, o Equador, a República Dominicana, e até mesmo no Brasil, como controladora  da Claro, uma das quatro gigantes de telecomunicação brasileiras. O dono da Telmex, o bilionário mexicano Carlos Slim Helu, foi eleito o homem mais rico do mundo pelo quarto ano seguido no ranking da revista Forbes. Sua fortuna é estimada em nada menos do que R$ 73 bilhões, R$ 6 bilhões à frente do segundo colocado Bill Gates.

“O dinheiro com o qual eles mandaram essas 45 pessoas é o dinheiro que a gente consegue manter todo o nosso projeto durante um ano”, compara o técnico Pupo Fernandes.

Ainda assim, em uma final suada, os quatro atletas brasileiros venceram os mexicano.s Na disputa dos pênaltis que se seguiu ao empate de 3 a 3, o goleiro brasileiro defendeu a primeira bola e Darlan Martins, eleito o melhor jogador do torneio, marcou o gol que deu o título ao Brasil. Após disputar dez partidas consecutivas, sem banco de reservas, sem verba, sem apoio, o time voltou com o caneco, mostrando a raça das periferias brasileiras.

MUITO ALÉM DO GRAMADO

A reportagem da Pública encontrou Douglas Batista e Robson Martins, os dois paulistas da equipe campeã do Homeless World Cup, na sede do Estrela Nova, clube comunitário do Campo Limpo que integra a rede de entidades parceiras da ONG Futebol Social, que utiliza o esporte como meio de formação de jovens líderes comunitários, de idades entre 16 e 20 anos.

Para fazer parte do time, não basta ser bom de bola, os avaliadores selecionam também pelos vínculos que mantêm com a comunidade, pelo engajamento social para transformar a comunidade e pela situação de risco em que se encontram.

Robson tem o perfil da vítima de violência nas periferias brasileiras. Ele é negro, tem 18 anos e está desempregado há seis meses. De acordo com dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, no ano de 2011, 59.198 pessoas foram assassinadas no Brasil. Deste total, 35,2% (18.387) eram afrodescendentes de idades entre 15 e 29 anos.

Ele trabalha desde os 16 anos para ajudar a mãe, que sustenta a casa sozinha com o salário de metalúrgica. Antes de deixar o emprego em uma empresa de instalação de portões, ele trabalhava numa serralheria. Em nenhum momento, porém, pensou em largar o futebol. “É a minha vida, é o que eu mais gosto de fazer, quero ser jogador desde os meus cinco anos de idade”, conta, emocionado.

Morador do bairro Maria Virgínia, no coração do Campo Limpo, Robson é obcecado pelo sonho de jogar futebol profissionalmente desde que começou a assistir os jogos do Corinthians, seu time do coração. Na comunidade, não encontrava áreas de lazer para afiar seus dribles, chutes, passes e lançamentos, e até os 16 anos, frequentava escolinhas de futebol onde conheceu dezenas de garotos que, como ele, amavam a bola e depositavam ali suas esperanças de melhorar a própria vida e a dos familiares. O tempo foi passando, porém, sem que ele obtivesse a esperada vaga numa equipe de base de um clube profissional.

“Peneira eu já fiz muitas. Inclusive já passei, mas os caras só fazem promessas. Eu passei umas vezes, os caras falaram que iam me levar para um clube, mas nunca levaram”, diz.

A maior decepção com o futebol aconteceu perto da sua casa, no CDC (Clube da Comunidade) do Sapy, ali no Campo Limpo, ele conta. Ao saber que o Internacional, gigante colorado do Rio Grande do Sul, iria fazer uma peneira ali, Robson acordou cedo, e nas primeiras horas da manhã já estava esperando pelo ínicio da triagem.

“Naquele dia eu joguei bem”, conta, “eu tinha passado, já tava treinando entre os escolhidos, e aí chegou um menino não sei de onde, com pai e empresário e tudo. E tiraram eu pra colocar o menino. Aí, no final do treino me disseram que eu não precisava mais treinar, que estava dispensado”, conta.

No mundo do futebol, apesar de muito jovem, Robson já é um veterano. Neymar, por exemplo, entrou para as categorias de base do Santos aos 11 anos e estreou como profissional aos 17 anos. Ainda assim ele continua a treinar sozinho em suas tardes no CDC do Sapy, sem perder a esperança. “Eu corro, faço uns trotes, chuto a bola na parede. Estou sempre me preparando para quando aparecer a oportunidade. Com força, esperança e foco vai acontecer”, acredita.

Se nos próximos dois anos ele não conseguir uma colocação no futebol, porém, Robson sabe o que o aguarda: emprego, oito horas de trabalho por dia, marmita à tiracolo. O cronômetro está rolando.

“No país do futebol, com 5 Copas do Mundo, você vê milhões de reais sendo investidos em estádios, no time, na seleção e você não tem ninguém, nenhum empresário nem patrocinador para investir em nós”, reclama o outro campeão mundial, Douglas Martins, morador do Jardim Ângela, também na zona sul da capital paulista. Como Robson, ele sempre quis ser jogador de futebol. Apoiado pelo pai, marceneiro, e pela mãe, recepcionista de cabeleireiro, ele passou por oito clubes, na tentativa de entrar em uma equipe de base, entre eles o Brasil de Pelotas, o Paulista de Jundiaí e até o São Paulo.

A pior experiência para Douglas foi no Mogi das Cruzes, quando ele tinha 18 anos. “Eu comia só arroz e dormia no chão sujo, em um colchãozinho que quase não era colchão. Durante duas semanas foi tanto perrengue que eu pensava ‘será que é isso mesmo que eu quero da minha vida?’. Aí a sua mãe te liga, te pergunta como que tá e você tem que mentir, né? Porque se não ela ia querer me buscar. E como eu quero esse sonho, resisti até onde eu pude.”

Após ser dispensado do Brasil de Pelotas, com 19 anos, Douglas desistiu e foi trabalhar na marcenaria do pai, mas não se sentia feliz: queria voltar ao futebol, que continua sendo o seu principal projeto. “Meu plano B é estudar, fazer uma faculdade. O Ensino Médio eu já completei. E, se não der certo no futebol, tentar seguir outra vida”, diz.

FUTEBOL SOCIAL VS. COPA DO MUNDO

Impulsionar jovens a fazer carreira no futebol, porém, não é o objetivo central da ONG Futebol Social, responsável pela montagem da equipe brasileira para a Homeless World Cup, criada por Guilherme Araújo após uma experiência dele na revista Ocas, publicação vendida por pessoas em situação de rua como oportunidade para que voltem a exercer um trabalho remunerado.

“O projeto nasceu dentro da Ocas, cresceu dentro da Ocas e no fim de 2009 a gente fundou uma nova ONG”, conta Araújo. A Ocas havia sido convidada a representar o Brasil na “Homeless World Cup”, mandando um time de moradores de rua. “Eu treinei o time e tivemos dificuldades, porque muitos nunca tinham praticado um esporte, uma atividade física”, conta o técnico Pupo Fernandes.

Da experiência veio a ideia de usar o futebol como um agente de transformação social através de um projeto desenvolvido por uma rede de entidades parceiras como o Clube da Turma e o Estrela Nova, no extremo sul de São Paulo, e o Criança Esperança do Rio de Janeiro. A ONG Futebol Social também está presente em Minas Gerais, em Brasília e no Pará.

“Temos a meta de chegar a todas as regiões do Brasil, mas ainda estamos buscando recursos para isso”, conta Pupo Fernandes. “Nesse momento vemos que a mídia e os patrocinadores focam muito mais a Copa do Mundo do projetos como o nosso. Por exemplo, um patrocinador prefere pegar R$ 100 mil e fazer mil bolas associando-se à Copa do que destinar a um projeto como o nosso”, avalia.

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PRIVATIZAÇÕES ATINGEM O CARNAVAL DO RIO

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Na manhã da última segunda-feira, 23 de setembro, o Rio de Janeiro acordou mais triste. Uma série de pacotes de privatização e abertura de licitações foi anunciada para a prestação de serviços e parcerias público-privada já no carnaval de 2014. A Sapucaí foi concedida a um consórcio norte-americano com alguns investidores brasileiros, dentre eles a EBX do mega empresário Eike Batista e que já possui concessão sobre o estádio do Maracanã. De acordo com o quê prevê o projeto de modernização do carnaval, a Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIERJ) pode ser diluída e passará a chamar-se Federação das Escolas de Samba dos Estados (FESES), que englobará, além das Escolas do Rio, as de São Paulo e algumas outras espalhadas pelo interior de ambos estados. Para fechar o pacote, Ivo Meireles, presidente da Mangueira, uma das mais tradicionais Escolas de Samba do Rio, anunciou sua venda para a Qatar Airlines, negociação extremamente comemorada pelos árabes. “O futebol já está saturado e mega investido, por isso resolvemos entrar no Brasil de vez através do carnaval que ainda é organizado de forma arcaica,” afirmou Akbar Al Baker, presidente da empresa, para a BBC Brasil.

Por telefone o prefeito da cidade maravilhosa, Eduardo Barata Paes, se manifestou quanto à Sapucaí: “O cidadão brasileiro precisará reaprender a curtir o carnaval. Nestes tempos de Copa e Olimpíada precisamos agarrar a chance de mostrar ao mundo que podemos seguir o mesmo padrão de excelência para todos os eventos. Vamos ampliar a Sapucaí, colocar camarotes mais modernos, cadeiras nas arquibancadas, enfim, visamos apenas o conforto de quem irá assistir aos desfiles, tudo exatamente como é feito no carnaval de Veneza”. E esse reaprendizado pode implicar no fim de uma prática muito comum entre os foliões brasileiros: o consumo de bebidas alcolicas nas arquibancadas da sapucaí. “Pretendemos acabar com a violência no carnaval, vimos que no futebol acabaram com a violência reduzindo a zero o consumo de bebidas alcolicas e com a proibição de as pessoas assistem às partidas sem camiseta, portanto nosso departamento social está estudando a possibilidade de proibir o consumo de alcool e a nudez nos desfiles também,” disse Harry Garington, diretor da EBX, para o New York Times.

Questionado pela nossa reportagem quanto ao repasse de custos aos espectadores e possíveis problemas no entorno quanto à ampliação do sambódromo, o prefeito Eduardo Paes afirmou: “Claro que haverá um repasse. Manter todo este conforto não é de graça, mas a população tem que entender que não podemos fazer feio, o mundo está de olho em nós, é por um bem maior. A mesma coisa vale para aqueles afetados ao redor. Tem que ser compreensivo”.

Em nota, a a EBX de Eike Batista junto à empresa mexicana Carlos Slim Company, disseram que “Não haverá nenhum desrespeito à cultura brasileira e seu povo nesta nova fase que se anuncia. Sabemos, gostamos e respeitamos o carnaval como uma festa de clamor popular e extrema identificação social. Portanto, nossa meta é apenas maximizar a festa dentro de um modelo de gestão, sendo que, para tanto, serão contratados os mais gabaritados estudiosos do tema. Viva o Brazil! #ogiganteacordou!”.

Já o antigo presidente da LIERJ, Déo Pessoa, explicou como funcionará a FESES: “A princípio, a FESES nasce de uma vontade conjunta das Escolas do Rio e de Sampa em fazer algo grande. Pretendemos que ela seja um ente representativo, que possa negociar cotas de televisão e vendas de direitos internacionais. Mais para frente a intenção é organizar os campeões de cada Estado para fazer turnês pelo mundo. Aliás, queremos ampliar a FESES para todos os Estados brasileiros”.

Em relação ao nome controverso da Federação, o dirigente afirmou que foi uma escolha consciente, já que a intenção é internacionalizar a marca e o nome deve ser fácil de ser pronunciado em várias línguas.

Ivo Meireles também se manifestou quanto à venda da Mangueira. O Cartola estaria radiante agora em ver a possibilidade da escola dele crescer mais ainda. “Os árabes não entendem muito de carnaval, mas já ensinei alguns passos a eles e no desfile do ano que vem eles estarão presentes com certeza e sem turbante”.

REPERCUSSÃO

Apesar de, a principio, tais medidas parecerem impopulares, uma pesquisa de opinião encomendada pelo governo carioca demonstra que 98,3% da população de São Paulo e Rio é a favor da existência do carnaval e que apenas 21% delas são contra a privatização do carnaval. Abaixo, algumas opiniões emitidas a pedido do Destilaria da Bola:

“Sem comentários” (Geraldo Alckmin, governador de SP, ao ser perguntado se iria de metrô ver os desfiles).

“Nada mais democrático do que impor uma padronização por meio de ingressos que vão peneirar os vândalos no carnaval. Os marxistas se apropriaram do carnaval desde os primórdios e veja aí no que deu. Jogam serpentinas e confetes que deixam a cidade imunda, urinam na rua apesar do número suficiente de banheiros públicos, gritam até de madrugada perturbando o sono dos cidadãos de bem. Até espancam idosos e crianças com a brutalidade ideológica que lhes é peculiar. Chegou a hora de dar um basta” (Reinaldo Azevedo, integrante da organização pacífica antiabolicionista White Bloc).

“Será uma festa tão grandiosa que o povo vai ficar mais sem ar do que com bomba de gás lacrimogêneo, mas não poderá usar máscara, óbvio. Inclusive será formada uma comissão para catalogar os foliões badernistas” (Sérgio Cabral, pré-candidato ao trono de Roma).

“Estamos de luto!” (Nota oficial das atrizes da Rede Goebbels*).

“Essa notícia já passou” (Rubens Barrichelo, agora segundo volante em um time da segunda divisão).

“Bando de viado, deveriam ser torturados na ditadura” (Jair Boçalnaro, deputado federal, destilando ódio em sua cápsula do tempo).

“Já entrei com uma PEC pedindo o fim desta festa pagã, a lei divina me autoriza” (Marco Feliciano, pregando a favor das pregas).

*E da família Carla Perez também.

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SEU STATUS DEPENDE DA TRAGÉDIA DE ALGUÉM

maikon leite

 

“Seu status depende da tragédia de alguém. É isso, capitalismo selvagem”

(Racionais, Mano na Porta do Bar)

Como já disse Alex, meia do Coritiba: “acho que a CBF não tem uma interferência dentro do futebol tão grande. A CBF cuida apenas da Seleção Brasileira. Quem realmente cuida do futebol brasileiro é a Globo. A gente sabe que a Globo trabalha na dependência da novela. A gente brinca aqui no Coritiba que os jogos de quarta-feira só rolam depois do último beijo da novela“.

Nessa pegada, a incompetente CBF divulgou semana passada o calendário dos campeonatos do ano que vem adaptados à Copa do Mundo. Uma das mudanças é o início dos estaduais, que será em 12 de janeiro. Levando em conta que a última rodada do brasileiro é dia 08 de dezembro e que os jogadores tem 30 dias de férias, sobram três dias para a pré-temporada. Isso mesmo, três dias!

A própria existência dos estaduais é contestada faz tempo, mas isso é outro papo. O que aconteceu em função da divulgação deste calendário é que vale esta postagem. Vários atletas de diferentes times se uniram e soltaram o seguinte comunicado:

Nós, atletas profissionais de futebol, com representantes em clubes das séries A e B do Campeonato Brasileiro, vimos, de forma oficial, demonstrar nossa preocupação com relação ao calendário de jogos divulgado na última sexta-feira (20/09) pela Confederação Brasileira de Futebol para o ano de 2014.

Devido ao curto período de preparação proposto e ao elevado número de jogos em sequência, decidimos nos reunir, de forma inédita e independente, para discutir melhorias em prol do futebol e da qualidade do espetáculo apresentado por nós a milhões de torcedores.

Queremos ser uma parte mais efetiva deste movimento que se faz extremamente necessário e, para tanto, solicitamos uma reunião com a entidade que administra o futebol brasileiro (CBF) para tratar de questões propositivas e de comum interesse.

Estamos convictos de que dar esse primeiro passo significa caminhar na direção do profissionalismo, da transparência e da busca pela excelência no futebol de alto rendimento praticado no Brasil.

Contamos com o apoio de outros atletas e convidamos todos os profissionais do futebol e apaixonados pelo esporte a se unirem a nós nesta iniciativa em benefício do futebol brasileiro.

Informaremos ao público o andamento e os resultados desta nova discussão assim que possível

Sem mais para o momento,

Alessandro (Corinthians)
Alex (Coritiba)
Alex (Internacional)
Alexandre Pato (Corinthians)
Anderson (Paraná Clube)
André Rocha (Figueirense)
Arouca (Santos)
Barcos (Grêmio)
Bolívar (Botafogo)
Cássio (Corinthians)
Ceará (Cruzeiro)
Cícero (Santos)
Corrêa (Portuguesa)
Cris (Vasco)
D’Alessandro (Internacional)
Dedé (Cruzeiro)
Deivid (Coritiba)
Dida (Grêmio)
Diego Cavalieri (Fluminense)
Douglas (Corinthians)
Edson Bastos (Ponte Preta)
Edu Dracena (Santos)
Edu Schimidt (Sem Clube)
Elano (Grêmio)
Elias (Flamengo)
Fabinho (Criciúma)
Fábio (Cruzeiro)
Fábio Santos (Corinthians)
Fabrício (São Paulo)
Fahel (Bahia)
Felipe (Fluminense)
Fernando Prass (Palmeiras)
Gilberto Silva (Atlético-MG)
Ibson (Corinthians)
Jadson (São Paulo)
Jefferson (Botafogo)
Juan (Internacional)
Júlio Baptista (Cruzeiro)
Juninho Pernambucano (Vasco)
Kleber Gladiador (Grêmio)
Lauro (Ponte Preta)
Léo Moura (Flamengo)
Leonardo (Criciúma)
Lima (Portuguesa)
Lincoln (Coritiba)
Lúcio Flávio (Paraná Clube)
Luís Alberto (Atlético-PR)
Luís Fabiano (São Paulo)
Luís Ricardo (Portuguesa)
Maldonado (Corinthians)
Marcel (Criciúma)
Marcelo Lomba (Bahia)
Marco Antonio (Atlético-PR)
Moisés/Meia (Portuguesa)
Moisés/Zagueiro (Portuguesa)
Neto Baiano (Goiás)
Paulo André (Corinthians)
Paulo Baier (Atlético-PR)
Paulo Cesar (Sem Clube)
Rafael Moura (Internacional)
Rafael Sobis (Fluminense)
Roberto (Ponte Preta)
Rodrigo (Goiás)
Rogério Ceni (São Paulo)
Serginho (Criciúma)
Souza (Portuguesa)
Thiago Ribeiro (Santos)
Tinga (Cruzeiro)
Titi (Bahia)
Valdívia (Palmeiras)
Valdomiro (Portuguesa)
Victor (Atlético-MG)
Wendel (Vasco)
William (Ponte Preta)
Zé Roberto (Grêmio)

Tendo como a nata do futebol brasileiro 23 retardados mais sei lá quantos imbecis na comissão técnica, que desfilavam mudos seus penteados e arrogâncias nos gramados da famigerada Copa das Confederações enquanto o governo massacrava a população do lado de fora, tal iniciativa é incrível, beira o inacreditável. A evolução do futebol atropela qualquer interesse econômico e social, é a necessidade que se impõe à realidade forçada. Na sociedade escravagista a necessidade era a presença dos negros nos campos, passou para a profissionalização do esporte, os praticantes e clubes, foi para melhor estruturação, padronização dos campeonatos, fim do passe, respeito aos torcedores e, agora, na época do capitalismo selvagem, a necessidade que se impõe é de reverter a situação de gado de corte dos jogadores pela de profissionais, seres humanos com limitações, que não podem simplesmente ser trocados e tão pouco apenas usados para tornar bilionários os milionários.

Os rumos da profissão devem ser guiados pelos profissionais e não pelos chefes, é o princípio básico do sindicalismo. Aliás, vai além disso, está relacionado aos direitos humanos ter condições dignas no exercício do trabalho e os jogadores sempre foram colocados de lado em prol do incremento de outras áreas ligadas ao lucro. O futebol não pode mais ser tratado apenas como espetáculo. Apesar de ser espetáculo é profissão, é papo sério. Com um calendário esdrúxulo desse – que não é novidade – todos sofrem, desde o jogador que vai ter que jogar estafado até nós torcedores que teremos que assistir 22 almas se arrastando em campo. O primeiro passo rumo ao rompimento da lógica CBF-Global foi dado.

Links: http://www.espn.com.br/noticia/357912_jornal-movimento-por-mudancas-no-futebol-brasileiro-tem-75-jogadores-incluindo-astros

http://www1.folha.uol.com.br/esporte/2013/09/1346475-75-jogadores-dos-principais-times-brasileiros-se-unem-para-mudar-calendario-do-futebol.shtml

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MANIFESTO GAVIÕES DA FIEL TORCIDA

torcedores juntos

Nota do Destilaria da Bola: O texto, apesar de longo, é realmente muito bom e toca em vários pontos centrais do abuso que o futebol vem sofrendo. Futebol que virou o que é por causa dos torcedores e, tal qual a sociedade, quando reunir a força que têm derrubará qualquer cartola ou elitista pelo caminho. É um passo importantíssimo no sentido de união de quem realmente vive o futebol e traze-lo de volta ao povo. As organizadas não tem que acabar tem que se unir.

Link do texto: http://www.gavioes.com.br/noticia/manifesto_gavioes_da_fiel_torcida_342

“A face oculta da elitização do futebol caminha por trás do pretexto da violência”

Não se enganem, numa sociedade que tolera a miséria, injustiça, analfabetismo, corrupção e que o governo utiliza da própria violência para subjugar o povo dentro das leis impostas, não seria apenas a violência a causa da perseguição sobre as torcidas organizadas; mas sim os interesses escusos que permeiam o futebol moderno.

Os Gaviões da Fiel Torcida representam a resistência do povo nas arquibancadas, a resistência do torcedor de baixa renda e do proletariado. Representamos as tradições da cultura brasileira de torcer, cultura esta, que estão destroçando seguindo um padrão europeu, que no Brasil estão dificultando a possibilidade do torcedor assalariado de freqüentar o estádio de futebol.  Convivemos com a violência no nosso cotidiano, não se pode fatiar a violência, quando a violência é um todo, e está presente na realidade do cidadão brasileiro.

O que nos parece é que querem responsabilizar as torcidas organizadas pela falta na educação, que é de responsabilidade de quem recolhe a maior carga tributária do planeta. O que estão cobrando das torcidas organizadas é uma usurpação do dever dos pais que vem do berço. Os Gaviões da Fiel dentro da sua busca pelo ideal da perfeição entende que é preciso que a justiça e a igualdade reinem em meio a este mundo de guerras e violência, talvez a partir daí se consiga pensar num projeto para a paz; enquanto isso tratar a violência com pontos específicos, é na verdade mera hipocrisia de uma sociedade que agoniza diante da sua própria sorte.

Ora! Mas o que é a violência?

Violência é um problema complexo. Alguns defendem que mantemos nossos conceitos e atitudes primitivas até hoje. Sendo essa uma atitude primitiva ou não, é fato que ao longo dos milênios aconteceram diversas barbáries, seja em guerras travadas entre povos, luta pela supremacia das religiões ou indivíduo versus indivíduo. Somos tão competitivos e violentos quanto eles foram, prova disso é que pouca coisa mudou, ainda existindo preconceito, hostilidade entre povos, brigas religiosas e as cruéis e sangrentas guerras urbanas do nosso cotidiano.

Em uma passagem no livro, Leviatã, 1651, Thomas Hobbes, traça uma perfeita análise sobre a violência que não deixa nada a dever aos dias atuais.

“Assim, na natureza do homem, encontramos três causas principais de contenda. Primeiro, a competição; segundo, a difidência; terceiro, a glória. A primeira leva o homem a invadir pelo ganho; a segunda, pela segurança; a terceira, pela reputação. O primeiro usa a violência para se assenhorear da pessoa de outros homens, de esposas, filhos e rebanhos; o segundo, para defendê-los; o terceiro, por ninharias, como uma palavra, um sorriso, uma opinião diferente e qualquer outro sinal de desapreço, ou à sua pessoa diretamente, ou, por reflexo, a seus parentes, seus amigos, sua nação, sua profissão ou seu nome.”

Algumas formas de violência transformaram-se em ESPORTE, alguns ainda agressivos, mas com regras, e, outros que, não tem vínculo histórico com a agressividade, entretanto, carrega a virilidade, como o FUTEBOL.

Nos mais variados esportes, principalmente no futebol, se ouve muita mensagem de cunho agressivo antes das partidas pela tevê, como: “vai começar a batalha”, “o duelo esta para começar”, “agora é guerra de gigantes” “a arena está preparada, é onze contra onze”.Vejam, todas as falas sugerem violência. Se não soubéssemos que se trata de uma partida de futebol, logo pensaríamos que poderia se tratar de gladiadores em uma arena prontos para matar um ao outro.

A hoje chamada ARENA, antes chamado de ESTÁDIO DE FUTEBOL, nos remete aos antigos campos de batalha. Segundo o dicionário, a palavra Arena vem do latim, que significa “areia” e, na época do Império Romano, os gladiadores lutavam em uma superfície coberta por elas, no intuito de absorver o sangue. Em espanhol, a palavra carrega dois significados. A tourada é realizada em uma arena (ou plaza de toros, literalmente “praça de touros”) e seu piso também é coberto com a mesma.

Durante as partidas de futebol, não é difícil ver jogadores trocando socos e pontapés, principalmente em campeonatos Sul Americanos, sendo passado impunemente pela Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol), aliás, para esta confederação, a impunidade é a regra, fazendo com que a violência dentro de campo seja apenas mais um detalhe.

A esmagadora maioria dos comentaristas esportivos brasileiros costuma dizer que os campeonatos Sul Americanos são mais “pegados”, ou seja, mais agressivos, sendo comum ver jogadores agredindo uns aos outros. Ao final de qualquer partida de futebol a polícia corre para cercar o Árbitro e seus auxiliares, mesmo sem qualquer ameaça aparente. Isso sem contar as inúmeras vezes que vemos ao redor dos gramados os mesmos policiais protegendo o cobrador de escanteios. Percebemos neste caso que, por mais que todo ano se comente, e mostre para o mundo todas essas imagens, a repercussão é somente sensacional, mas não combatida efetivamente.

Percebam, tudo ao redor do futebol recomenda violência, como podem exigir que uma pequena parcela de maus torcedores se comportem de maneira exemplar se a mídia, jogadores, presidentes de clubes, federações e confederações, nacionais e internacionais dão o exemplo totalmente ao contrário?! 

A violência está por toda parte, é só observar nas ruas. Por exemplo, você não chega até o centro da cidade de São Paulo sem passar por alguma via ou avenida cujo nome é de algum assassino, torturador ou colaborador da Ditadura Militar.

Os jogos de vídeo-game mais vendidos envolvem jogadores carregando armamento que é usado para matar adversários.

Contamos até aqui um pouco da história da violência, mas o que queremos com isso? Nós não queremos justificar a agressividade do torcedor, apenas trazer vocês para uma reflexão, demonstrando para todos vocês que não foi o torcedor que inventou a violência, ela é parte da sociedade, é parte de um todo. Porem, como sempre, toda culpa recai sobre as torcidas organizadas, como se as mesmas tivessem inventado a violência, o que não é verdade, como podem perceber.

Segundo o portal UOL, Marco Polo Del Nero, presidente da FPF (Federação Paulista de Futebol) e vice da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), está envolvido em uma ação da Polícia Federal. ( http://migre.me/en7Kn ).

Ainda segundo o portal UOL, a carreira política do presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e do COL (Comitê Organizador Local), José Maria Marin, foi marcada por diversas acusações de irregularidades: caixa dois, utilização da máquina do governo em campanhas, desvios de dinheiro público e armações eleitorais. (http://migre.me/en8Eq ).

Segundo o blog do Juca Kfouri, José Maria Marin, teve ligação com a ala mais radical do governo militar, conexões com órgãos de vigilância e de repressão e fez elogios ao regime. ( http://migre.me/en93U ).

Segundo o jornal Lance, Tanto o presidente da Conmebol, quanto o presidente da AFA, Julio Grondona, estavam sendo investigados por subornos no processo de escolha da Copa do Mundo de 2022. ( http://migre.me/en9cK ).

Ainda segundo o diário Lance, Deputado Romário desabafa: “Conmebol é mais corrupta que CBF e FIFA” ( http://migre.me/fYuxl )

Segundo portal UOL, “Acusado de corrupção, Ricardo Teixeira renuncia à presidência da CBF” ( http://zip.net/brkRJP )

Observe, quem deveria dar exemplo é investigado por vários crimes. Esses são nossos exemplos? Cadê sua indignação enquanto a isso? Hipocrisia também é violência.

Segundo a pesquisadora e autora do livro Futebol e Violência, Heloísa Reis: 

“os fatores geradores da violência são vários e complexos, mas pode-se afirmar que a disseminação de uma cultura em que violência e futebol sempre caminharam juntos contribuiu para a disseminação da violência nos estádios e dificulta a sua minimização. A ‘reação simbiótica’ entre esporte e violência não é exclusividade do futebol. Dunning afirma que todos os esportes competitivos conduzem ao aparecimento de agressão e violência (Elias e Dunning, 1992). Mas, por sua popularidade e seus valores masculinos, é no futebol que ela encontra um terreno fértil. É nesse conteúdo cultural que a expressão da violência física socialmente aceita e ritualizada aparece”.

Quem acha que torcedor briga por causa do time está completamente enganado, em nenhum lugar do mundo torcida briga por causa do time, brigam porque gostam de brigar. Em países da Europa também briga-se porquê gosta de brigar, mas lá o costume é se esconder atrás de brigas políticas e/ou históricas como vimos na EUROCOPA – 2012 ( http://migre.me/en6BV  ). Em solo Sul Americano, as brigas são fruto da influência do hooliganismo europeu que, nos anos 80 se intensificaram. Hoje já faz parte do cotidiano de quem gosta desta prática, mas uma coisa é certa, NINGUÉM BRIGA POR CAUSA DO TIME, BRIGAM PORQUE GOSTAM DE BRIGAR.

O cara que briga em dia de clássico é o mesmo que briga na escola, faculdade, balada, show, shopping, igreja, em casa, na rua, em qualquer lugar. Isso é um problema social, são pessoas que gostam de adrenalina e onde quer que estejam se houver confusão eles estarão no meio. Afirmamos para vocês, podem tirar camisa, bandeira, faixa, fazer jogo de uma torcida só, sempre haverá briga. Haja o que houver, faça o que fizer, as brigas continuarão, por quê? Porque isso é problema social e tem que ser tratado como tal, as torcidas organizadas nada têm a ver com isso.

Fazemos o que está ao nosso alcance, trabalhamos junto com a Policia Militar e Ministério Público constantemente para evitar que as torcidas se encontrem pelo caminho, obedecemos à risca todas as instruções passadas e mesmo assim quando acontece alguma briga em algum lugar da cidade bem distante de nossa sede e estádio, a culpa ainda fica para nós.

Não conseguimos entender essa política de opressão contra as torcidas que o Estado mantém até hoje. Colaboramos, fazemos o possível para evitar a violência e, mesmo assim, continuamos sem poder fazer nossas festas nos estádios (ou Arenas como queiram).

Proibiram nossas bandeiras em 1995 e de lá pra cá a violência só aumentou, continuaram a proibir tudo com relação à festa na arquibancada e a violência ainda é a mesma. Está claro que o problema não são as torcidas organizadas e sim o indivíduo, proibir as torcidas de fazer suas festas dentro dos estádios não reduz a violência nas ruas, uma coisa não tem nada haver com a outra.

Seguindo a lógica do Ministério Público, caso aumente o número de roubo a carros, eles proibiriam a venda dos mesmos, ou seja, não iriam atrás de quem rouba. Percebam o quão ineficiente é o Poder Público, eles não vão atrás do indivíduo, da pessoa física, do CPF. Punem a entidade inteira, como se TODOS os sócios dos Gaviões ficassem por aí fazendo baderna pela cidade, quando na verdade a própria PM e MP dizem que são “meia dúzia”, na maioria das brigas alegam que são em torno de 100 a 200 pessoas envolvidas, temos quase 100 mil sócios, ou seja, não chega próximo de 1% da torcida, isso se realmente forem sócios dos Gaviões, pois muitos se quer pertencem a organizada alguma e mesmo assim a culpa recai sobre nossos ombros.

Quando algum político comete desvio de conduta, se discute a extinção do congresso?  Ou eles vão atrás do indivíduo que praticou o desvio? Isso quando não continuam exercendo suas funções mesmo depois de condenados. Se em casos de tal gravidade, pois estamos falando de saúde, educação, transporte, moradia, que se tornam códigos em paraísos fiscais, só quem praticou o ato é punido, e a classe inteira não pode pagar pelos atos de um de seus membros, esta mesma lógica deveria funcionar também para as torcidas organizadas. É como se servíssemos de bodes expiatórios, atrapalhamos o processo de elitização e a entidade inteira sempre levará a culpa, sempre!

Mesmo diante deste quadro, continuaremos a colaborar com o MP e PM, a tratá-los com respeito, indo a todas as reuniões antes dos jogos e avisando aos mesmos de todos os pontos da cidade onde possa haver confusão, fazendo tudo que estiver ao nosso alcance no intuito de acabar, ou minimizar ao máximo, a violência.

O Gaviões da Fiel é mais que uma torcida organizada, é um braço da sociedade. Lutamos contra a Ditadura, abraçamos diversas causas sociais, levantamos bandeiras em busca de uma sociedade mais igualitária. Esta é nossa briga, essa é a luta dos Gaviões da Fiel.

Segundo a pesquisadora e autora do livro, Futebol e Violência, Heloísa Reis: 

“Torcidas organizadas agora recebem o rótulo de “facções”. É uma clara tentativa de relacioná-las ao mundo do crime, como se todas as suas atitudes fossem ilícitas. Mas a realidade é diferente. O torcedor organizado não é bandido. Ele trabalha (a média de desemprego nas torcidas é de 2,8%, em comparação com os 8,1% da média brasileira), mora com os pais (86,8%) e tem um significativo grau de instrução (80,8% possui de 10 a 12 anos de escolaridade).

Esses números fazem parte do resultado de uma pesquisa que realizei com 813 integrantes das três maiores organizadas de São Paulo. São dados que desmentem a visão de que seus filiados são vagabundos que se associam para o crime. Costuma-se generalizar, mostrando que as mortes que ocorrem no futebol têm a ver apenas com as torcidas. Não é verdade. Por isso, pregar a extinção das organizadas para estancar a violência é a mesma coisa que defender o fim do Senado para acabar com a corrupção.” (grifo nosso)

Sempre ficou bem claro – tanto para a sociedade, quanto para o Poder Público – a posição dos Gaviões da Fiel no que tange a violência. Repudiamos quaisquer tipos de violência, inclusive a violência do aumento abusivo nos valores dos ingressos e a exclusão do torcedor de baixa renda dos estádios com o processo de ELITIZAÇÃO DO FUTEBOL.

Sim! O aumento exorbitante no preço do ingresso é uma violência. Violência contra aqueles que sustentaram o futebol até hoje e que não conseguem mais acompanhar o ritmo super-ultra-inflacionário no qual a FPF (Federação Paulista de Futebol) e CBF (Confederação Brasileira de Futebol) impõe, sem compaixão alguma, tirando, assim, uma das quase nulas opções de lazer do cidadão de classe menos favorecida.

O tema violência tem que ser tratado de forma responsável, não como vem sendo feito, simplesmente jogam no colo das torcidas organizadas a problemática da violência e da desordem do futebol. Não se muda uma cultura de violência de uma hora pra outra, muito menos deixando o estádio sem divisória assim do nada, porque o que vimos nos últimos jogos foi uma violência padrão FIFA. Não podemos encarar a violência no futebol apenas como palanque para autoridades e jornais sensacionalistas.

Parafraseando com um de nossos integrantes, Thomas Castilho: Sendo assim, vamos falar de paz de gente grande. Vamos falar de uma paz que envolva os diferentes protagonistas do processo, delegando responsabilidades e cobrando respeito, de todas as partes. Não se exige paz numa cultura de violência mas se constrói a paz. Não se faz paz com uma pseudo-imprensa que legitima a ação violenta da polícia, que fica eufórica sempre que pode apontar seus dedos para os torcedores. Não se faz paz com direitos básicos sendo desrespeitados. Não se faz paz sem punição. E, mais importante, não se faz paz sem tentar mudar a mentalidade e os valores da nossa sociedade. Isso exige educação. E educação exige empenho.

O povo organizado incomoda, sempre. O receio maior é pela força que ali se esconde. Sim, muitas vezes mal direcionada, mal administrada. Mas ainda assim poderosa. Vai chegar a hora em que as torcidas entenderão o poder que possuem para transformar a realidade do nosso futebol e, juntas, utilizá-lo para lutar por preços de ingressos justos, por administrações competentes, por estádios que não desabem, por uma polícia humana, por uma imprensa digna, e por um modelo de futebol que seja mais condizente com a realidade do nosso país, que possui milhões de párias espalhados, esquecidos, enquanto o dinheiro e as páginas dos jornais só atingem a vida de meia dúzia de personalidades. A paz dos justos é responsabilidade de idosos, adultos e crianças, de homens e mulheres, de dirigentes, policiais, jornalistas e torcedores, organizados ou não. A paz dos justos é de ricos e pobres, não só dos ricos. A paz dos justos quer não só um futebol diferente, mas um país.

Quando falamos de justiça, queremos que a sociedade se organize de forma que a paz esteja ao alcance de todos, e não que a chamada “justiça” seja apenas uma forma de intimidação e negociatas para que poucos possam comprá-la.

O que os GAVIÕES DA FIEL quer dizer com tudo isso, senhores, é que JUSTIÇA gera PAZ.

 

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Itaquerão é obra privada da Copa com maior volume de recursos públicos

Artigo publicado aqui: http://viniciussegalla.blogosfera.uol.com.br/2013/09/09/itaquerao-e-obra-privada-da-copa-com-maior-volume-de-recursos-publicos/

Sem contar recurso do BNDES, dinheiro público na arena ficará entre R$ 500 milhões e R$ 600 milhões

O poder público, via suas três esferas administrativas, está colocando cerca de R$ 30 bilhões em obras e preparativos para a Copa do Mundo de 2014. Sao obras públicas e privadas, de estádios, aeroportos, portos ou mobilidade urbana. Dentre as privadas, por quaisquer critérios que se utlize, o estádio que o Corinthians e a empreiteira Odebrecht estão construindo na zona leste de São Paulo, que será a sede de abertura da Copa e palco de sete jogos do Mundial, é a que recebe a maior destinação de recursos públicos.

Sem contar o empréstimo do BNDES previsto para o estádio, que deverá retornar aos cofres públicos, o investimento “a fundo perdido” do poder público na arena ficará em algo entre R$ 500 milhões e R$ 600 milhões.

O estádio, com as estruturas provisórias necessárias para a receber a Copa, terá um custo que vai ultrapassar a casa do bilhão de reais. Sua principal fonte de recurso são créditos fiscais concedidos pela gestão passada da Prefeitura de São Paulo ao Corinthians. São R$ 420 milhões, nem tudo já liberado para o clube a para a obra.

Parêntesis: este blog  não irá discutir a natureza de recurso público dos CIDs (Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento) prometidos pela prefeitura ao Corinthians no ano passado. Este entendimento já é pacificado por Tribunal de Contas da União e jurisprudência dos tribunais superiores do país.

Voltando, só estes R$ 420 milhões já tornam o Itaquerão o estádio privado com maior destinação de recursos públicos da Copa, já que há somente outras duas arenas privadas em construção, ou em reforma, (Arena da Baixada, do Atlético Paranaense, e Beira-Rio, do Internacional), e as duas possuem orçamento total inferior a R$ 420 milhões.

A maneira como estes recursos foram destinados ao Corinthians é, no mínimo, nebulosa, e gerou uma ação do Ministério Público que corre na Justiça para anular o benefício fiscal. Em março do ano passado, quando a obra já estava a pleno vapor e tinha sido escolhida pela Fifa como a sede paulista para a Copa, a prefeitura lançou uma concorrência pública para escolher qual estádio receberia os R$ 420 milhões em créditos municipais. Somente o Itaquerão poderia vencer a concorrência, como de fato venceu.

Obra tem isenção fiscal da prefeitura sendo questionada pelo Ministério Público na Justiça

 

Trata-se de uma concorrência dirigida na mais límpida acepção do termo. Para o Ministério Público do Estado de São Paulo, é uma “afronta à legalidade”. Ainda assim, à época, a prefeitura chamou a concorrência de “mera formalidade”. Na prática, a Justiça só julgará em definitivo a ação do MP quando a obra estiver concluída e os créditos fiscais já concedidos e gastos. A solução, quando muito, será rever a legalidade da concessão dos créditos com a proposta de algum tipo de medida compensatória do clube para com os cofres públicos.

Ainda no terreno das isenções, a Prefeitura de São Paulo concedeu isenção total do ISS (Imposto Sobre Serviços) que incidiria no valor final da construção do estádio, inicialmente orçado em R$ 820 milhões. Pela isenção, pelo menos R$ 41 milhões deixarão de entrar nos cofres da Prefeitura, pela alíquota de 5%. A isenção também é questionada pelo MP na Justiça, em virtude da suposta falta de contrapartida social que o clube deveria prestar à cidade.

Outra forma de injeção de recursos públicos na obra é o empréstimo do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), que ainda não saiu, mas está previsto na chamada arquitetura finaceira do estádio, de R$ 400 milhões.

Trata-se de um financiamento, que, ainda que subsdiado em virtude do interesse coletivo da obra para a Copa, deverá voltar para o banco no prazo previsto. Assim, existe o entendimento, popularizado pela presidente Dilma Rousseff através de discurso proferido em meio aos protestos que tomaram conta do país em junho deste ano, de que esses recursos não podem ser considerados injeção de dinheiro público em obras da Copa.

Faz sentido. O BNDES tem entre suas funções financiar obras do setor privado. De qualquer forma, dentre as obras privadas da Copa que o banco financia, a do estádio corintiano é a que deverá receber o maior volume de recursos , ou R$ 400 milhões.

Bom, investir em um estádio de futebol para a Copa que vai efetivamente ser usado na Copa é certamente muito melhor do que investir em um hotel que certamente não ficará pronto a tempo do Mundial e nem se pode afirmar que um dia ficará efetivamente pronto.

A vice-prefeita de SP espera que a cidade gaste até R$ 40 milhões com estruturas provisórias da arena

 

É este o caso de outra das obras privadas da Copa com maior volume de recursos públicos, a reforma do Hotel Glória, do empresário Eike Batista. Ele tomou R$ 200 milhões junto ao banco estatal através da linha BNDES Pro-Copa Turismo. Depois, suas empresas entraram em crise, a obra foi paralisada e agora têm previsão de entrega para 2015. Claro que nem se cogita a hipótese de se cancelar o financiamento.

Há, ainda, as estruturas provisórias a serem instaladas no estádio. Primeiro, será necessário montar 20 mil arquibancadas móveis, missão que está a cargo do Governo do Estado de São Paulo. Segundo o secretário de Planejamento, Julio Semeghini, elas irão custar R$ 38,1 milhões, e o governo paulista encontrou investidores privados para paga-la. Ele anunciou, inclusive, que o contrato para a obra seria anunciado em agosto, o que não aconteceu, então é melhor esperar para saber quem vai mesmo pagar.

Por fim, há o restante das estruturas provisórias, como assentos VIPs, sistema de iluminação, sistema de ar condicionado, equipamentos de informática, telecomunicações e sistemas de TI (tecnologia da informação). Toda a aquisição e implantação desses equipamentos estão a cargo da Prefeitura de São Paulo.

Em uma previsão conservadora da vice-prefeita de São Paulo, Nádia Campeão, o investimento total do município nessa área será de R$ 30 milhões a R$ 40 milhões. Os contratos ainda não foram fechados, a menos de um ano da Copa. Tomara que não sejam necessárias contratações de emergência…

Nota do Destilaria da Bola: quem diz quem não haverá injeção de dinheiro público no estádio do Corinthians está sendo, no mínimo, mal intencionado. Para resumir a notícia, haverá investimento público direto e indireto no estádio. Direto por meio do empréstimo de R$ 400 milhões (a princípio) do BNDES  e indireto pela isenção de impostos em valor mais ou menos igual a este. É dito que o Corinthians irá devolver o empréstimo. Alguém acredita mesmo nisso? Há muita nebulosidade em torno do estádio desde a concepção da ideia e o poder público já demonstrou de que lado está, fazendo um esforço estranho para que a “arena” saísse do papel. É só mais um caso de enganação do povo pelas vias legais, o melhoramento de um bem particular com dinheiro público. Não há clubismo que defenda o mau uso de recursos públicos. Impossível fechar o olho ao impacto negativo do estádio no entorno de Itaquera, com despejos forçados e ausência de obras de infraestrutura. Depois perguntam porque algumas pessoas querem impedir a realização da Copa.

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