AS TORCIDAS E O VANDALISMO DE SOFÁ

 bandeirões

As torcidas organizadas sofrem abusos sistematicamente dos “donos” do futebol. Cartolas que encampam muito mais o papel de gerentes de lojas do que de que organizadores de um patrimônio de milhões se omitem quantos às organizadas e a torcida em geral. Ministério Público e Polícia Militar buscam restringir todo tipo de manifestação de alegria pública. STJD usa sua esquizofrenia jurídica para punir cada time de acordo com o que lhe dá na telha, sendo ou não o assunto relacionado às torcidas. Para enfeitar o bolo com uma cereja suja, a mídia faz o papel de plantadora de informações, geradora de crises e criminalizadora das organizadas, como se algum destes entendidos vivesse a arquibancada e não escrevesse no conforto de seu sofá importado.

Um ponto interessante de se analisar é que os tais jornalistas – ou grande parte deles – resolveu se referir às organizadas como facções. Esta atitude é bastante similar à omissão recente dos grandes veículos de dizer Black Bloc. Eles preferem vândalos, baderneiros, mascarados. Podemos, também, conectar este fato ao sumiço do PCC e do CV e derivados das linhas e falas jornalísticas, pois houve a orientação de não dar cartaz a tais grupos, sendo que a referência a eles se dá como organização criminosa e, vejam só, muitas vezes como facção.

Claro que não é por acaso. Assim como existe essa similaridade nos termos empregados, existe a semelhança no motivo de serem tais grupos execrados pela opinião pública fabricada pela mídia. Todos eles incomodam, cada um com sua peculiaridade, é verdade, mas nenhum deles é manso, nenhum deles aceita de cabeça baixa a história que lhes é imposta. Todos lutam contra a opressão que o Estado impõe a eles, ou seja, o ponto de conexão a todos eles é a brutalidade que sofrem.

Porém, a guerra declarada da imprensa e da justiça contra as organizadas não vem surtindo muito efeito. Isso porque a diretoria está do lado da torcida. Não porque eles são lindos e inteligentes e entendem a importância do torcedor, mas porque sabem que sem uma relação boa não sobrevivem no cargo.

Dirigente de clube é igual jogador, do mesmo jeito que aparece desparece e quem continua lá sofrendo ou sorrindo em todos os momentos é o torcedor. Por isso é muito válido a diretoria financiar viagens para as organizadas. Por que não? Qual o problema? O torcedor de sofá reclamão da violência que não existe vai para o México ver o time? Nem precisa ser tão longe, ele vai pro interior de São Paulo assistir os jogos lá marcados? Não, não vai. A diretoria estando ao lado da organizada dá sobrevida a ela e coloca mais um tijolo no muro que impede o avanço dos servos do padrão europeu, mesmo que o motivo deste apoio não seja tão nobre.

Torcida do Corinthians no Japão, não tem que ter financiamento mesmo?

Torcida do Corinthians no Japão, não tem que ter financiamento mesmo?

Uma vez conectada a diretoria com a torcida, impossível isola-la do time. Acho que deve haver o máximo de preservação dos atletas, mas em alguns momentos é necessário dar o acesso e abrir a conversa. Mais uma vez, por que não? Se a conversa é aberta espontaneamente pelas partes podem-se evitar invasões, depredações e violência. Um time de futebol é uma figura atípica, é um patrimônio cultural, não pode ser gerido como um governo ditador ou uma empresa privada. A restrição é a pior forma de política.

O que é pior é que as restrições que citei (de financiamento e diálogo) quem fabricou foi a imprensa. Eles dizem ser moralmente inaceitável tais coisas. Por que, Alá do céu? Se você é acostumado a manter sempre uma distância daqueles que te cercam porque a posição no jogo do poder de cada um é o que autoriza o contato, o problema é estritamente seu. Não jogue seu lixo na rua. Não coloque seus pensamentos podres no asfalto meu amigo.

Se eu sou advogado não vou palpitar em como o borracheiro tem que trocar pneu, pelo simples motivo de eu não viver aquilo, não saber as necessidades que a atividade traz. Se você não vai à arquibancada não deve palpitar também. Não consigo explicar de modo mais simples porque um bando de gordo burocrata não tem que dar as cartas no futebol, muito menos na torcida. Sem a torcida o time não é nada, o futebol não é nada.

Torcida do Palmeiras quando festa ainda era permitido.

Torcida do Palmeiras quando festa ainda era permitido.

Muito se falou do São Paulo vender ingressos a R$ 2,00, que desvaloriza o espetáculo, que começará a ser frequentado por “pessoas indesejáveis”. Aí vieram os números, que em muitos momentos apoiam estes mercadológicos intelectuais e que, desta vez, os desacreditaram, pois a renda com os torcedores dentro do estádio triplicou. Isso mesmo: triplicou.

A explicação dada na matéria é que a pessoa já vem feliz de pagar pouco no ingresso e acaba gastando em outras coisas dentro do estádio. Existem outras explicações: pagando menos talvez o cara consiga levar a família ou formar o bonde com alguns amigos; pagando menos sobra mais dinheiro para outras coisas; pagando menos o futebol volta ao que deveria ser, uma opção de lazer acessível e uma programação boa de se fazer; pela característica atípica de um time de futebol que citei antes, se houver opção de comprar souvenires do time o cara vai comprar indefinidamente; comida, bebida; etc., tudo conectado ao fato de ter mais gente dentro do estádio facilitada pelo preço do ingresso e não em ser uma arena cheia de dondoquices.

O preço e a festa não afastam, pelo contrário, agregam. Quanto mais você selecionar aquele público em sintonia plena com o sistema, que não grita, não xinga, não acha nada ruim, mais o estádio vai se parecer com uma loja de doces finos do que com um hospício, que é mais recomendado.

Temos que ser realistas:

A polícia militar é capaz de lidar com o cidadão de forma racional? Não, ela é treinada para ver o cidadão como inimigo.

A polícia civil faz o trabalho de inteligência para punir os torcedores que brigam? Não, ela é muito falha não só na solução deste tipo de crime como de outros também.

O Ministério Público tem legitimidade e conhecimento de causa para propor o que quer que seja para uma torcida organizada? Não.

O juiz que analisará pedidos de extinção de torcida tem condições de ver de uma forma imparcial os acontecimentos? Para o cidadão ser juiz tem que ficar apenas estudando sei lá quantos anos para conseguir chegar neste cargo. Quem consegue só ficar estudando sem trabalhar? Portanto, os juízes vêm da elite da sociedade, que é preconceituosa com tudo, homossexuais, torcidas organizadas, partidos políticos, japonês, negro, mulher, enfim.

Jornalistas esportivos. Porque vive de assistir jogo da sala de casa ou da cabine de imprensa acha que tem autorização pra falar de arquibancada. Não tem também.

O STJD é composto por esportistas frustrados. Veem o futebol com a frieza da lei, tentam impor os limites e ordens necessárias. Claro que tem que ter regras, mas bem menos opressoras e mais inteligentes. De um lado pregam o distanciamento da diretoria do time com as organizadas e por outro vinculam um ao outro de forma umbilical ao punir o clube por atitudes da torcida. O que o clube pode fazer? A segurança dentro do estádio não é competência da PM? Onde está o erro então?

PM batendo em torcedores do São Paulo. Desrespeito sistemático.

PM batendo em torcedores do São Paulo. Desrespeito sistemático.

Meu ponto é que a estrutura do futebol brasileiro está toda podre e infestada de incompetentes. Não adianta construir um castelo e enche-lo de ratos. Quem construiu o futebol foi a torcida e ela deveria ser a prioridade de bom tratamento e não de opressão. Um bom tratamento também não quer dizer sentar em cadeiras almofadadas, quer dizer respeito, liberdade. Afinal de contas gastamos muito dinheiro e energia com nossos times e não temos nada em troca de palpável. Temos as alegrias sim, não resumo a relação com meu clube a uma relação comercial, mas e a minha possibilidade de tratar o jogo como um evento digno, sem opressão policial na entrada e saída, sem ter que caminhar um monte pra comprar uma cerveja gelada, sem ter o desgosto de ver meu time sacaneado em tribunal, criminalizado em jornal, alvo de lavagem de dinheiro por cartola?

Se as organizadas são uma facção porque andam na contramão de um sistema podre que criminaliza o inocente e desvia a atenção do real problema, então me assumo como da facção também. Acredito em democracia direta, sem intermediários a corroendo pelo caminho. Se buscar o caminho certo passa por um poder paralelo ao do Estado, então prefiro fazer parte da facção organizada de vândalos a ter que aceitar essa ditadura.

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