Chuteira e Branquinha

Este artigo eu escrevi para o jornal OcicerO editado pelo meu amigo, colega de profissão e de time de futebol (de torcida e de várzea), Paulo Silva Junior. Tomo a liberdade de publica-lo aqui na íntegra uma vez que por razões de diagramação algumas partes do texto tiveram de ser cortadas para caberem em uma página do jornal.

Para quem estiver interessado no belíssimo trabalho da equipe de OcicerO, seguem abaixo a webpage, onde podem ser encontradas as versões em PDF das edições, os contatos da equipe e a página no facebook, onde é possível pedir exemplares do jornal:

http://www.ocicero.com

facebook.com/ocicero

Unknown

Entrei no quarto trançando as pernas, cambaleando. Olhei para a minha máquina de escrever moderna, vulgo computador. Vi duas. Quando cheguei mais perto pude constatar que ela não havia dado cria. Fui até a cozinha e abrindo a válvula do barril, me servi uma dose de cachaça. O cara que me vendeu ela, garantiu que a “marvada” era mineira. Pode até ser. Na sequencia, roubei da geladeira uma cerveja que não era minha e comecei, com dores na cabeça, a beber e escrever o meu primeiro artigo prO Cícero.

Isso tudo porque me foi dada a missão de escrever sobre os gênios vagabundos do futebol. Aqueles bêbados e boêmios  que do alto de suas ressacas encantaram seus torcedores com fintas, carrinhos e sobretudo, sua criatividade e fanfarronice. Os exemplos são inúmeros mas gostaria de me ater nesse primeiro momento a uma coisa pra lá de sobriamente insuportável: a moderna caretice que reina no futebol brasileiro. Fato é: para acompanhar uma transmissão de futebol pós novela na televisão, é preciso estar de porre. A cobertura do esporte mais popular do planeta – apelidado pelo mestre uruguaio da palavra, Eduardo Galeano, de dança dos deuses – está muito burocrática e cada vez mais fazendo o papel ridículo de ser fiscal de fígado de jogador.

Burocrática por motivos pra lá de óbvios. Não é por acaso que de uns tempos pra cá, as entrevistas com jogadores em geral e grande parte dos treinadores estão cada vez mais previsíveis e seguem um script velado. Por outro lado, e aí entra o lado obscuro dessa grande burocracia, as declarações que por algum milagre divino fogem a esse suposto script são transformadas em memes na televisão por bobos-da-corte como Tiago Leifert que pouco ou nada falam de fato sobre o esporte futebol. É o novo corte de cabelo do Neymar que aparece naquela montagem grotesca que simula uma tela de ipad e não a função tática ou o drible que ele aplicou no adversário.

Fato é que o que menos importa hoje é o futebol. Também pudera, o nível está tão baixo que a seleção portuguesa precisou importar o zagueiro Pepe, a brasileira aprendeu a jogar com um só meia armador e o Juninho é titular da lateral esquerda do Palmeiras. O que sobra é a vida de celebridade de alguns jogadores. Alexandre Pato é um exemplo clichê disso. Qualquer corintiano sincero deve estar querendo matar o popstar da família Berlusconi que custou 42 milhões aos cofres do clube. E seguindo o fluxo dessa exploração do glamour e da ostentação dessa nova classe de celebridades, nada como flagrar a boleiragem na balada. Qual panicat estava no camarote do atacante do Santos? Qual modelo o zagueiro do Flamengo levou pra casa? E se for um volante do São Paulo visto numa boate gay ou simplesmente os boatos a respeito disso, aí então, é capa do jornal!

Também os jogadores que apreciam o bom e velho álcool estão na mira dos paparazzi da imprensa esportiva. Quem não repercutiu os vídeos do Fred bêbado em um boteco de Copacabana ou as fotos do Adriano na favela entornando garrafas de uísque no gargalo que atire a primeira pedra! O fato de transformar a bebedeira dos jogadores em pauta já é de uma pobreza filosófica e jornalística natural, ainda mais levando em consideração o teor do direcionamento ideológico e do uso dessas situações numa espécie de cruzada moralizadora do futebol que associa baixo nível técnico com a vida fora das quatro linhas. Isso não tem nada a ver com futebol, minha gente!

As ressacas do mago Valdivia foram mais noticiadas do que a falta que o seu futebol fazia ao moribundo time do Palmeiras que caiu para a segunda divisão. É bem verdade que Valdivia, Fred, Adriano, Douglas e tantos outros poderiam ser geniais, mas de fato não são. E de acordo com o senso comum, graças ao álcool. Mas se analisarmos a fartura de craques que nossa geração de boleiros criou, vemos que a falta de brilho que esses bêbados adquiriram pouco tem a ver com a cachaça, assim como pouquíssimos são os nossos verdadeiros craques atualmente. Não estou me lembrando de nenhum em atividade no momento, mas sou um cara exigente, talvez o leitor tenha alguns na lista.

Acontece que nem sempre foi assim. O futebol ao longo da história nos brindou com pares geniais de pernas que de ressaca ou não, coloriram o imaginário dos seus torcedores.

Pra além de Garrincha e Sócrates.

Heleno de Freitas, mineiro de São João Nepomuceno, além de atacante Botafogo, do Vasco, do América, do Santos, do Junior Barranquilla da Colômbia e do Boca Juniors, entre os anos 40 e 50, ainda era advogado, boêmio, galã e catimbeiro. Ele é considerado por muitos como o primeiro craque problema, uma espécie de tataravô do Edmundo. E assim como o Animal, dizem que seu temperamento era tão explosivo quanto sua habilidade com a bola. Participante de uma trupe boêmia da velha Lapa chamada Clube dos Cafajestes, dentro de campo Heleno era frequentemente expulso por armar altas confusões.

Heleno era um playboy. Seu pai era dono de um cafezal, ele se formou em Direito, perdão, Ciências Jurídicas, na UFRJ. Durante a faculdade se relacionou com o lança-perfume e o éter, por causa disso, chegou a tentar se auto-eletrocutar em um treino do Botafogo. Sua boa aparência, nível social, status de craque e estilo de vida o tornaram em um perfeito galã cafajeste digno das crônicas do Nelson Rodrigues. Dizem até que quando jogava no Boca, entre 48 e 49, teve um caso com Evita Perón. Porém, naquela época, jogador de futebol não era tratado como celebridade e nenhum jornalista se preocupou em apurar o suposto caso. Aposto que você nunca conseguiu viver tranquilo sem saber a verdade.

Indo ao futebol, que é o que realmente interessa, Heleno chegou ao time principal do Botafogo em 1937 com uma tarefa pesada: substituir o então ídolo alvinegro Carvalho Leite, goleador do tetracampeonato estadual, de 32 a 35. Tomou uma branquinha pra relaxar, pero no mucho, e jogou muita bola, mucha pelota. Marcou 209 gols em 235 jogos e chegou à seleção brasileira onde disputou 18 partidas e balançou 19 capins. Foi artilheiro do Campeonato Carioca de 42 e da Copa America pela seleção em 45. Por uma ingratidão do destino, acabou não sendo campeão pelo Botafogo (mas faturou o Cariocão pelo Vasco em 49 e a Copa Roca pela seleção em 45). Pela sua entrega em campo, foi lembrado pela história como símbolo de um Botafogo sofrido que nunca se entregava, que lutava até o fim e que mesmo perdendo, perdia com honra. Assim, ultrapassou seu antecessor, tornando-se, então, o maior ídolo do clube. Obviamente que depois acabou ultrapassado por Garrincha e pelo tempo, mas essa já é outra história.

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