O ESTÁDIO SERÁ SHOPPING

Maracanã

Impossível não falar dos rolês nos shoppings. Apesar da novidade de “invasão” ao mundo asseado, a criminalização de um monte de gente da periferia junta passa longe de ser novo. O problema, dessa vez, é que a casta maior da nossa sociedade não conseguiu jogar para debaixo do tapete o problema. Não bastou desligar a TV para não ver a chacina, a briga no estádio, o enfrentamento de traficantes. Desta vez o “problema” olhou nos olhos, encarou de igual para igual e a fez tremer, porque ela percebeu que aquele moleque de óculos espelhado e cabelo escovinha tem mais disposição do que ela para tudo nessa vida.

A criminalização que o Funk passa hoje já aconteceu com o Rap, antes com a capoeira, com o candomblé, com a feijoada, com o cabelo pixaim, com as canelas grossas, enfim. Não se trata tanto da cor da sua pele, se trata também, mas não só. O motivo da questão é da onde vem. Será que se essa molecada chegasse ao shopping cantando Agnaldo Rayol a polícia não iria pra cima? Os shoppings não entrariam na justiça?

A resposta é sim, fariam tudo isso, porque a discriminação com o Funk é apenas mais um elemento, assim como é feito com todo o resto que emana da pobreza. Só que os rolês são fatos novos, então toda aquela segregação velada, que se manifesta pelas sombras, teve que ser deixada de lado por conta da urgência do momento. Não deu para desenvolver uma política mais aceitável de barreira ao acesso e, assim, foi necessário deixar as aparências de lado e sentar o dedo na caneta.

Já no futebol não temos este problema. Os indesejáveis já atormentam há muito tempo as pessoas de bem com seus cânticos de guerra, sua presença acintosa nas barracas de pernil, sua bebedeira descontrolada nos arredores, suas batucadas, seus churrascos, seus fogos e mais uma infinidade de coisas.

Portanto, como já faz tempo que estes “diferenciados” incomodam, foi possível um plano mais elaborado e a Copa veio muito a calhar. O plano se chama “modernização dos estádios” e a barreira aos mal-educados se chama “preço do ingresso”.

A lógica política por aqui é esconder, elitizar para peneirar e determinados setores preferem assim mesmo. Colocam-se cadeiras e aumenta-se o preço dos ingressos e pronto, nunca mais vamos ver aqueles bárbaros se espancando nas arquibancadas. Provavelmente eles irão se espancar em outro lugar, mas e daí? Ninguém vai ver mesmo.

Este é o caráter de muitos lugares, ricos dentro e pobres fora. Os estádios caminham para isso também, como a final da Copa das Confederações já demonstrou. Em pouco tempo será tão desagradável ir ao Maracanã quanto ao JK Iguatemi, apenas mais um lugar para a pobreza não entrar.

E assim caminhamos com arenas, shoppings, condomínios, liminares, muros, cercas, câmeras… A exclusão foi o caminho escolhido e como já disse Pablo Neruda: “você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências”.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s