Arquivo do mês: maio 2014

A COPA DO ÓDIO

 

 

bandeira-brasil

Link original: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-copa-do-odio,1171267,0.htm

Por Ugo Giorgetti

Passei por muitas Copas. Em todas vi gente torcendo contra e a favor do Brasil. Os contra sempre foram menos numerosos e alguns até não faziam mais do que pose. Em nenhuma senti a presença do ódio. Agora sinto. Há no ar um ódio disseminado, difuso, que parece não poupar ninguém.

A política atingiu a Copa como não se viu nem no tempo da ditadura. Por incrível que pareça, no Brasil democrático as facções, os grupos, os partidos, e, por decorrência os eleitores, se odeiam com muito mais virulência do que nos idos dos governos discricionários e ilegítimos. Quem está no poder, e seus partidários, quer permanecer e para isso, se pudesse, trucidaria todos os adversários. Quem almeja o poder, e seus partidários, não hesita em mentir, distorcer e mesmo incitar à desordem e à baderna com o fim de desgastar a situação. Como se trata de ódio no interior da elite esse ódio acaba por se estender a todos. São as elites que forjam os costumes, não é de estranhar, portanto, que o comportamento delas incida no comportamento das massas que incendeiam, fecham avenidas nas horas mais inconvenientes, ou gritam palavras de ordem sangrentas.

Essa Copa foi engendrada como um evento político. Desde o momento em que se aventou a sua possibilidade ela não passou de um acontecimento destinado a fincar em todo o território nacional determinadas bandeiras.

Os lugares foram cuidadosamente escolhidos, os estádios erguidos para espalhar pelo Brasil uma mensagem de interesse eleitoral. Entendendo isso os adversários passaram a combater essa ideia sem trégua e, desculpem, quase sem escrúpulos.

Agora a violência, verbal ou não, está perfeitamente nas ruas. O que ainda facilitou a tarefa dos propagadores do ódio foi a indiferença do povo. Nem a televisão nos entupindo de comerciais e lembranças da Copa que vem aí consegue fazer com que o povo se identifique minimamente com ela.

As pessoas sabem mal e mal onde jogam os atletas e em que times. Não há nenhuma identificação, nenhuma emoção, nenhuma , ouso dizer, torcida pelo seu astro preferido, já que todos os astros pertencem a outros torcedores, de outros continentes. Portanto, esta é uma Copa a frio. Seu resultado no campo pouco vai alterar as coisas.

Resta seu resultado fora do campo e é aí onde se trava o combate. Há uma obsessão de um lado para que tudo dê certo, nenhum alemão seja sequestrado, nenhum francês que queira ir ao Rio de Janeiro desembarque em Manaus, nenhum inglês sem água no banheiro. O outro lado torce para que tudo dê exatamente ao contrário. É isso que se tornou a Copa do Mundo entre nós. Estamos longe daquele tempo em que se falava apenas de futebol quando se tratava de Copa. Estamos muito longe do tempo em que a cidade trabalhava normalmente e ordeiramente durante a Copa e que pipocavam radinhos de pilha e informações desencontradas sobre o marcador. Agora há muita coisa mais em jogo. O futebol foi invadido primeiro pelo mundo dos negócios e é agora sacudido pelo da política.

Provavelmente , dentro de pouco tempo, nada mais vai restar dele, e Copas vão servir para se forjar palavras de ordem, às vezes vazias, às vezes cheias de significado, como “Yankees go home” ou “abaixo a ditadura” que nada tem a ver com futebol. “Não vai ter copa” é isso, apenas um sinal de que o ódio está nas ruas e atingiu a todos.

Acabou mais uma festa popular brasileira. Os tempos mudam e devemos aceitar tranquilamente que mudem, mas não precisava uma mudança tão ruim. Não é de admirar que estejamos vivendo a época das agressões nos estádios e dos linchamentos. Um ódio confuso, mal compreendido, porque vem muitas vezes das camadas mais irracionais do ser humano, invade as principais cidades do Brasil. O mais assustador é que o ódio é um sentimento que não recua, não esmorece, é apenas sufocado, esperando um momento para explodir.

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A TRISTEZA DE UMA ARENA

xuxa

Eu também fui ao Itaquerão ou Fielzão ou Arena Corinthians neste domingo (aguardemos os “naming rights”). Vi e ouvi diversas análises, desde a mais apaixonada até a mais crítica. Das saudades do alambrado à comparação com a realidade virtual do videogame quando os refletores foram acesos, fato é que não houve unanimidade na torcida. Esta mesma torcida que assumiu o papel de renegada econômica do futebol cantando a festa na favela, o maloqueiro e sofredor, agora tem um estádio revestido de mármore, com lojas, arquibancadas e camarotes que poucos poderão ter acesso.

Isso me trouxe certo desconforto nesta experiência. Acostumado com a dificuldade de entrar no Pacaembu, com a falta de acesso do Morumbi, com a comodidade quase varzeana do Canindé não consegui traçar qualquer paralelo entre estádio e arena. Não consegui porque não há qualquer vinculação. Das democráticas arquibancadas de cimento às excludentes cadeiras de plástico algo impalpável se perdeu pelo caminho, que foi rápido por demais.

Não compactuo com o desrespeito ao torcedor, pelo contrário. É obsceno que a autoritária Polícia Militar coordene filas que dificultam o acesso e é mais do que medíocre não existir transporte público de qualidade para se chegar ao estádio. Só que a transposição destes percalços contribuía para a mística da partida, que desaguava em risadas, cervejas e lanches de pernil, que agora são sacados de caixas de isopor higiênicas ao preço de R$ 8,00.

Indo direto ao ponto, cheguei ao meu setor com cadeiras numeradas que, felizmente, ninguém respeitou. Corria o boato de que não poderíamos fumar, tirar a camisa e nem torcer de pé, boatos típicos de arena e não de estádios. Nada disso se concretizou. Fumei, tirei a camisa e fiquei os 90 minutos de pé, mas sempre sob o olhar dos “stewards”, que com certeza receberão um nome mais adequado por parte da torcida.

Jogo morno, chuva gelada. Depois de um primeiro tempo ridículo começou o segundo com balde de água fria em dobro: gol adversário e chuva torrencial. Neste instante assisti à patética cena das pessoas correndo para a área coberta por causa da chuva. É o conforto se sobrepondo ao time. Me veio à mente a final do brasileiro de 99 contra o Atlético Mineiro, num Morumbi tomado por um mar preto e branco, quando sob um dilúvio nos sagramos campeões, com a torcida jogando quase mais do que o time quando a chuva começou. Quanta diferença.

Acabou o jogo no estádio – ou evento teste como prefere a FIFA -, perdemos na estreia para o lanterna. Um fim melancólico a um momento melancólico. No início da partida não aplaudimos nossos jogadores antigos ou atuais para estrear o novo campo, aplaudimos Xuxa e Andres Sanchez, ou seja, não transpusemos nossa história para o pontapé inicial, exaltamos o político, o marketing e os negócios.

Já fomos exaltados como a torcida que tem um time e veja só o que viramos: uma empresa que usa uma torcida. Não foi a inauguração do estádio que escancarou este fato, mas este domingo foi o ápice de nossa rendição ao futebol moderno. “Um novo modelo” como dizem os especialistas, parecendo que estão falando sobre carros e não sobre futebol.

O esporte que se moldou sobre as diferenças se padroniza, dependendo do aval de uma empresa para receber o nome de futebol, com selo de qualidade e padrões de comportamento. Entre “naming rights” e “stewards” a paixão cultural virou patrimônio de concreto e mármore.

Achei a experiência na arena péssima. Não por causa da falta de luz em alguns lugares, goteiras e obras no entorno. Isso até que deu uma humanizada na coisa. Não gostei porque agora é obrigatório torcer de umraça zé maria determinado modo. É ridículo ter que comemorar que pude assistir ao jogo de pé, fumando um cigarro, do mesmo modo que é ridículo estar lá sob os olhares de um guardinha fluorescente, com um animador de festas cantarolando gols, hinos e nomes.

Futebol é sangue, suor e cerveja, mas não sangue de operário, suor de nossos impostos e cerveja sem álcool. É sangue da camisa do Zé Maria, suor da testa do Ezequiel, cerveja do copo do Vampeta.

Como alguns fãs da Copa gostam de falar atualmente, é tarde para se manifestar. A mim, corintiano, resta engolir seco, trabalhar mais para ter dinheiro para ir ao estádio e comprar meu cachorro-quente de oito pila. E o dinheiro venceu de novo.

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