A TRISTEZA DE UMA ARENA

xuxa

Eu também fui ao Itaquerão ou Fielzão ou Arena Corinthians neste domingo (aguardemos os “naming rights”). Vi e ouvi diversas análises, desde a mais apaixonada até a mais crítica. Das saudades do alambrado à comparação com a realidade virtual do videogame quando os refletores foram acesos, fato é que não houve unanimidade na torcida. Esta mesma torcida que assumiu o papel de renegada econômica do futebol cantando a festa na favela, o maloqueiro e sofredor, agora tem um estádio revestido de mármore, com lojas, arquibancadas e camarotes que poucos poderão ter acesso.

Isso me trouxe certo desconforto nesta experiência. Acostumado com a dificuldade de entrar no Pacaembu, com a falta de acesso do Morumbi, com a comodidade quase varzeana do Canindé não consegui traçar qualquer paralelo entre estádio e arena. Não consegui porque não há qualquer vinculação. Das democráticas arquibancadas de cimento às excludentes cadeiras de plástico algo impalpável se perdeu pelo caminho, que foi rápido por demais.

Não compactuo com o desrespeito ao torcedor, pelo contrário. É obsceno que a autoritária Polícia Militar coordene filas que dificultam o acesso e é mais do que medíocre não existir transporte público de qualidade para se chegar ao estádio. Só que a transposição destes percalços contribuía para a mística da partida, que desaguava em risadas, cervejas e lanches de pernil, que agora são sacados de caixas de isopor higiênicas ao preço de R$ 8,00.

Indo direto ao ponto, cheguei ao meu setor com cadeiras numeradas que, felizmente, ninguém respeitou. Corria o boato de que não poderíamos fumar, tirar a camisa e nem torcer de pé, boatos típicos de arena e não de estádios. Nada disso se concretizou. Fumei, tirei a camisa e fiquei os 90 minutos de pé, mas sempre sob o olhar dos “stewards”, que com certeza receberão um nome mais adequado por parte da torcida.

Jogo morno, chuva gelada. Depois de um primeiro tempo ridículo começou o segundo com balde de água fria em dobro: gol adversário e chuva torrencial. Neste instante assisti à patética cena das pessoas correndo para a área coberta por causa da chuva. É o conforto se sobrepondo ao time. Me veio à mente a final do brasileiro de 99 contra o Atlético Mineiro, num Morumbi tomado por um mar preto e branco, quando sob um dilúvio nos sagramos campeões, com a torcida jogando quase mais do que o time quando a chuva começou. Quanta diferença.

Acabou o jogo no estádio – ou evento teste como prefere a FIFA -, perdemos na estreia para o lanterna. Um fim melancólico a um momento melancólico. No início da partida não aplaudimos nossos jogadores antigos ou atuais para estrear o novo campo, aplaudimos Xuxa e Andres Sanchez, ou seja, não transpusemos nossa história para o pontapé inicial, exaltamos o político, o marketing e os negócios.

Já fomos exaltados como a torcida que tem um time e veja só o que viramos: uma empresa que usa uma torcida. Não foi a inauguração do estádio que escancarou este fato, mas este domingo foi o ápice de nossa rendição ao futebol moderno. “Um novo modelo” como dizem os especialistas, parecendo que estão falando sobre carros e não sobre futebol.

O esporte que se moldou sobre as diferenças se padroniza, dependendo do aval de uma empresa para receber o nome de futebol, com selo de qualidade e padrões de comportamento. Entre “naming rights” e “stewards” a paixão cultural virou patrimônio de concreto e mármore.

Achei a experiência na arena péssima. Não por causa da falta de luz em alguns lugares, goteiras e obras no entorno. Isso até que deu uma humanizada na coisa. Não gostei porque agora é obrigatório torcer de umraça zé maria determinado modo. É ridículo ter que comemorar que pude assistir ao jogo de pé, fumando um cigarro, do mesmo modo que é ridículo estar lá sob os olhares de um guardinha fluorescente, com um animador de festas cantarolando gols, hinos e nomes.

Futebol é sangue, suor e cerveja, mas não sangue de operário, suor de nossos impostos e cerveja sem álcool. É sangue da camisa do Zé Maria, suor da testa do Ezequiel, cerveja do copo do Vampeta.

Como alguns fãs da Copa gostam de falar atualmente, é tarde para se manifestar. A mim, corintiano, resta engolir seco, trabalhar mais para ter dinheiro para ir ao estádio e comprar meu cachorro-quente de oito pila. E o dinheiro venceu de novo.

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2 Comentários

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2 Respostas para “A TRISTEZA DE UMA ARENA

  1. Palhaço

    vai te fuder rapaz

  2. Tá gostando de pagar caro pra assistir jogo?

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