UMA ÚLTIMA REFLEXÃO NA COPA

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Link Original: http://strayagain.wordpress.com/2014/07/15/uma-ultima-reflexao-na-copa/

Por Tom Gatehouse*

Apesar da Copa do Mundo ter sido – por consenso nacional e internacional – um grande sucesso, não todo mundo está satisfeito. Não, não estou falando do pobre torcedor brasileiro (poderia ser pior, vocês poderiam ser ingleses), mas da grande mídia e particularmente, de alguns pequenos comerciantes. Não faturaram tanto quanto queriam, os turistas não gastaram o desejado, e em dias de jogo (especialmente os da seleção brasileira), os negócios ficaram às moscas. Por que será? Instintivamente, muitos têm culpado os movimentos sociais e, especialmente, o movimento ‘Não vai ter Copa’.

Agora vale a pena reiterar que não existe um consenso sobre os benefícios de grandes eventos desse tipo para economias nacionais. Se diz que as Olimpíadas de 1992 foram um bom negócio para Barcelona, mas os jogos de 2004 tiveram consequências graves para Grécia, África do Sul não lucrou com a Copa de 2010, e até Alemanha – país que já tinha uma boa rede de estádios e uma infraestrutura sofisticada – também não lucrou com a Copa de 2006. Portanto, não era muito realista esperar que o Brasil fizesse grande lucro com essa Copa, ainda mais quando se considera o dinheiro que foi gasto para que a Copa pudesse acontecer aqui.

Aliás, nem todos os comerciantes reclamaram. Alguns, como os donos de bares, fizeram uma boa grana (segundo eles, o faturamento subiu 80% nos dias que a seleção brasileira jogou).

Agora chegamos aos ‘Não vai ter Copa’. Segundo a Folha de S. Paulo, o movimento ‘contaminou’ o país, criando um clima negativo que levou muita gente a desistir de fazer as preparações e investimentos necessários. Eu acho que é simplesmente o caso que alguns comércios (os bares, os taxis, os albergues, os vendedores ambulantes) naturalmente foram beneficiados pela Copa, enquanto infelizmente muitos outros tiveram um mês mais devagar. Mas talvez a Folha tenha razão sobre um ponto: muitas pessoas me falaram que o clima antes dessa Copa não se comparava ao das Copas anteriores. Será então que a culpa realmente é dos movimentos sociais? Dos ‘Não vai ter Copa’, ou talvez dos black blocs dos quais nós lemos tanto nos jornais e revistas?

Ou será que o clima negativo tinha a ver com o fato que o Brasil corria perigo de não entregar vários estádios antes da abertura? Ou que apenas 41% das obras totais planejadas para a Copa ficaram prontas a tempo? Ou que oito operários morreram durante a construção e reforma dos estádios (sem falar de mais duas pessoas após a queda de um viaduto em Belo Horizonte no dia 3)? Ou a superfaturamento de obras, ou as brigas mais ou menos públicas entre FIFA e o governo federal? Essas não seriam razões muito mais fortes do que umas manifestações de relativamente baixa adesão?

Parece que algumas pessoas levaram muito literalmente o movimento ‘Não vai ter Copa’. Ninguém – nem os ativistas mais militantes – acreditava que não ia ter Copa. Com tanto investimento, o Estado brasileiro não podia nem contemplar a possibilidade de não ter Copa. O lema ‘Não vai ter Copa’ sempre foi um exagero calculado, uma declaração simbólica, um jeito de chamar atenção ao movimento e às críticas dessa Copa do Mundo e a maneira que ela foi organizada. Ou seja, os protestos e greves que vimos nas semanas antes da Copa não são causas do mal-estar, mas sintomas dele. As causas são justamente essas identificadas e criticadas pelos manifestantes, com toda razão.

Estou falando das remoções forçadas de moradores das favelas e periferias das grandes cidades. Da ‘Lei Geral da Copa’ e as zonas de exclusão da FIFA perto dos estádios. DoBudweiser Bill, e o fato de que a FIFA não vai pagar nem um centavo de impostos no dinheiro que fez durante o evento. Me refiro à crescente criminalização de protesto, e ao uso de detenções arbitrárias, cercas humanas e até armas de fogo para conter manifestantes. E claro, sobretudo, aos bilhões gastos em um evento esportivo, em um país em que tantas pessoas carecem de saúde, educação, moradia, mobilidade urbana.

Nesse novo ataque aos movimentos sociais, eu vejo mais uma vez os instintos autoritários da grande mídia brasileira, e uma tentativa de legitimar a violência utilizada pelo Estado no tratamento das manifestações (vejam, por exemplo, a sugestão brilhante do Ronaldo de ‘baixar o cacete’ nos ‘vândalos’). Era lógica supor que a Copa seria geralmente um sucesso, considerando não apenas o dinheiro investido, mas também a grande paixão dos brasileiros pelo futebol. Por isso não me surpreende que as pessoas que protestavam contra o evento nas semanas antes da abertura agora são atacadas. Porém, podemos gostar do espetáculo, ao mesmo tempo que engajamos com ele de uma maneira crítica. Nosso amor pelo futebol não deveria nos cegar à corrupção, injustiça e violência que acompanharam essa Copa do Mundo desde o começo.

*O autor é inglês, professor, tradutor, escreve o blog “Para Inglês Ver” e atualmente mora no Brasil.

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