Uma seleção que não joga de local

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A goleada vexatória por 7 a 1 sofrida diante da Alemanha não é nosso único fiasco neste mundial. Batemos, prendemos, extorquimos e despejamos os nossos que ficaram do lado de fora do estádio para mostrar ao mundo inteiro, com requintes de crueldade, a nossa própria decadência dentro do mesmo. É verdade, o castigo foi muito pesado. E demasiado humilhante. E a nossa reação a ele foi ainda mais humilhante. Ela escancarou que estamos perdendo em campo, nos bastidores e também nas arquibancadas.

 

Nossa torcida perfumada que esteve presente nos estádios da Copa não soube apoiar o time. Uniu a falta de criatividade para criar uma canção com a falta de paixão para cantá-la. Não soube apoiar porque nunca apoiou nada de fato. Também pudera em um país que vem sistematicamente excluindo economicamente dos estádios o povo que ao longo da história batizou a grandeza do seu futebol. Não é de hoje que os estádios estão vazios. E não é por causa da violências das torcidas organizadas: primeiro porque os índices são os mesmos mas os atos de violência acontecem longe dos estádios e em segundo lugar porque pôde-se notar nesta Copa que “violência de arquibancada” não é monopólio de torcida organizada.

 

A lógica é bizarra. É tipo o sujeito que flagra a companheira o traindo no sofá da sala e para resolver o problema joga o sofá fora. Essa onda de cadeiras nos estádios brasileiros é surreal. Nunca precisamos disso para ser pentacampeões mundiais e para termos uma das culturas torcedoras mais apaixonantes do mundo. Por que então agora todo grande estádio vai ser encadeirado por essas bandas? E a proibição das bandeiras de bambu em São Paulo? E as proibições temporárias de baterias? As filas de gado e os corredores poloneses ocasionais?

 

Dizem por aí que o Brasil é o país do futebol, não é mesmo? Talvez seja o da exportação de jogadores, como bem frisou Juca Kfouri em seu blog, com números astronômicos de transações para o exterior o que talvez explique o baixo índice de jogos do Brasil para o seu próprio povo. Percebe-se que não se trata o futebol com o devido respeito por essas bandas. E olha que ele é considerado parte da nossa cultura popular. Engraçado que – de acordo com um levantamento feito a partir de sites de cobertura esportiva, já que a CBF não disponibiliza dados anteriores a 2013 – nos últimos cinco anos, de 66 partidas, jogamos apenas 22 em casa. Sendo que sete foram do mundial, 5 da Copa das Confederações e duas em Super-Clássicos (a Copa Roca moderna). Foram apenas 8 amistosos em casa contra 34 de visitante. Só nos Estados Unidos foram 6 jogos, um contra a Colômbia, outro contra a Argentina, outro contra o México, Portugal e apenas dois deles contra os EEUU, donos da casa, um em 2012 e outro em 2010, no ano da Copa da África do Sul, no qual nossa seleção não jogou nenhuma vez em nossos gramados futuramente higienizados e superfaturados.

 

E o preço que se paga por não jogar em casa e por sistematicamente excluir a sua torcida de dentro dos estádios é o quê vimos na Copa. Uma torcida apática, que não reage, que não joga junto com o time. Mas que canta o hino à capela! Nada contra cantar o hino com vigor, mas que cazzo isso tem a ver com futebol?

 

Coincidentemente ou não, essa mesma torcida desfilou seu ódio – aliás, desfilar é a especialidade de muitos que estavam ali – vaiando o hino do Chile e mandando para “aquele lugar” a presidenta do país, que também não me agrada muito, mas há de se entender que quem estava tão eufórico com a Copa deveria ter um mínimo sentimento de gratidão para com ela. Além do ódio contra os argentinos fomentado há anos por rede globo e adjacências, transformando uma rivalidade de futebol em algo muito mais macabro, usando como estopim a péssima interpretação de uma musica da torcida argentina que rememorava a nossa derrota em 1990. Perdemos mesmo em 1990? E daí? E daí que esse ódio todo fez com que muitos brasileiros torcessem como loucos pelos nossos algozes alemães. Torcer pelo time que depenou o meu time é algo inconcebível no mundo do futebol. Torcer pelo rival também é. Nesta final de Copa do Mundo no Maracanã, perdemos enquanto torcida uma grande oportunidade de ficarmos quietos.

 

O Brasil ainda terá mais quatro jogos neste ano. Em setembro pega a Colômbia em Miami e o Equador em Nova Jersey. No mês de outubro jogaremos o super clássico contra a Argentina. Em Pequim. E finalizando o ano, jogaremos de visitante em novembro contra a Turquia. Os donos da casa nos recebem em Istambul. Com o apoio de sua torcida. Nós contaremos com Dunga e José Maria Marin. É demais da conta, não acha?

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