Arquivo do mês: maio 2015

O Pior do Mundo

Texto do amigo Gabriel Brito para o Correio da Cidadania. Leia no original aqui!

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Já é hora de fazer um balanço. Essa é a 13ª edição em pontos corridos do Campeonato Brasileiro e, aparentemente, a avaliação só pode ser uma: fiasco.

Pode doer aos defensores da fórmula, entre eles eu, com seus balizados argumentos a respeito do que ela significa na garantia de um calendário mais estável e afeito ao planejamento de maior prazo (vamos deixar de lado que essa benesse mal atinge 20% dos clubes do país).

No entanto, saltam aos olhos as variadas ‘pasmaceiras’ por que passa o campeonato, a exemplo das duas primeiras rodadas que acabamos de ver (quem realmente viu?).

Sim, a versão brasileira dos pontos corridos é um desastre. Entre os campeonatos de mínima relevância mundial, certamente é a pior liga em termos de autopromoção e, digamos, conveniência.

A meu ver, não se trata mais de debater se temos de voltar ao mata-mata ou ficar na atual fórmula. Trata-se de algo mais primordial: ter um campeonato em que todas as rodadas, fases ou sei lá o quê sejam legais. Só isso.

Do jeito que está, não dá. E quem defende o mata-mata não pode ser visto como saudosista ou retrógrado. O que temos aí é um anti-campeonato.

Logo de cara, uma primeira rodada alocada numa quadra completamente decisiva e desgastante da temporada: finais dos estaduais, ainda jogados à vera, dos regionais e início das oitavas de final da Libertadores, além de fases similares da Copa do Brasil. É claro que não há cabeça pra criar um clima de decisão no meio de tantas outras, que já demandaram três meses de bons resultados.

Exemplo perfeito foi o Cruzeiro x Corinthians do primeiro domingo da disputa. Jogo realizado entre seus confrontos copeiros e, assim, completamente esvaziado.

Vejam bem: em que lugar do mundo o bicampeão estreia recebendo um dos gigantes do país, em rede nacional, e a sensação é de fim, e não começo, de feira?

Onde mais existe a “indústria da perda de mando de campo”, a gerar uma série interminável de jogos deslocados da cidade de direito, por uma sanha punitiva que agora transforma qualquer copo de plástico em arma letal e criminaliza todo e qualquer comportamento não consumista?

Pois além de não termos clima nenhum de clássico, um quase amistoso entre reservas, novamente tivemos de ver uma partida sugada pelo “legado da Copa”. Pior: pagou-se 1 milhão de reais para contratar um espetáculo (perdão pela linguagem corporativa) que não preencheu um terço dos assentos e arrecadou menos do que o necessário com sua média de 83 reais por tíquete.

Nem vamos dedicar este texto à discussão sobre o autoritarismo com que se tenta implantar o novo modelo de futebol e seu respectivo padrão de comportamento e preços, incapaz até de ler a lei da oferta e procura.

Mas cabe lembrar que no último Tottenham x Arsenal pela liga inglesa o pau quebrou nas cercanias do estádio, a entrada dos visitantes foi tumultuada e ninguém cogitou tirar algum jogo de White Hart Lane ou Emirates. Na primeira rodada da mesma, torcedor dos Spurs invadiu o campo, “cobrou uma falta” e foi detido, em partida contra o West Ham.

Na Alemanha, o término do clássico Borussia Möenchengladbach x Colônia foi seguido de uma invasão de campo dos torcedores visitantes, que provocaram os locais, inclusive com sinalizadores. Foram tirados do campo à base de sopapos pelos rivais, ainda que a briga não tenha tomado grandes proporções. Ninguém ficou sem mando.

Pois é, dizem copiar o modelo desses países, tratado como infalível e incorruptível, mas o fato é que por lá também existem distúrbios. O que muda é a convivência mais realística com a inerente vontade humana de, às vezes, quebrar leis e convenções. A punição coletiva, pra eles, não é caminho.

Voltando ao Bocejão 2015, teremos metade do primeiro turno com boa parte dos melhores times sem capacidade de concentração. A seguir, como em quase todos os anos, vem um campeonato de seleções, no caso deste, e do próximo, a Copa América.

Enquanto ela se desenrola, o nosso mundo segue. Assim, quem tem jogadores selecionáveis, e com o recente afluxo de sul-americanos ao Brasil isso aumentou, os perde por uma quantidade de jogos inaceitável. Mais uma auto-sabotagem, afinal, investe-se num Aranguiz ou Guerrero para perdê-los um mês.

A seguir, a gloriosa janela europeia, que amarra muitos pés dos quais esperamos bom desempenho. Não construímos um modelo realmente forte e capaz de segurar seus atletas por tempo mínimo, regular os ímpetos de seus representantes/mercadores e tampouco capitulamos a hegemonia europeia. E assim temos mais um ponto minado do campeonato.

Vem o segundo turno e com ele uma overdose de rodadas. Pra pôr em dia o atraso de ter começado só em maio, agosto e setembro têm todas as quartas-feiras preenchidas, sequência extenuante, sob a qual raramente algum time mantém uma boa regularidade, tanto física como técnica. Isso ficou evidente nos últimos dois anos.

Setembro, outubro e novembro são carregados de datas FIFA, o que não afeta em nada nossa rotina. Tome mais meia dúzia de jogos sem alguns dos principais atletas. E ainda há as seleções sub-23, sub-20, sub-8 no meio disso, pra usarem as revelações que já integram o elenco de cima.

Reparem: em 4 participações no Campeonato Brasileiro, Neymar não superou as 30 partidas em nenhuma. É claro que isso explica os insucessos do Santos, que no período em que teve seu astro só conseguia brigar por taças que se resolviam até o fim do primeiro semestre. Os esforços do Peixe comprovaram algo triste: no Brasil, não vale a pena fazer mágica financeira pra manter um fora de série.

Pra completar, somos obrigados a conviver com o gosto e necessidades comerciais da dona da festa. Isto é, quem não tem Pay Per View não assiste necessariamente aos melhores jogos. O Brasil não conheceu o Cruzeiro bicampeão. Nem de longe as façanhas do time de Marcelo Oliveira pairam no imaginário coletivo de nosso futebol. Se não for Corinthians ou Flamengo e mais um ou outro, só o torcedor do próprio clube o vê.

Aliás, falando em imaginário, nenhuma edição dos pontos corridos ocupa lugar de destaque em nossas memórias. Só lembramos, de verdade, do que fizeram nossos próprios times. Confrontos épicos e inesquecíveis entre terceiros não existem desde 2002.

Haja anticlímax. De 38 rodadas, metade à meia bomba. É o pior pontos corridos do mundo.

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Guerra de Classes no Palmeiras

Texto do amigo Leandro Iamin

publicado originalmente aqui: http://espnfc.espn.uol.com.br/palmeiras/o-periquitao/guerra-de-classes-no-palmeiras

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Contexto: domingo, final de campeonato paulista, lado de fora do estádio do Palmeiras (desculpe pelo prejuízo, Allianz). A torcida protesta contra os preços dos ingressos. Duas grandes bandeiras em forma de dólar estão expostas, e uma faixa chamando o ingresso de “mais caro do Brasil” também. Este protesto foi absolutamente ignorado por rádios, tevês, sites, blogs, pessoas. Ninguém protesta para si mesmo, para ser ignorado.

 

Dez dias depois, o Palmeiras anuncia a “cara nova” de seu Avanti: mais de 50% de “reajuste”. Inacreditável. Um “prêmio” pela adesão dos últimos meses, uma afronta a quem se dedica e se esforça para pagar, um retrato de Paulo Nobre, um tapa na cara que não encontra atenuante nem na tal da lei do mercado, essa abstração de adultos melancólicos. Um aumento de 10% era esperado. Fomos explorados, sem meias palavras. Esfaqueados. Próximo jogo, sábado, Atlético-MG, reação.

 

Não sou da Mancha Verde. Não assisto os jogos nela, nem frequento a quadra ou desfilo pela escola de samba. Tenho distância e independência para falar de seus erros, e não assino embaixo das merdas de ninguém, só das minhas. A luta dela por ingressos populares e um Palmeiras menos insano é um acerto. Topo discutir, noutra hora, toda a estrutura contaminada de todas as organizadas desta cidade, o papel de seus líderes e a necessidade de outra abordagem nas pautas sobre violência. Aqui, agora, não: ela está correta em seu protesto. Ficar calado no estádio é bacana? Claro que não, queria a Mancha cantando e o time certamente sentiu falta.

 

Mas era preciso chamar a atenção das pessoas para uma discussão. É curioso: quando agiu do jeito certo, ela foi ignorada. Quando fez do jeito errado, foi escutada.

 

Guerra de classes

 

O momento do Palmeiras é muito mais delicado do que as boas aparências sugerem, e decisivo para nosso futuro enquanto clube. Posicionar-se é preciso e ser morno, cinza, é inútil. Existe um simulacro da guerra de classes dentro do Palmeiras. Cada gesto pequeno movimenta as peças neste tabuleiro, a gente subestima isso mas são, já, muitos gestos, notadamente desde a inauguração do estádio.

 

O sábado foi mais do que o “ei mancha vai tomar no cu”, que precisa ser levado muito a sério para entendermos o processo pelo qual passamos, e sobre o qual o endiabrado e dissidente irredutível Rodrigo Barneschi escreveu muito bem em seu blog pessoal.

 

Teve também a histeria generalizada por causa da presepada envolvendo CBF e Allianz. O nome da empresa foi coberto por alguns minutos nas placas do estádio, e muito palmeirense concluiu: complô! Foi a maior defesa popular de uma empresa privada da história do twitter. Como se Palmeiras e CBF fossem inimigos políticos, e não são. A CBF, que marcou jogo da seleção justamente no nosso estádio, não tem ninguém capaz de somar 2+2, é verdade. Isso não dá ao palmeirense o direito de fazer a soma e dar cinco como resultado.

 

CBF, Allianz, Paulo Nobre, W-Torre, ninguém abriu discussão sobre o protesto nas ruas, nem perguntou nada a nenhum de nós antes de “reajustar” o Avanti. Eles cagam para o torcedor do nosso tipo. Por quê eu deveria me importar com o mal entendido deles? Que se matem, que se virem. Defender quem investiu (e isso é diferente de doar dinheiro, prejuízo hoje é só o torcedor que tem) no Palmeiras? Hm, é, curioso, durante o campeonato paulista era proibido colocar bandeira do Palmeiras em cima do nome/logo “Allianz Parque”. Ninguém pareceu indignado.

 

Eles estão de um lado. Todos eles, inclusive a voz oficial da Sportv, que, em um gesto incomum dada a delicadeza sentimental-editorial da dita cuja, chamou de “gente de bem” aqueles que xingavam a própria torcida. Eu estou do outro lado. Cada um que se posicione. Só não sejam inocentes: dói dizer, mas nunca o Palmeiras esteve tão rachado, desunido, e isto está diretamente ligado com a forma de gestão do estádio novo, sua precificação, suas imposições, sua poluição, seu não-diálogo. O Valdívia era uma metáfora disso, metade do estádio gostava, metade não gostava. Nem isso o chileno consegue mais ser. O Palmeiras está indo em uma direção de inevitável conflito, justamente por não ouvir a torcida nem respeitar a história, do clube e da cidade, das pessoas da cidade.

 

Febre

 

Trecho do livro Fever Pitch, do inglês Nick Hornby, com negritada minha:

 

Os grandes clubes parecem ter se cansado das suas torcidas, e sob certo aspecto quem pode culpá-los? Jovens trabalhadores e homens de classe média baixa trazem consigo problemas complicados e ocasionalmente perturbadores; os diretores e presidentes podem argumentar que eles tiveram sua chance e a desperdiçaram, e que as famílias de classe média – o novo público-alvo – não só irão se comportar bem, como pagar muito mais para fazê-lo.

 

Esse argumento ignora questões básicas que envolvem responsabilidade, justiça e o papel que os clubes têm ou não a representar nas suas comunidades. Mas mesmo sem essas questões, parece-me haver uma falha fatal nesse raciocínio. O prazer que um estádio de futebol pode proporcionar é, em parte, uma mistura do vicário com o parasítico, porque a não ser que a pessoa poste-se no Lado Norte, no Kop ou na Ponta Stretford, fica dependendo dos outros para que a atmosfera seja criada; e a atmosfera é um dos ingredientes cruciais da experiência futebolística. Essas torcidas imensas são tão vitais para os clubes quanto os jogadores (…) porque sem as torcidas ninguém se daria ao trabalho de ir ao jogo.

 

Muita gente – o pessoal das cadeiras que custam vinte libras, e os caras dos camarotes-executivos – também paga para ver a torcida que foi lá ver Paul Merson. Quem iria comprar um camarote-executivo se o estádio estivesse cheio de executivos? O clube vendia os camarotes incluindo a atmosfera de graça, de modo que o Lado Norte gerava tanta renda quanto qualquer um dos jogadores. Mas quem irá fazer o barulho agora? Será que a garotada suburbana de classe média ainda virá com suas mamães e papais se o barulho tiver de ser feito por eles mesmos? Ou será que se sentirão tapeados? Porque a realidade é que os clubes estão lhes vendendo ingressos para um espetáculo no qual a atração principal foi afastada para dar lugar a eles“.

 

Na mosca. Um estádio é também uma intenção de sociedade. O Brasil tem se tornado muito intolerante. O Allianz Parque mandou, dia desses, a Dilma tomar no cu. A Mancha Verde foi o alvo da vez. O subtexto destas revoltas ligeiras é semelhante. Não estamos dando a devida atenção aos sinais. A cada jogo o estádio é mais hostil para quem é minoria, para quem questiona, para quem não se adapta, para quem vai contra essa marcha acrítica e raivosa incapaz de entender as demandas de muita gente varrida do estádio, afastada para dar lugar justamente a raivosos acríticos que nenhum engraçadinho na tevê presume ser bandido.

 

Prestem atenção. Não se desfaçam de algo que pode não ser substituído. Não ajam antes de entenderem muito bem o que está acontecendo ao nosso redor, em nosso lugar. Não se façam de sonsos. Não se pautem pelo ódio estabelecido no passado, pois não é só o estádio que é novo. Botem a cara na questão, pois é disso que o Palmeiras precisa. Eu abreviei meu descanso e agradeço aos que pediram isso. Ainda tenho algum fôlego. Muita gente me motiva a usá-lo até o fim.

 

O Periquitão considera esta pauta mais importante que os 38 jogos do campeonato brasileiro.

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