O Pior do Mundo

Texto do amigo Gabriel Brito para o Correio da Cidadania. Leia no original aqui!

maxresdefault

Já é hora de fazer um balanço. Essa é a 13ª edição em pontos corridos do Campeonato Brasileiro e, aparentemente, a avaliação só pode ser uma: fiasco.

Pode doer aos defensores da fórmula, entre eles eu, com seus balizados argumentos a respeito do que ela significa na garantia de um calendário mais estável e afeito ao planejamento de maior prazo (vamos deixar de lado que essa benesse mal atinge 20% dos clubes do país).

No entanto, saltam aos olhos as variadas ‘pasmaceiras’ por que passa o campeonato, a exemplo das duas primeiras rodadas que acabamos de ver (quem realmente viu?).

Sim, a versão brasileira dos pontos corridos é um desastre. Entre os campeonatos de mínima relevância mundial, certamente é a pior liga em termos de autopromoção e, digamos, conveniência.

A meu ver, não se trata mais de debater se temos de voltar ao mata-mata ou ficar na atual fórmula. Trata-se de algo mais primordial: ter um campeonato em que todas as rodadas, fases ou sei lá o quê sejam legais. Só isso.

Do jeito que está, não dá. E quem defende o mata-mata não pode ser visto como saudosista ou retrógrado. O que temos aí é um anti-campeonato.

Logo de cara, uma primeira rodada alocada numa quadra completamente decisiva e desgastante da temporada: finais dos estaduais, ainda jogados à vera, dos regionais e início das oitavas de final da Libertadores, além de fases similares da Copa do Brasil. É claro que não há cabeça pra criar um clima de decisão no meio de tantas outras, que já demandaram três meses de bons resultados.

Exemplo perfeito foi o Cruzeiro x Corinthians do primeiro domingo da disputa. Jogo realizado entre seus confrontos copeiros e, assim, completamente esvaziado.

Vejam bem: em que lugar do mundo o bicampeão estreia recebendo um dos gigantes do país, em rede nacional, e a sensação é de fim, e não começo, de feira?

Onde mais existe a “indústria da perda de mando de campo”, a gerar uma série interminável de jogos deslocados da cidade de direito, por uma sanha punitiva que agora transforma qualquer copo de plástico em arma letal e criminaliza todo e qualquer comportamento não consumista?

Pois além de não termos clima nenhum de clássico, um quase amistoso entre reservas, novamente tivemos de ver uma partida sugada pelo “legado da Copa”. Pior: pagou-se 1 milhão de reais para contratar um espetáculo (perdão pela linguagem corporativa) que não preencheu um terço dos assentos e arrecadou menos do que o necessário com sua média de 83 reais por tíquete.

Nem vamos dedicar este texto à discussão sobre o autoritarismo com que se tenta implantar o novo modelo de futebol e seu respectivo padrão de comportamento e preços, incapaz até de ler a lei da oferta e procura.

Mas cabe lembrar que no último Tottenham x Arsenal pela liga inglesa o pau quebrou nas cercanias do estádio, a entrada dos visitantes foi tumultuada e ninguém cogitou tirar algum jogo de White Hart Lane ou Emirates. Na primeira rodada da mesma, torcedor dos Spurs invadiu o campo, “cobrou uma falta” e foi detido, em partida contra o West Ham.

Na Alemanha, o término do clássico Borussia Möenchengladbach x Colônia foi seguido de uma invasão de campo dos torcedores visitantes, que provocaram os locais, inclusive com sinalizadores. Foram tirados do campo à base de sopapos pelos rivais, ainda que a briga não tenha tomado grandes proporções. Ninguém ficou sem mando.

Pois é, dizem copiar o modelo desses países, tratado como infalível e incorruptível, mas o fato é que por lá também existem distúrbios. O que muda é a convivência mais realística com a inerente vontade humana de, às vezes, quebrar leis e convenções. A punição coletiva, pra eles, não é caminho.

Voltando ao Bocejão 2015, teremos metade do primeiro turno com boa parte dos melhores times sem capacidade de concentração. A seguir, como em quase todos os anos, vem um campeonato de seleções, no caso deste, e do próximo, a Copa América.

Enquanto ela se desenrola, o nosso mundo segue. Assim, quem tem jogadores selecionáveis, e com o recente afluxo de sul-americanos ao Brasil isso aumentou, os perde por uma quantidade de jogos inaceitável. Mais uma auto-sabotagem, afinal, investe-se num Aranguiz ou Guerrero para perdê-los um mês.

A seguir, a gloriosa janela europeia, que amarra muitos pés dos quais esperamos bom desempenho. Não construímos um modelo realmente forte e capaz de segurar seus atletas por tempo mínimo, regular os ímpetos de seus representantes/mercadores e tampouco capitulamos a hegemonia europeia. E assim temos mais um ponto minado do campeonato.

Vem o segundo turno e com ele uma overdose de rodadas. Pra pôr em dia o atraso de ter começado só em maio, agosto e setembro têm todas as quartas-feiras preenchidas, sequência extenuante, sob a qual raramente algum time mantém uma boa regularidade, tanto física como técnica. Isso ficou evidente nos últimos dois anos.

Setembro, outubro e novembro são carregados de datas FIFA, o que não afeta em nada nossa rotina. Tome mais meia dúzia de jogos sem alguns dos principais atletas. E ainda há as seleções sub-23, sub-20, sub-8 no meio disso, pra usarem as revelações que já integram o elenco de cima.

Reparem: em 4 participações no Campeonato Brasileiro, Neymar não superou as 30 partidas em nenhuma. É claro que isso explica os insucessos do Santos, que no período em que teve seu astro só conseguia brigar por taças que se resolviam até o fim do primeiro semestre. Os esforços do Peixe comprovaram algo triste: no Brasil, não vale a pena fazer mágica financeira pra manter um fora de série.

Pra completar, somos obrigados a conviver com o gosto e necessidades comerciais da dona da festa. Isto é, quem não tem Pay Per View não assiste necessariamente aos melhores jogos. O Brasil não conheceu o Cruzeiro bicampeão. Nem de longe as façanhas do time de Marcelo Oliveira pairam no imaginário coletivo de nosso futebol. Se não for Corinthians ou Flamengo e mais um ou outro, só o torcedor do próprio clube o vê.

Aliás, falando em imaginário, nenhuma edição dos pontos corridos ocupa lugar de destaque em nossas memórias. Só lembramos, de verdade, do que fizeram nossos próprios times. Confrontos épicos e inesquecíveis entre terceiros não existem desde 2002.

Haja anticlímax. De 38 rodadas, metade à meia bomba. É o pior pontos corridos do mundo.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

2 Respostas para “O Pior do Mundo

  1. Bebeto

    Primeiramente deve-se saber qual o objetivo da proposta. Eu acredito que independente de qual sejam, eles devam girar em cima de 2 finalidades opostas:1. Fortalecimento futebol regional, no intuito de se manter uma grande quantidade de times grandes e gerar competitividade a nível nacional, levando o futebol profissional ao máximo de cidades possíveis no território nacional, mesmo que a curto prazo leve a perca de competitividade internacional; 2. Internacionalização dos grandes times e potencialização da arrecadação dos grandes times, buscando leva-los a soberania no território americano (continente) e ao mesmo patamar dos grandes europeus, mesmo que isso dificulte a ascensão e manutenção na elite de times menos tradicionais.ou seja, fica claro que algo deve ser priorizado em detrimento de outro objetivo. Não se precisa relegar outros ganhos, eles apenas não serão prioridade. Enquanto não se sabe o q se busca, acertar a fórmula de disputa será como tentar acertar a maçã na cabeça de alguém usando um arco e flecha, estando vendado. e antes do formato, existem outros pontos tão ou mais importantes para o sucesso da (s) liga (s) dos times que seriam:- exigência de profissionalização da gestão, através da responsabilidade fiscal e da auto-gestão das competições base;- profissionalização da gestão da liga e dos comitês de arbitragem; – exigência de estádio com um mínimo de capacidade e condições para receber os jogos, com o cumprimento do padrão mínimoe aprovação pelas federações e sindicatos envolvidos, além da pm e corpo de bombeiros; – garantias que o estádio em questão estará a disposição durante o período da competição e uma proposta para um plano B em um eventual caso emergencial;- apresentação de um CT com estrutura mínima equivalente a divisão do time, aprovada pela liga, federação e sindicatos envolvidos; – teto e piso salarial e garantidas de pagamentos; – times que não cumpram as exigências não poderiam subir ou permanecer na divisão em questão,estando papassíveis de suspensão ou rebaixamento. pode parecer rigor excessivo mas não é. Estaríamos apenas tratando de parâmetros. Um estádio para 5000 pessoas e um ct que se limite a um campo em boas condições, por exemplo, poderia atender as exigências de uma liga alagoana, ou uma segunda divisão.

  2. Bebeto

    Dentre tudo que falei no primeiro comentário, tenho respectivamente 2 propostas:
    1.
    – 20 a 30 ligas “estaduais”, o ano todo, 12 a 16 times por divisão, turno e returno e pontos corridos;
    – 27 copas estaduais, mata-mata, o ano todo.
    – 4 a 8 copas estaduais, ao final da temporada em 4 datas;
    – campeonato nacional dividido em 3 etapas-> 1- mata-mata com os campeões das copas estaduais e melhores das ligas afim de ppreencher as vagas da segunda fase-> 2 – fase dr grupos com os campeões regionais mais os classificados da primeira fase -> mata-mata decisivo.

    2.
    – copa do Brasil em 2 etapas-> 1. Copa estadual em que os times da primeira divisão fazem no máximo 8 jogos -> copa dos campeões estaduais (jogos únicos, com mando de campo por sorteio e visitante com vantagem do empate, como ocorre na fa cup);
    – liga nacional subdividida em 3 ligas regionais com 10 times na primeira divisão, 20 na segunda e terceira divisão estadual.
    — os campeões da terceira divisão se jutam a alguns times da segunda num mata mata de acesso a segunda (seria como uma repescagem a alguns times da segunda);
    — os 2 últimos da segunda divisão caem direto e o campeão siobe direto;
    — o último colocado da primeira divisão de cada região cai dirrto, o penúltimo disputa um mata-mata com mais alguns times da segunda por uma vaga na primeira divisão;
    — os times da primeira divisão jogam em turno e returno dentro de sua região. Contra as outras regiões, jogos em turno único, em uma temporada, região A visita região B, que visita região C, que visita região A, na outra temporada os mandos se invertem. Tanto para a liga regional quanto para a nacional, contam-se os pontos de todos os confrontos (a fim de se valorizar o caráter nacional da competição).
    -copa dos campeões, mata-mata, principal competição do país, participam 12 times:
    Entram na primeira fase:
    Vice e terceiro da copa do Brasil, vice de cada região e mais 3 times classificados através da liga nacional;
    Entram na segunda fase o campeão da copa do Brasil e de cada regional.
    – campeão da liga nacional ja com vaga assegurarada na libertadores (vaga 4) e da copa do Brasil na pre libertadores, e campeão regional e vice da copa do Brasil garantidos na sulamericana. Demais vagas em competições definidas pela copa dos campeões e complementada pela liga nacional.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s