Arquivo do mês: setembro 2015

A lira dos primeiros amores e a valsa do menino verde. Um sonho palmeirense que se vive em verde, branco e vermelho sangue

(Caros leitores da Destilaria da Bola, segue abaixo um texto emocionante do amigo, jornalista e escritor Marcelo Mendez. Confiram!)

554248_422284921118363_100000105762501_1826154_427782811_n

Um tempo duro em que as pessoas não podiam se expressar não se tinha direitos individuais e aqueles que “ousavam” lutar contra isso, eram duramente reprimidos, com torturas, espancamentos, assassinatos e afins.

Houve uma vez a década de 70…
Um tempo duro em que as pessoas não podiam se expressar não se tinha direitos individuais e aqueles que “ousavam” lutar contra isso, eram duramente reprimidos, com torturas, espancamentos, assassinatos e afins. Nesse cenário, fui menino.
Muito bem criado, amado e feliz no meu bairro no meio da minha gente. Pouco reclamava, embora motivos para isso talvez não me faltasse. Diferente da maioria dos amigos eu não tinha o pai por perto. O velho havia decidido lutar uma luta que eu não entendia muito bem qual era, mas, ouvi dizer que eram contra uns caras ae que batiam nos outros, que os torturavam que meu pai tentava da forma que podia tentar mudar tudo isso. Difícil, ele era um líder sindical em uma época que isso não era necessariamente glamouroso.
A consequência foi sua saída de casa. Mas o Pai era corajoso e logo deu um jeito de ver o menino…
Numa ação muito bem elaborada, uma vez por mês, um carro vinha até o Parque Novo Oratório e ficava em frente ao mercado do seu Toyoda. Ali eu embarcava. Esse tal carro me levava até o Estádio Palestra Itália, onde o Palmeiras com Dudu, Ademir Da Guia, Edu, Leivinha, César e Ney dava verdadeiros espetáculos de futebol. Ali, eu encontrava meu Pai. E era a festa.
Meu Pai, por tais “motivos de segurança” tinha que vir disfarçado, com um bigode, ou óculos, ou careca, ou cabeludo… Eu vibrava! Achava na candura dos meus 5, 6 anos de idade que o pai era uma espécie de “Agente Secreto”, como aqueles que tinham no cinema. Era a forma que eu tinha para não pensar que no mês seguinte, poderia não ver mais o velho. E o time de futebol ajudava…
Vendo então os passes de um louro, camisa 10, elegantíssimo, eu me encantava e tinha contato com a primeira forma de arte da minha vida; Os passos daquele homem de camisa 10 era o primeiro e mais belo dos balés que via na vida. Tudo era alegria e então não tinha como o não amar aquele time. Primeiro porque o futebol deles era lindo; Segundo, porque era o único lugar onde permitiam que eu encontrasse meu pai. Durante 90 minutos, pai e filho tinham, portanto o contato, a relação que, convicção política, econômica, social, sexual, religiosa nenhuma jamais poderia impedir! Os homens daquela época não entendiam isso. O tempo passou…
O menino cresceu e seu pai voltou para casa. Que alegria na vida do menino! O pai em casa ensinou a ler os bons livros, ouvir os bons discos e beijar as mais belas bocas e a ir ao Parque Antártica, mas não para ver os espetáculos de menino. Os tempos ludopédicos eram duros. Meu Palmeiras não tinha mais o encanto da Academia de outros tempos, não tinha mais o seu lendário camisa 10 e a penumbra começou por todos os anos 80. Quer dizer; Depende de como se quer ver a coisa. Porque foi aí que me fiz Palmeirense pra valer…
Foi chorando na arquibancada do Parque Antártica em 1985 após a derrota de virada para o XV De Jaú por 3×2 que descobri que amava meu clube. Após a derrota para a Inter De Limeira por 2×1 na final do Campeonato Paulista de 1986 que senti forte a dor de uma perda, por algo que você ama muito. Depois de um implacável 3×0 metido pelo Bragantino em um timaço nosso em 1989, eu entendi a complexidade, a dureza de manter um amor por toda a vida. Chorei demais em 1997 quando meu pai cansou dessa chatice e decidiu descansar desse mundo chato.
No dia do seu enterro, fui ao Palestra Itália e vi o Palmeiras golear o Grêmio por 5×0, o que me fez me sentir um pouquinho menos triste, exatamente como me sentia nos encontros dos anos 70. Chorei. Chorei num misto de alegria e tristeza, mas, não tive mais duvidas; Eu sou Palmeirense. Sou porque foi na miséria ludopédica plena que esse amor se consolidou. Amor de Trapo e Farrapo, minha bandeira de guerra, meu pé de briga na terra, meu direito de ser gente, como cantou Paulo Vanzolini. O Palmeiras é isso na minha vida; “Meu direito de ser gente”. E fui…
Pelo Palmeiras eu vivi tudo; Eu ri, chorei, xinguei, amei, odiei… Vivi a plenitude da existência e entendi que isso faz parte não só do esporte, mas da vida. Por isso, mais do que qualquer outro vivente do mundo, eu sei o gosto bom de ser campeão pelo meu verde. Sei pelo paradoxo disso tudo, do contrário que pode acontecer ou seja; Sei porque não preciso de nada… de mais nada além da paixão, para me sentir Feliz pelo meu verde.
Sei, porque o Palmeiras é muito mais que um clube de futebol para mim. Sei porque entendi há muito tempo que o Palmeiras é um pouco de tudo que há no futebol. O Palmeiras é um drama, como na Cavaleria Rusticana, o Palmeiras é um sonho como num filme de Akira Kurosawa, o Palmeiras é uma tragédia como Carmen de Bizet, o Palmeiras é lindo como a Nona Sinfonia de Bethoveen, como a peça Jesus Alegria Dos Homens de Bach é triste como o fim do primeiro namoro é pleno como a fúria de uma paixão.
Depois do ultimo titulo da Copa Do Brasil, conquistado nessa quarta feira, pensei nisso tudo. Fiquei pensando na coisa de não ser mais menino, mas ae cheguei à conclusão de que não, nunca isso vai acontecer. É impossível. Nada que o homem de seus 40 anos, escritor, jornalista, apaixonado por elas, por todas elas, está dissociado do menino Palmeirense dos anos 70. Tudo que faço tudo, tudo que sinto tudo que eu sou vem do menino. O jeito latino, a malandragem do bem, o gosto pelas ancas santas, a incessante disposição na busca por encanto, o Palmeiras… Tudo é o menino.
Pensando nisso, sorri feliz da vida, lembrei-me de uma situação e de um cara então fui La fuçar nas minhas coisas e encontrei um velho ingresso já meio amarelado do tempo e li:
PALMEIRAS x XV DE PIRACICABA 1976. Do lado uma velha foto do meu pai já amarelada do tempo e de emoção. Sentindo o peito transbordando dessa mesma emoção, decidi ir até o som ouvir Baby Huey cantar. Ae, olhando para ingresso, falei bem alto:
Palmeiras, eu te amo…
*Originalmente publicado aqui: http://www.pastilhascoloridas.com/2012/07/lira-dos-primeiros-amores-e-valsa-do.html
Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Na contramão de tudo, até de nós mesmos

Por Raphael Sanz, para o blog da Central 3

link da publicação original: http://www.central3.com.br/blog-type/na-contramao-de-tudo/

11987037_10207197572315724_8094704485117464329_n

Recebi, na noite do dia 6 de Setembro de 2015, o convite do meu amigo e companheiro de terrão, Xico Malta, para escrever um artigo sobre a proibição da PM ao mosaico da Mancha Verde no clássico disputado naquela tarde. Agradeço e peço desculpas ao amigo. Desculpas pela demora na entrega do texto (a correria tá braba) e por não ser possível escrever apenas sobre essa nova proibição. O momento é de disputa para o Palmeiras. Mas essa disputa não tem nada a ver com o Brasileirão ou a Copa do Brasil.

Em primeiro lugar é preciso tomar algumas notas, algumas internas ao convívio que tenho com os “centralinos”. Já encontrei diversas vezes meus amigos Leandro Iamin e Paulo Silva Júnior nas imediações do Palestra Itália, curtindo a vida e o Palmeiras. Infelizmente, como já demonstrou com maestria o velho Cartola, minha alegria é tão mentirosa quanto o beijo que o Lucas deu no escudo do clube ao marcar o primeiro gol daquele jogo. Só que, assim como o nosso lateral, eu preciso me iludir, me enganar para viver com um mínimo de conforto mental nessa conjuntura insana.

Por alguma razão, ainda vibro e transbordo meus sentimentos futebolísticos, ainda que a Razão, substantiva, me diga o tempo todo que o futebol não é mais o mesmo. A impressão que eu tenho é que a proibição do mosaico, além de uma ironia danada visto o mosaico exibido no Lixão uma semana depois, foi apenas mais uma medida de penalização e de ataque ao torcedor nessa que é a maior disputa da história do centenário clube dos imigrantes: a do acesso ao estádio.

O jogo foi considerado o melhor do ano pela imprensa que desequilibra sua atenção e a balança de noticias positivas e negativas a favor do outro time. “Nossa, 3 a 3! Que clássico!”, bradaram os colegas.

Para nós, torcedores, uma vergonha. Vimos o nosso goleiro, que até então seguia confiante, falhar no terceiro gol do adversário, vimos um treinador que errou na escalação do time, vimos uma defesa tenebrosa e uma arbitragem desastrosa. Também vimos um líder de campeonato que até buscava o jogo, mas não oferecia perigo. Chegou três vezes e, por três vezes nossa defesa bateu cabeça. O que vimos de positivo foi um ataque que marca gols contra boas defesas e uma torcida que, restrita a pouco mais de 7 mil lugares atrás do gol norte, cantou sem parar e ignorou as telinhas e os telões.

Tive a felicidade de estar presente no estádio por causa do “irmão do amigo de uma amiga minha”, que tem um plano de sócio torcedor no qual paga 100 reais por mês que lhe garante um ingresso preferencial nas cadeiras do gol norte. Ele não foi ao estádio e me repassou, através de conhecidos, o seu cartão. Isso é muito comum. A presença no estádio conta pontos para compras de ingressos preferenciais. Quem paga 100 reais mensais, por exemplo, não paga o ingresso do gol norte e, tendo mais de 80% de presença nos jogos do Palmeiras, ainda tem a possibilidade de garantir a entrada antecipadamente em relação aos portadores do mesmo plano que têm uma frequência menor. É uma estratificação extremamente complexa que gera competição entre os torcedores por ingressos e tem na mensalidade e na frequência os seus pilares. O pilar da frequência abre uma brecha, esta pela qual consegui ir ao jogo.

Minha modalidade custa 30 reais por mês. Fui obrigado a fazer em 2012, quando essa era a única possibilidade de comprar ingressos para os jogos finais da Copa do Brasil daquele ano. Sempre tive o costume de ir ao estádio, durante aquela Copa não foi diferente. A partir da final de 2012, eu acompanhei – comprando ingressos através do Avanti – as campanhas do rebaixamento de 2012, da lamentável Libertadores de 2013, a série B do mesmo ano e todo o ano de 2014, que, se eu pudesse, apagaria da memória. Pagava em média 15 reais o ingresso no Pacaembu. Eu tinha em torno de 80% de presença quando foi inaugurada a moderníssima arena.

Acontece que ao contrário do Pacaembu e do velho Palestra Itália, a nova arena do Palmeiras veio com um setor popular minúsculo. Pouco mais de 7 mil lugares vendidos a preços caros. Todos os outros setores, caríssimos. Contra o Sport, na estreia, o setor popular esgotou em 40 minutos de venda. Procurei nos outros setores. Impagável. Perdi o jogo e minha porcentagem de presença caiu. Assim sucessivamente. Com alguns jogos perdidos, já era impossível acessar o setor popular antes que ele já estivesse esgotado. Para conseguir o acesso novamente, eu teria que aumentar a taxa do sócio torcedor me filiando a um plano superior nessa estratificação e me submeter aos setores mais caros durante um período para restabelecer a minha frequência e o acesso aos ingressos do gol norte. Fora de cogitação. Não por má vontade, mas por força da realidade.

Em primeiro lugar, é um absurdo obrigar o torcedor a se fidelizar a um programa de sócio torcedor. Deveria ser possível ter acesso aos jogos sem a necessidade de um cartão especial mediante mensalidade. Todos já pagam impostos demais e acompanhar o time do coração deveria ser uma futilidade no orçamento, e não mais um sacrifício. As velhas bilheterias, os pontos de venda e a velha distribuição democrática dos setores, resolveriam.

Em segundo lugar, observei a direção do maldito telão que colocaram no estádio. As imagens variavam entre zooms da partida, replays de lances acalourados e retratos da plateia, não da torcida. Pessoas olhando para seus celulares ao lado de pessoas que olhavam para o telão, e, ao verem-se nele davam “tchauzinhos” para o mundo, contagiando todos ao seu redor com o gesto. Era fácil de localizar onde estavam, bastava olhar para os setores laterais do estádio e ver as mãozinhas tremulando. Proíbem as bandeiras, colocam “tchauzinhos” no lugar. Enquanto isso, um Dérbi centenário comia solto diante dos seus narizes. Nem um “tchauzinho” sequer partiu do gol norte. É possível diagnosticar algumas bizarrices no gol norte, como o uso compulsivo de smartphones, mas nada de “tchauzinho”.

Há uma clara escolha de público para o novo estádio, que deriva da estratificação sócio comportamental (afinal, torcer é comportar-se) gerada pelo programa de sócio torcedor. Digo isto, pois muitas pessoas têm ficado para fora do estádio, quando não encontram uma brecha no sistema. Muitas delas vão ao estádio, mas acabam ficando na esquina das ruas Turiaçu e Caraíbas, assistindo aos jogos nos botecos, restaurantes e sedes de torcidas. Neste 6 de Setembro, essas pessoas encheriam um outro gol norte. O problema é que essas pessoas não estão dispostas a pagar 150 reais para assistir a um jogo de futebol, o que as impede de ir em outro setor. Além disso, quando entram no estádio, geralmente estão mais preocupadas com o jogo do que com o telão. Em tempo: digo isso de maneira geral, sempre existem exceções.

A proibição do mosaico não está descolada deste contexto da modernização do futebol, que prevê um torcedor comportado, civilizado e aberto às diversas interferências extra campo que podem vir a serem feitas. Imagens no telão, selfies e anúncios. Há um desafio enorme que a atual conjuntura nos oferece em relação ao futebol. Há uma disputa econômica, social e cultural. Os preços exorbitantes, as cadeiras marcadas e a obrigação do uso de cartão de crédito, CPF e matrícula no programa de sócio torcedor são os principais ingredientes na seleção do púbico torcedor e na reconfiguração do seu comportamento. A arquitetura também dita comportamento. Isso é fato comprovado. Pode estimular ou inibir, libertar ou reprimir.

Nesse ano, a disputa dentro de campo é a menos importante para o Palmeiras. O time não está nenhuma maravilha, às vezes nos envergonha com erros grotescos, mas está lá, em torno do quinto lugar na tabela e nas quartas-de-final da Copa do Brasil. O grande desafio está nas arquibancadas. Ou melhor, nos portões de acesso ao clube. Brasileirão todo ano tem. Mas essa disputa pelo acesso democrático e popular aos estádios, se perdida, levará anos para ser retomada. Vamos na contramão de tudo, até de nós mesmos. Sempre nos gabamos de sermos uma torcida diferente – apaixonada, amalucada, nervosa e gigante, mesmo sem a ajuda dos grandes meios de comunicação – e hoje assistimos entorpecidos os ratos converterem a paixão centenária do palmeirense em montantes de dinheiro, rankings, fidelizações e lugar marcado. Tudo pré-calculado. E lamentavelmente ridículo. Quem viveu o velho Palestra, sabe.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized