A lira dos primeiros amores e a valsa do menino verde. Um sonho palmeirense que se vive em verde, branco e vermelho sangue

(Caros leitores da Destilaria da Bola, segue abaixo um texto emocionante do amigo, jornalista e escritor Marcelo Mendez. Confiram!)

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Um tempo duro em que as pessoas não podiam se expressar não se tinha direitos individuais e aqueles que “ousavam” lutar contra isso, eram duramente reprimidos, com torturas, espancamentos, assassinatos e afins.

Houve uma vez a década de 70…
Um tempo duro em que as pessoas não podiam se expressar não se tinha direitos individuais e aqueles que “ousavam” lutar contra isso, eram duramente reprimidos, com torturas, espancamentos, assassinatos e afins. Nesse cenário, fui menino.
Muito bem criado, amado e feliz no meu bairro no meio da minha gente. Pouco reclamava, embora motivos para isso talvez não me faltasse. Diferente da maioria dos amigos eu não tinha o pai por perto. O velho havia decidido lutar uma luta que eu não entendia muito bem qual era, mas, ouvi dizer que eram contra uns caras ae que batiam nos outros, que os torturavam que meu pai tentava da forma que podia tentar mudar tudo isso. Difícil, ele era um líder sindical em uma época que isso não era necessariamente glamouroso.
A consequência foi sua saída de casa. Mas o Pai era corajoso e logo deu um jeito de ver o menino…
Numa ação muito bem elaborada, uma vez por mês, um carro vinha até o Parque Novo Oratório e ficava em frente ao mercado do seu Toyoda. Ali eu embarcava. Esse tal carro me levava até o Estádio Palestra Itália, onde o Palmeiras com Dudu, Ademir Da Guia, Edu, Leivinha, César e Ney dava verdadeiros espetáculos de futebol. Ali, eu encontrava meu Pai. E era a festa.
Meu Pai, por tais “motivos de segurança” tinha que vir disfarçado, com um bigode, ou óculos, ou careca, ou cabeludo… Eu vibrava! Achava na candura dos meus 5, 6 anos de idade que o pai era uma espécie de “Agente Secreto”, como aqueles que tinham no cinema. Era a forma que eu tinha para não pensar que no mês seguinte, poderia não ver mais o velho. E o time de futebol ajudava…
Vendo então os passes de um louro, camisa 10, elegantíssimo, eu me encantava e tinha contato com a primeira forma de arte da minha vida; Os passos daquele homem de camisa 10 era o primeiro e mais belo dos balés que via na vida. Tudo era alegria e então não tinha como o não amar aquele time. Primeiro porque o futebol deles era lindo; Segundo, porque era o único lugar onde permitiam que eu encontrasse meu pai. Durante 90 minutos, pai e filho tinham, portanto o contato, a relação que, convicção política, econômica, social, sexual, religiosa nenhuma jamais poderia impedir! Os homens daquela época não entendiam isso. O tempo passou…
O menino cresceu e seu pai voltou para casa. Que alegria na vida do menino! O pai em casa ensinou a ler os bons livros, ouvir os bons discos e beijar as mais belas bocas e a ir ao Parque Antártica, mas não para ver os espetáculos de menino. Os tempos ludopédicos eram duros. Meu Palmeiras não tinha mais o encanto da Academia de outros tempos, não tinha mais o seu lendário camisa 10 e a penumbra começou por todos os anos 80. Quer dizer; Depende de como se quer ver a coisa. Porque foi aí que me fiz Palmeirense pra valer…
Foi chorando na arquibancada do Parque Antártica em 1985 após a derrota de virada para o XV De Jaú por 3×2 que descobri que amava meu clube. Após a derrota para a Inter De Limeira por 2×1 na final do Campeonato Paulista de 1986 que senti forte a dor de uma perda, por algo que você ama muito. Depois de um implacável 3×0 metido pelo Bragantino em um timaço nosso em 1989, eu entendi a complexidade, a dureza de manter um amor por toda a vida. Chorei demais em 1997 quando meu pai cansou dessa chatice e decidiu descansar desse mundo chato.
No dia do seu enterro, fui ao Palestra Itália e vi o Palmeiras golear o Grêmio por 5×0, o que me fez me sentir um pouquinho menos triste, exatamente como me sentia nos encontros dos anos 70. Chorei. Chorei num misto de alegria e tristeza, mas, não tive mais duvidas; Eu sou Palmeirense. Sou porque foi na miséria ludopédica plena que esse amor se consolidou. Amor de Trapo e Farrapo, minha bandeira de guerra, meu pé de briga na terra, meu direito de ser gente, como cantou Paulo Vanzolini. O Palmeiras é isso na minha vida; “Meu direito de ser gente”. E fui…
Pelo Palmeiras eu vivi tudo; Eu ri, chorei, xinguei, amei, odiei… Vivi a plenitude da existência e entendi que isso faz parte não só do esporte, mas da vida. Por isso, mais do que qualquer outro vivente do mundo, eu sei o gosto bom de ser campeão pelo meu verde. Sei pelo paradoxo disso tudo, do contrário que pode acontecer ou seja; Sei porque não preciso de nada… de mais nada além da paixão, para me sentir Feliz pelo meu verde.
Sei, porque o Palmeiras é muito mais que um clube de futebol para mim. Sei porque entendi há muito tempo que o Palmeiras é um pouco de tudo que há no futebol. O Palmeiras é um drama, como na Cavaleria Rusticana, o Palmeiras é um sonho como num filme de Akira Kurosawa, o Palmeiras é uma tragédia como Carmen de Bizet, o Palmeiras é lindo como a Nona Sinfonia de Bethoveen, como a peça Jesus Alegria Dos Homens de Bach é triste como o fim do primeiro namoro é pleno como a fúria de uma paixão.
Depois do ultimo titulo da Copa Do Brasil, conquistado nessa quarta feira, pensei nisso tudo. Fiquei pensando na coisa de não ser mais menino, mas ae cheguei à conclusão de que não, nunca isso vai acontecer. É impossível. Nada que o homem de seus 40 anos, escritor, jornalista, apaixonado por elas, por todas elas, está dissociado do menino Palmeirense dos anos 70. Tudo que faço tudo, tudo que sinto tudo que eu sou vem do menino. O jeito latino, a malandragem do bem, o gosto pelas ancas santas, a incessante disposição na busca por encanto, o Palmeiras… Tudo é o menino.
Pensando nisso, sorri feliz da vida, lembrei-me de uma situação e de um cara então fui La fuçar nas minhas coisas e encontrei um velho ingresso já meio amarelado do tempo e li:
PALMEIRAS x XV DE PIRACICABA 1976. Do lado uma velha foto do meu pai já amarelada do tempo e de emoção. Sentindo o peito transbordando dessa mesma emoção, decidi ir até o som ouvir Baby Huey cantar. Ae, olhando para ingresso, falei bem alto:
Palmeiras, eu te amo…
*Originalmente publicado aqui: http://www.pastilhascoloridas.com/2012/07/lira-dos-primeiros-amores-e-valsa-do.html
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