Arquivo do mês: abril 2016

A farsa de Hillsborough: vamos banir a polícia?

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Por Luiz Guilherme Ferreira e Alex Mirkhan

A farsa de Hillsborough acabou definitivamente. Em 15 de abril de 1989, no estádio de Hillsborough, a semifinal da Taça da Inglaterra, entre Liverpool e Nottingham Forest, teve que ser interrompida ainda no começo do primeiro tempo porque os torcedores estavam entrando no campo em função do excesso de gente nas arquibancadas. Inicialmente, a polícia tentou contê-los (que surpresa), mas depois de perceber que pessoas estavam sendo esmagadas contra as grades passaram a ajudar. Resultado: 96 mortos e mais de 700 pessoas feridas.

Este episódio foi a gota d’água para Margaret Thatcher, então primeira ministra, que resolveu “dar uma resposta firme à sociedade”, no melhor estilo Geraldo Alckmin, ou seja, omitindo e mentindo. Transcrevo um trecho de um texto deste mesmo blog que define bem o desenrolar desta tragédia:

“No ano seguinte, ou seja, em 1990, saiu o famoso Taylor Report, o relatório oficial sobre o desastre, redigido por Lord Justice Taylor que então responsabilizou os torcedores do Liverpool pelos 96 mortos e tantos outros feridos. Nem preciso dizer o porquê o relatório ordenou, e foi atendido, que os setores dos estádios onde se assiste ao jogo de pé, semelhantes às nossas arquibancadas, fossem banidos dos estádios de toda a Grã Bretanha. Precisa dizer que depois disso os preços dos ingressos foram aumentando em progressão meteórica? Se eu continuasse escrevendo aqui, ia falar sobre como a criação da Premier League, impulsionada pelas televisões por assinatura, principalmente a Sky, tem uma relação gigantesca com toda essa tragédia programada, anunciada e mal resolvida”.

Esta foi a real dimensão do que ocorreu na Inglaterra, o divisor de águas no quesito futebol moderno. De lá para cá, vimos o modelo inglês se espalhar pelo mundo e o sinônimo de desenvolvimento ser as portas dos clubes abertas para o poder econômico, com a venda de nomes de estádios, nenhum lugar de pé, preços de ingressos caros, enfim, afastando a população de baixa renda das arenas esportivas em função da segurança, que quando combinada ao lucro ganha o selo de aprovação da FIFA.

A torcida do Liverpool sempre soube; os fãs de futebol idem; e boa parte da imprensa inglesa também, mas só agora a justiça abriu os olhos para o óbvio: os 96 torcedores dos Reds não foram os verdadeiros culpados pelo episódio que entrou para a história do futebol como a “Tragédia de Hillsborough”. A “verdade”, como gosta de manchetar o tabloide The Sun, estava na cara desde o dia do incidente, e só agora, 27 anos depois, a justiça inglesa concluiu: a culpa toda foi da polícia e dos organizadores do evento.

Capas do The Sun em 1989 e 2012: a mídia a favor da farsa

Capas do The Sun em 1989 e 2012: a mídia a favor da farsa

Embora tardiamente, a absolvição da torcida que empurra o vitorioso time inglês, além de redimir familiares e amigos das vítimas, também ajudou a colocar muitos pingos nos is – afinal, agora está claro que a culpabilização das vítimas não só eximiu a polícia e o poder público como serviu de “mito fundador” para a reforma radical que modernizou/pasteurizou o futebol inglês.

A perversidade na construção dos fatos é algo que transpõe os alambrados destruídos de Hillsborough. Toda esta farsa montada visando a implementação de um modelo econômico e social não passa de repetição da atuação do Estado em muitas outras esferas. Podemos discutir eternamente o bem e o mal da administração socialista, neoliberal, ditatorial, democrática, mas sempre chegaremos à conclusão que a possibilidade de administrar a morte permanece o pivô de toda a construção estatal.

Assistimos a estas perversidades nos nossos estádios também. A recente ofensiva do Ministério Público e da Secretaria de Segurança Pública contra as torcidas organizadas, em especial as do Corinthians, demonstra bem este fato. Do mesmo modo, é muito bem ilustrado que se tentou fazer um Hillsborough tupiniquim em 1995, na batalha entre Mancha Verde e Independente no Pacaembu, momento marcante do nosso futebol como início das proibições.

Só não passamos por um processo tão bruto e repentino de elitização em 95 porque nos faltava o poder econômico organizado para impulsioná-lo. Apenas a criminalização não foi suficiente e nem poderia. Talvez, possamos interpretar que o nosso Hillsborough foi a Copa do Mundo. Todos os elementos que marcaram a transformação do futebol inglês estiveram pelas bandas de cá desde que o país foi confirmado como sede do maior evento do ludopédio.

Thatcher e a polícia:  o futebol nunca mais seria o mesmo

Thatcher e a polícia: o futebol nunca mais seria o mesmo

No início dos anos 90, Margaret Thatcher contou com a imprensa, o mercado e, principalmente, o medo estimulado na população inglesa para aplicar o seu tão sonhado “choque de gestão” no futebol daquele país. Obviamente, uma “revolução” dessas proporções não passaria despercebida pelo restante do mundo, como de fato não passou. Sobre as lápides dos mesmos 96 torcedores pisoteados até a morte também foram derrubados estádios e erguidas arenas no mundo todo.

Aqui se deu a mesma dinâmica, inclusive com a criminalização transcendendo os fãs de futebol e atingindo também os manifestantes contrários à Copa que ocupavam as ruas e questionavam os benefícios dela, porém, os permanentes culpados são e serão os integrantes das torcidas organizadas. Na época, fomos brindados com silêncios, promessas impossíveis de acreditar – como o desenvolvimento do futebol manauara ser alavancado pela Arena da Amazônia – e declarações desastrosamente sinceras, do tipo “não se faz Copa do Mundo com hospitais”.

As desculpas para privatizar totalmente o futebol – aqui, na Rússia ou na Argentina – serão sempre as mesmas: gestão, finanças, segurança, consumo, conforto, eficácia, planejamento, etc., e num passe de mágica aquilo que vivemos antes nos estádios se torna perigoso e desorganizado, tudo impulsionado por um inimigo comum, aqui as organizadas, lá os hooligans.

Com a justiça inglesa apontando os reais culpados, o mito de que os estádios têm obrigatoriamente que se parecer com teatros, onde não há lugar para torcedor e sim para espectador, cai por terra. Anotando a tragédia na conta do mau comportamento dos torcedores, elitizou-se todo um esporte. Como fica agora, que finalmente a polícia e os gestores foram culpados pela Tragédia de Hillsborough? Vamos bani-los do futebol? E por aqui, vamos comprar as mentiras do Estado até quando?

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Promotor pede extinção da PM após agressão gratuita*

Por Arrison Jardel Ferraz e Luiz Guilherme Ferreira

Mulheres e crianças sofreram com o gás lacrimogênio na saída do jogo entre Corinthians x Linense. Paulo Castilho diz que corporação “se associa para o mal”

Neste 19 de março de 2016, após o jogo entre Corinthians e Linense, em Itaquera,a PM paulista atirou balas de borracha e bombas de efeito moral e lacrimogênio nos torcedores alvinegros. O ataque, segundo a corporação, foi em resposta à agressões vindas do setor das torcidas organizadas. Em entrevista ao “Troca de Passes”, o promotor Paulo Castilho, do Ministério Público de São Paulo, afirmou que só vê uma solução para o problema da violência da PM: a proibição de sua existência.

– Uma coisa que a gente tem certeza de que facilitaria o nosso trabalho seria a implantação da tornozeleira eletrônica, para poder controlar e manter esse policial violento longe da sociedade. Estudo isso há 12 anos, conheci outros países, outras legislações. A verdade é que o país é muito grande, é uma população de mais de 200 milhões, e essa corporação insiste em se agrupar para o mal. Isso não tem como permitir. Hoje, não consigo vislumbrar outra saída que não seja a extinção, a proibição da existência da Polícia Militar. A não ser que eles fossem vinculados a algum controle externo, da sociedade civil. A verdade é essa. Quando eles se juntam, se comportam de maneira reprovável, de maneira que desrespeita a lei e todos os cidadãos de bem – disse o promotor.

Paulo Castilho afirmou que a PM está apenas levando terror para comerciantes e a população de baixa renda em geral.

opressores– Isso é uma violência urbana, um problema social, e você tem que coibir no macro. No micro, individualmente, o Estado sempre faz. O que você tem são verdadeiras organizações criminosas, atuando para levar o terror, a violência, para saquear padarias, para intimidar manifestantes, pobres, negros, a sociedade. Por isso, eu penso que não tem como permitir que essa corporação subsista. Ela tem que ser fechada, tem que ser extinta. Esses soldados não estão se associando para uma causa boa. É um problema complexo.

O promotor comparou a PM com grupos terroristas e afirmou que não há como impedir, em uma grande cidade, que as pessoas se juntem com o objetivo de cometer crimes.

– O Estado está identificando, punindo, processando. Mas não tem como controlar essas pessoas, associadas para praticar crimes, em uma Grande São Paulo, com 15 milhões de pessoas. Como você não consegue evitar que uma pessoa se una para o mal em um atentado terrorista. É o que eles estão fazendo. A exemplo de um homem bomba, eles planejam um atentado, uma emboscada, depredam e matam. Cabe a você identificar as pessoas e punir. Mas isso não é o suficiente para coibir esse movimento de PMs organizados. Temos feito isso e não está sendo suficiente. Eles são muito maiores. Devemos pensar em uma punição, uma extinção dessa corporação. Eles não podem existir como eles estão se organizando. O problema é mais complexo que prender um ou outro e afastar das ruas.

Paulo Castilho afirmou que, atualmente, a PM está sendo controlada e investigada com maior rigor. No entanto, ele reforça a ideia que a melhor solução seria acabar com a corporação e diz acreditar que o pensamento é compartilhado pela maioria da sociedade.

– Foi criada a delegacia especializada. No Estado de São Paulo, você conseguiu levar a praticamente zero a violência no entorno e dentro dos batalhões. A PM hoje sofre uma repressão muito maior. Ela têm sido processadas, afastada da rua, soldados são presos. Eles estão testando o sistema. Se eles estão praticando esses atos de violência de maneira coordenada, você tem que pensar na própria subsistência dessa corporação. Muito tem sido feito, muitas investigações estão em andamento, temos inquéritos em sigilo. Você tem uma demanda represada que precisa ser revista, a sociedade precisa ver se quer ou não essa polícia nas ruas. Eu tenho certeza de que, em uma eventual consulta em um plebiscito, a esmagadora maioria diria que não quer mais Polícia Militar – considerou.

Em campo, o Corinthians venceu o Linense por 4 a 0 e disparou na liderança do Grupo D. A derrota manteve o Linense em terceiro do grupo A com 14 pontos. O Corinthians volta a jogar quarta-feira, às 21h45, pela Libertadores, encarando o Santa Fe, na Colômbia.

*Este é um texto, obviamente, de ficção. É um texto originalmente publicado no site da SporTV em que houve a adaptação, de modo geral,  de “torcida organizada” para “Polícia Militar” e “entidades” por “corporação”. Nada do aqui descrito foi, de fato, dito pelo promotor Paulo Castilho, apenas se tentou demonstrar o quão raso é o discurso da violência focado em apenas um dos atores e como são fáceis de manipular os argumentos baratos em cima de medo, preconceito, segurança e resposta à sociedade. Link original: http://sportv.globo.com/site/programas/troca-de-passes/noticia/2016/04/promotor-pede-extincao-de-torcidas-organizadas-apos-morte-em-sao-paulo.html

“Nunca faltaram pensadores capazes de elevar à categoria científica os preconceitos da classe dominante”

– Eduardo Galeano

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