Arquivo do mês: outubro 2016

Uma semana no ex futebol brasileiro

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Dia 19 de outubro de 2016 fui a Belo Horizonte ver as quartas de final da Copa do Brasil entre Cruzeiro e Corinthians. Já me acostumei, infelizmente, com o fato de ter que ir a essas Arenas higienizadas (esta especificamente chamam de Mineirão), tento me convencer racionalmente que gasto dinheiro à toa indo ver jogo. Não me divirto mais há algum tempo, mesmo com o meu time ganhando, mas o futebol não é racional e lá fui eu de novo.

Perdemos o jogo, encontrei amigos, fiquei em torno de 14 horas bêbado, a PM asquerosa de Minas fez de tudo para dificultar a vida da torcida visitante e forçar encontros de torcedores, me xingaram e ameaçaram me prender*. A torcida do Cruzeiro tentou invadir com uns 40 caras o albergue que eu estava e nós em 3. Firmeza, não me mataram como vocês podem ler. O que lavou a alma no fim das contas foi encontrar a diretoria do Corinthians no aeroporto e poder intimar o bunda mole do Roberto de Andrade a mostrar o dedo do meio para a torcida longe de um camarote.

Domingo, Corinthians x Flamengo numa Arena (esta chamam de Maracanã) pelo Brasileiro. Antes de começar o jogo os flamenguistas tentaram invadir a área dos corintianos que, claro, foram segurar a bronca. A PM carioca, rainha do arrego, começou a jogar spray de pimenta nos corintianos sob aplausos dos flamenguistas, teve porrada e um soldado lá tomou meia dúzia de tapa.

No fim do jogo deixaram as mulheres e as crianças saírem, esculachando as mulheres, claro. Retiveram os homens por mais de 3 horas, mandaram tirar a camisa e continuar sentados para serem identificados, lembrando muito o que fazem em presídios. Pegaram os que acharam que tinham que pegar, espancaram todo mundo e agora temos 31 torcedores presos por diversas acusações.

corintianos_agredidos

Corintianos foram espancados e torturados pela PM do Rio após a partida

Digno de nota: na quarta-feira seguinte, dia 26 de outubro, rolaram em Londres as oitavas-de-final da Copa da Liga Inglesa entre West Ham e Chelsea na Arena deles lá, sendo que os Hammers meteram 2×1 e passaram. No fim do jogo teve confronto entre as torcidas dentro do estádio, ninguém foi preso e os times anunciaram que iriam analisar as imagens e banir os envolvidos. Sem entrar no mérito da questão, mas até no punitivismo barato e higienismo os ingleses são mais elegantes. Talvez seja a experiência pela escrotidão pioneira.

Em São Paulo, a PM paulista, campeã em assassinatos, sitiou o entorno da Arena que era Palestra Itália para que as pessoas sem ingresso não ficassem na rua. Só passava quem tinha ingresso. Claro que aconteceram inúmeros abusos, afinal a PM tava lá, só que nenhum veio muito a público.

entorno

Rua Palestra Itália fechada pela PM

Na mesma quarta-feira teve o primeiro jogo das semifinais da Copa do Brasil entre Cruzeiro e Grêmio na tal Arena lá, o Mineirão. Depois do jogo, o torcedor cruzeirense Eros Dátilo Belizardo foi levado ao hospital, aonde foi constatada sua morte. A versão oficial é que ele passou mal, mas amigos e parentes dizem que ele foi espancado por seguranças da tal Arena.

A Secretaria Municipal de Saúde de BH emitiu uma nota afirmando que o torcedor chegou morto ao hospital. Você viu esta notícia em algum lugar com a mesma pirotecnia dos presos corintianos? Viu o Flávio Prado clamando pela caçada aos seguranças, os chamando de gangue assassina? Talvez não.

Assim se encerrou mais uma semana de caminhada rumo ao fim. Querem nos obrigar a acreditar que este rastro de barbárie e injustiças cometidas contra os torcedores vai nos levar à civilização do futebol. Obrigado pela atenção.

*O mesmo aconteceu com o Raphael Sanz, deste blog, em 2015, quando foi ver Palmeiras e Cruzeiro, no mesmo estádio, pela mesma Copa. A PM mineira armou um esquema que obrigava a torcida visitante a passar por mais 500m no meio da torcida local após a partida. Houve um ataque de cruzeirenses aos palmeirenses, inclusive ao albergue onde pararam as vans e deixaram as mochilas, mas no final tudo acabou bem para os paulistas.

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Utopia versus distopia

Por Raphael Sanz

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Finalmente chegou o grande dia em que vamos ser novamente campeões brasileiros. A última vez foi contra nosso maior rival e tínhamos na linha de ataque Edmundo, Evair e Rivaldo, três gênios já aposentados. Eu era uma criança feliz naquela época. Hoje temos uns tantos outros gênios tentando provar seu valor como os de ontem provaram. E estão conseguindo.

Chego à rua Turiaçu, esquina com a Caraibas, atrasado, e sou recebido pelos meus amigos. Parceiros de sofrimento em tempos de vacas magras que agora prometem uma festa e tanto. Bianchi teve um coma alcóolico no jogo de volta da semi-final, em casa, contra o Flamengo, que vencemos por 4×2 de virada após estarmos por duas vezes atrás do placar. Foi uma catarse coletiva, como todo bom jogo do Palmeiras é. Tudo bem que o empate era nosso, mas a vitória estonteante melhorou nossa semana. E muito. O grande Leandro Iamin está lá degustando um espetinho e me cumprimenta com um abraço fervoroso. Daqueles que o mundo poderia acabar ali mesmo, afinal seremos campeões. Ademir mal consegue conversar de tanta emoção. Gabriel Santoro já está em algum canto gravando seu vídeo e os irmãos Sciarra distribuem seu zine palmeirista por aí. O Tito, como sempre, se posta atrás do bar do Dissidenti que agora tem uma mesa de sinuca nos fundos, tornando-o o melhor bar do mundo. Leo AD e Del Vecchio discutem a escalação da grande final que se jogará dentre instantes nesse domingo de sol. Pedro e Drips chegam com um isopor cheio de cerveja e estão há dias sem dormir esperando o apito inicial. A derrota por 1 a 0 no Mineirão no jogo de ida não nos abalou nem um pouco.

O estádio é nosso, a rua é nossa, o bairro e a cidade são nossos. É verde por toda parte. Até a prefeitura zerou a tarifa do busão neste dia pra facilitar nossa ida a este momento grandioso. Não tem como a taça também não ser nossa. E não foi por acaso que perdi um dia de trabalho na terça-feira enquanto estava na fila da bilheteria para pagar 20 reais no meu ingresso. 20 mangos e 1 dia ganhos na minha vida. Depois compenso no banco de horas ou arrumo um atestado. Vai valer a pena.

Entrando pelo fosso da Turiaçu, ergue-se um jardim suspenso à nossa frente. Uma verdadeira maravilha da humanidade. A coisa mais linda em termos arquitetônicos que o futebol pôde proporcionar à humanidade. Após reforma que durou 3 anos, o gol das piscinas ganhou um grande paredão de arquibancada que aumentou nossa capacidade em 20 mil lugares sem que para isso precise ter medo da imensidão azul chamada céu, como as tais arenas que existem na longínqua Europa. O pessoal do prédio ali de trás hasteia sua bandeira alviverde enquanto os bandeirões, fogos, papeis picados e corações saltam de nossa arquibancada de cimento, recebendo e empurrando o time que vai mostrar que de fato é o campeão.

O gol do Atlético Mineiro aos 8 minutos não nos desanima e antes de acabar o primeiro tempo já viramos o jogo. A alegria se mistura aos bandeirões e rojões enquanto uma multidão do lado de fora comemora. Na segunda etapa, o terceiro gol era questão de tempo para matar o jogo. Nosso volante rouba a bola, abre para o lateral esquerdo que ensaia uma corrida pra linha de fundo mas recua para o meia armador que, num passe de mágica, ou melhor, num passe mágico, deixa nosso centro avante cara-a-cara com o goleiro do Galo e…

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Acordo meio desnorteado na cama. É dia de Palmeiras e Sport pela 32a rodada do Brasileirão de pontos corridos. O Palmeiras tem grandes chances de ser campeão, mas sem uma semi-final épica, nem tampouco uma final eletrizante. Precisa ganhar mais 4 jogos, dos 7 que faltam. E pronto.

Pego o ônibus para a rua Palestra Itália. Chegando lá não encontro meus amigos, mas a polícia militar que bloqueou todas as entradas de todas as ruas ao redor do estádio: Palestra Itália, Caraibas, Diana e Kayowaa. Só entra quem tem ingresso. Eu tenho, mas estou sem o comprovante de compra. O policial “embaça na minha” e quando consigo convencê-lo que meu cartão de sócio torcedor é verdadeiro entro e me deparo com dois tanques de guerra da tropa de choque e um torcedor palmeirense, negro, sendo duramente “enquadrado” por policiais. Fizeram o rapaz tirar a camisa e disseram palavras de baixo calão para o mesmo ali mesmo, na frente do estádio inteiro.

Sem churrasco e sem cerveja, dou a volta no quarteirão para adentrar um estádio que tem medo do céu e da luz do sol. Que tem ojeriza a bandeiras, fogos, papel picado e vizinhos. Que tem nojo de gente e de festa. Os telões dividem a atenção com o campo de jogo. A grama está ruim, afinal, a luz do sol não atravessa a cobertura que colocaram ali e para piorar qualquer show destrói o gramado. A solução mágica dos tecnocratas é limar essa arcaica grama natural e por uma sintética no lugar. As arenas nos afastam da imensidão do que restou de natureza em São Paulo. Policiais e seguranças do clube filmam a torcida em busca do menor delito. Afinal, são trabalhadores e precisam bater metas.

Meus amigos estão divididos. Felizes pela vitória e pela iminência de comemorar um título nacional. E tristes, mesmo com o time brigando de fato pelo título, por tudo o que perdemos enquanto povo futeboleiro em meio a uma modernidade artificial e sem coração. Especialmente tristes por não poderem ver o jogo juntos. Alguns, com condições de bancar os ingressos de 100 reais em média foram autorizados pela PM a frequentar a rua que há 96 anos é do Palmeiras. Outros não.

Trocamos palavras, gestos e votos de vitória à distância. Como à distância se posta cada vez mais o futebol daqueles que o fizeram grande.

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Foto de Fernando Sciarra

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