Força Chape!

Por Raphael Sanz

Publicado também no Correio da Cidadania.

Nunca dei muita bola pra Chapecoense. Era apenas um “timinho” que estava dando um trabalho na primeira divisão, mas logo a deixaria. Ledo engano. Gosto das cores, mas quando golearam o meu Palmeiras por 5 a 1 na Arena Condá, no ano passado, aí sim peguei birra. Mas, sinceramente, nunca dei muita importância. Apenas recentemente comecei a prestar mais atenção a este clube por conta das campanhas nas Copas Sul-Americanas e me impressionou sua história recente.

O clube, fundado em 1973, faz aniversário em 10 de maio, um dia depois deste que escreve. Na época de sua fundação como clube amador, onde permaneceu por pouco tempo, a cidade de Chapecó vivia uma espécie de crise no futebol. Clubes mais antigos como o Atlético Clube Chapecó, Independente Futebol Clube, Grêmio Esportivo Comercial e Guayracá Futebol Clube já estavam em amplo processo de decadência, e os grandes times de São Paulo, Rio e Paraná fatiavam, ou tentavam fatiar, os corações de Chapecó. A 10 de maio de 1973, torcedores do Atlético e do Independente (Heitor Pasqualotto, Valdir Pelisser, Lorário Immich, Vicente Delai e Altair Zanella) resolveram fundir ambos os clubes e assim criaram a Associação Chapecoense de Futebol. Immich foi o primeiro presidente.

E no amadorismo dos primeiros anos o clube construiu e solidificou sua identidade com a cidade do oeste catarinense. Seu primeiro time era composto na totalidade por atletas amadores citadinos. Profissionalizado, o primeiro título estadual veio já em 1977. Após 26 vitórias, 12 empates e 8 derrotas, o clube venceu o Avaí por 1 a 0 no jogo derradeiro do campeonato estadual e vestiu sua primeira faixa de campeão. Entre 1978 e 79, teve uma breve passagem pela elite do futebol brasileiro, mas sem a contundência dos dias atuais.

Em uma busca incessante pelo bicampeonato estadual, acabou perdendo o título para o Joinville em 78 em um dos campeonatos mais polêmicos já disputados no estado, com direito a desistência do Avaí. Em 1991, o bicampeonato novamente escapou, dessa vez pelas mãos do Criciúma de Luiz Felipe Scolari. Mas em 1996 o bi chegaria. Contra o Joinville. E com chuva de rojões de frente para o hotel onde dormia e se concentrava o rival do leste. Mais três títulos estaduais viriam: 2007, 2011 e neste trágico ano, de 2016, que já foi de alegrias para a Chapecoense, mas infelizmente terminou da forma que ainda digerimos.

Uma forte crise abateu a Chapecoense a partir de 2001, quando terminou na lanterna do estadual e precisou disputar uma seletiva para se manter no campeonato do ano seguinte. Em 2003, precisou mudar de personalidade jurídica para não decretar falência e passou a chamar-se Associação Chapecoense Kindermann/Mastervet, parceria que durou até o ano seguinte e serviu como suporte para montar a base que empregaria a retomada do clube como potência estadual. Já em 2005, uma nova diretoria assumiu o clube e empregou uma política de recuperação financeira que já no ano seguinte mostrou resultados, com a conquista da Copa Santa Catarina no segundo semestre.

Campeão Catarinense em 2007, a Chape não repetiu a dose em 2008, ficando em oitavo lugar no estadual e perdendo o direito de disputar a Série D do Brasileirão. Mas em 2009, com o vice-campeonato estadual, a Chape voltou ao Brasileirão, para de lá não mais sair. Ainda em 2009 chegou às finais da Série D, não foi campeã, mas subiu para a Série C, onde permaneceu até ser vice da mesma, em 2012. Em seu primeiro ano de Série B, surpreendeu a todos, e como o bicho papão que é, papou o vice-campeonato, elevando-se à Série A do Brasileirão de 2014. E a partir daí, todos sabemos o que veio pela frente. Boas campanhas na Série A, eliminação na Copa Sul-Americana para o River Plate em 2015 e, em 2016, finamente um clube catarinense chega a uma final internacional. A defesa de Danilo no último lance do empate contra o San Lorenzo é para a posteridade. Eis que, então, acontece o que aconteceu.

Não posso falar pelos torcedores da Chape, mas entendo o que pode representar pra eles. A imagem divulgada pela Folha da torcida rezando o Pai Nosso ao redor do estádio é muito comovente. Que maluquice é a vida. Comemoraram até a madrugada aquele empate, mas hoje, acredito que muitos prefeririam que o Danilo não tivesse salvo essa épica bola no último minuto do jogo. Bruno Rangel, entre os mortos, é o maior artilheiro da história do clube. Ananias, autor do primeiro gol do novo estádio do Palmeiras, também se foi. Assim como o técnico Caio Jr, Cleber Santana e muitos outros. Perdas e mais perdas. Vidas interrompidas. Tristeza infinita.

Sem muito mais o que dizer, apenas lamentar, a Destilaria da Bola buscou contar, de forma bem resumida, um pouco da história deste pequeno grande clube. Pequeno por ser de uma cidade pequena, com pouca grana e jogadores modestos. Grande por toda a história que construiu, apesar das adversidades.

Lamentável, digna de nota odiosa, a atitude de um certo veículo de comunicação que não merece ser citado nominalmente aqui e que em sua incessante caça por cliques, divulgou “selfies e vídeos” dos momentos finais da morte dos jogadores.

Grandiosa e digna de respeito a atitude do Atlético Nacional de Medellín, de abrir mão da disputa e declarar a Chape campeã. Não vai resolver os problemas gerados pelo acidente, mas pelo menos presta uma justa homenagem.

Gostaria de prestar também solidariedade, em nome de todo o time da Destilaria da Bola e nossos colaboradores, às famílias dos jogadores, comissão técnica, colegas jornalistas e tripulação. E também a maravilhosa torcida da Chape que não merecia isto. Aliás, ninguém merece! Espero de coração que esta tragédia seja superada por toda a coletividade de Chapecó, no tempo que for necessário para que isso ocorra, para que enfim o futebol brasileiro possa novamente sorrir em breve.

Em tempo: como palmeirista, é muito triste ter recebido a Chape em nossa casa, no dia de nossa grande festa, e ter visto um rival de respeito sofrer uma pancada dessas pouco mais de 24 horas depois. Novamente, desejo paz para todos.

Abraços de solidariedade.

 

Força, Chape!!!

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2 Comentários

Arquivado em Da casa

2 Respostas para “Força Chape!

  1. Pingback: Força Chape! | Raphael Sanz

  2. Rozane Lapolli

    Matéria digna !!!!!! Verdadeira e sensível Homenagem!!!!!
    Jornalismo cristalino!!!!!!
    Parabéns Raphael Sanz por sua maravilhosa matéria.

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