Que façamos o sistema tremer!

 

Por Raphael Sanz

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O Império Romano era imbatível. Havia ganho inúmeras batalhas, nas mais diversas frentes e contra os mais diversos povos no esforço de determinar suas fronteiras. Aos dominados, a Lei Romana, tão estudada hoje pelos futuros juristas. Mas não só a Lei, como também o modo de vida e a cultura imperial eram impostos pela força das armas e da grana. Algumas tentativas de insurreição foram severamente esmagadas e todo aquele que se rebelava era desacreditado, taxado de “bárbaro”, “selvagem”, “animal” e, por fim, escravizado. Um belo dia o Império Romano começou a ruir. Godos e Germanos atacavam pelo norte, Hunos pelo leste e os Vândalos (eles mesmos) pelo sul. Não sou historiador e não sei em que nível esses ataques bárbaros foram coordenados, fato é que os povos e tribos de certa forma se uniram (conscientemente ou espontaneamente, me corrijam!) e derrubaram o invencível, porém decadente, império.

As tribos bárbaras não queriam necessariamente um evento de violência, a princípio. Queriam apenas a liberdade para viverem em seus territórios, com sua gente e suas culturas, sem precisarem se prestar submissas a Lei Romana. Mas como quem tá por cima não aceita a liberdade de quem está por baixo, não houve outra saída. E após longas e duras batalhas, o racionalismo imperial caiu de joelhos diante daqueles selvagens bruxos que eram tidos como o mal do mundo, apenas por quererem a liberdade.

O mundo de hoje, e o Brasil não poderia ser diferente, vive uma situação semelhante. Aquilo que convencionou-se chamar de “capitalismo” ou “sistema” nada de braçada em águas de mares nostruns contemporâneos. Impõe regras de conduta, de comportamento; empecilhos para os de debaixo se afirmarem e reprime com toda a violência possível e imaginária aqueles que manifestam dissenso. Fora do futebol temos inúmeros exemplos. Manifestações de junho de 2013 por exemplo: propondo um rompimento com o status quo acabaram reprimidas violentamente, com direito a olhos arrancados e tiros de balas letais em genitálias, para depois serem complemente desacreditadas e cooptadas pela cultura dominante. Hoje vemos direitos sociais e trabalhistas atacados em nome de um progresso econômico que não tem absolutamente nada a ver com bem estar social. Necessidades básicas como alimentação, habitação, água potável, transporte, saúde, educação, saneamento básico e lazer vão se transformando em privilégios que apenas patrícios imperiais têm o direito de gozar. E no futebol isto não é diferente.

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Especialmente em São Paulo, a capital financeira e econômica da província brasileira do grande império global, algumas brigas bem violentas entre as distintas tribos que vivem nessas terras, comumente chamadas de vândalas (mas que coincidência, não?) justificaram a ofensiva imperial contra as mesmas. Desde idos de 1995 diversas práticas destas tribos vem sendo sistematicamente criminalizadas em uma escalada que faria qualquer Júlio César de vidas passadas parecer um amador.

Primeiro as bandeiras, depois os fogos, depois as vestimentas típicas e tradicionais, em seguida a batucada. Chegou-se ao ponto de vermos legionários armando cercos e bloqueando ruas no entorno dos sagrados templos destas tribos, impedindo sua aproximação. Afinal, todas essas práticas bárbaras “não cabem mais no futebol”, diria um medíocre publicitário imperial. E de fato proibiram tudo, menos a violência. Afinal de contas, violência não se proíbe com leis ou ainda mais violência daqueles que detêm seu monopólio. A única forma de coibir a violência é construir a paz; um processo longo e lento; doloroso e permanente que traz frutos silenciosos, aos poucos, mas que um dia poderá ser notado e comemorado.

Vimos falsos arautos e fajutos paladinos da paz e da justiça, todos de péssimo gosto, se promoverem com esta violência. E como um pescador, que vive da pesca, não quer o fim da vida aquática; estes vermes e abutres que se promoveram, ganharam poder, notoriedade, prêmios e grana com a violência também não têm a menor intenção de construir a paz. Porque a história já mostrou que é mais vantajoso vermos as tribos se matando entre si, do que conversando em paz. Afinal, a união entre os povos; consciente ou não, articulada ou não; foi o que levou abaixo o poder e a opressão romana no passado.

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Ainda não chegamos ao estágio das novas invasões bárbaras; mas estamos sim naquele momento em que os tais vândalos, hunos e godos do presente querem paz e liberdade. E o que está unindo nossas tribos futebolísticas infelizmente foi a tragédia aérea que ocorreu na madrugada da última terça-feira com o plantel da Chapecoense, e que também vitimou jornalistas e tripulação.

Eis que hoje, horas antes da publicação deste texto escrito no calor deste momento que tem tudo para ser histórico, as principais torcidas organizadas dos quatro grandes clubes de São Paulo (com reforço de torcedores do Santo André) se uniram na porta do Pacaembu, templo venerado pelas quatro grandes religiões do nosso futebol para prestar uma homenagem à Chapecoense, aos seus mortos e a sua torcida. Mas além das homenagens, vieram pedir paz e união como forma de se fortalecer na luta pela sonhada liberdade.

“Vivemos em um país que ano passado teve 60 mil assassinatos. Então, a sociedade é violenta, não é só a torcida organizada, somos apenas um reflexo daquilo que acontece na sociedade. Outra coisa: queremos trazer de volta a alegria ao futebol. O futebol tá sem graça, é proibido bandeira, proibido tambor, papel picado e também o próprio torcedor organizado de ir ao estádio. Isso nos une, e aproveitamos esse episódio da Chapecoense para fazer esta união. Como você pode ver, não tem nenhum policial aqui. Nem um. E estamos aqui em paz, frente a frente. Então é isso, a repressão só faz aumentar a violência. Precisamos é de festa e de alegria. A rivalidade tem de continuar existindo senão não existe futebol, agora, o cara pode ser meu adversário sem ser meu inimigo mortal, eu não quero matar ele por causa disso. E a maioria pensa assim. Agora, se fechar qualquer quarteirão paulistano haverá lá uma pessoa violenta, de Torcida Organizada ou não, porque a sociedade é violenta como um todo. E nós estamos cansados dessa criminalização que fazem com as T.O.s. E por que fazem isso? Porque ela luta, reivindica, briga com o dirigente ladrão, com a globo, com a CBF, com o ladrão da merenda. É essa a repressão que vem pra cima da gente e estamos querendo mostrar que é possível uma união, mantendo a rivalidade, contra o futebol moderno e a favor do povão outra vez tomando conta dos estádios”, afirmou Chico um representante da Gaviões da Fiel na praça Charles Miller, com toda a sabedoria que emana da barba branca e dos cabelos brancos que ostenta.

“Já temos conversado entre as diretorias faz um tempo, e chegamos a conclusão que o futebol é festa, é paixão, e estão nos tirando esse direito, muitas vezes por causa de uns problemas internos. Então nos solidarizamos com esse caso da Chapecoense e não tem como fugirmos desse eixo humanitário. E se pra vocês essa união é uma surpresa, para nós não é, porque tem sido semeada à base de muito trabalho e vamos continuar com isso para os próximos anos”, afirmou um representante da Mancha Verde que emendou: “muitas vezes a violência acontece porque a rapaziada não tem mais direito a lazer, nem a cultura e nem ao estádio, com tudo banido, inclusive a festa na arquibancada, então acabam praticando a violência como um subterfúgio, mas estamos tentando reverter isso e trabalhar para esse bem maior que é a paz”. Ele terminou dizendo que deixou o orgulho de clube em segundo plano em prol de algo maior.

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Dois torcedores de velha guarda que se conheceram em uma briga e hoje são amigos, o Chico da Gaviões e um outro senhor da Jovem do Santos conversavam relembrando de lutas passadas, não entre torcidas, mas contra a ditadura militar. E o santista sintetizou: “O torcedor unido é forte e eles tem medo dessa união. E eu tenho certeza que essa união veio pra ser selada. Parabéns a todos os dirigentes e a todo mundo que tá aqui hoje”, definiu com o ar de serenidade que só a idade, a experiência e a esperança podem trazer consigo.

Se essa união permanecerá ainda não sabemos. Há muitos céticos, como eu, que preferem esperar para ver. Mas é inegável que o que aconteceu hoje no Pacaembu já está marcado nos corações de muita gente de arquibancada: de organizada ou não. Resta ver até onde isto irá. Espero, do fundo do meu coração alviverde, que vá longe. E que como Spártacus – líder de uma rebelião de escravos no velho Império Romano – falou um dia, “façamos o império tremer!”

É para isto que torcemos. Para termos liberdade. E aos que nos negam a liberdade e se aproveitam das nossas tragédias, espero que só lhes restem a lata de lixo da história! Mas isso dependerá apenas de nós, não deles.

 

Observação: Pra quem quiser ver imagens desta tarde, recomendo muito a cobertura ao vivo do Esporte Interativo, um canal que recém fechou os direitos de transmissão com Santos e Palmeiras e que tem um grande amigo no time de repórteres. Neste link você pode acompanhar todas as aspas que estão nesse texto e muitas outras falas que vão no mesmo sentido.

 

Viva a Mancha Verde!

Viva a Gaviões da Fiel!

Viva a Jovem do Santos!

Viva a Independente!

Viva a torcida do Santo André!

Viva as Torcidas Organizadas!

E viva o futebol brasileiro!

Para Sempre Chapecoense!!!

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