Arquivo do mês: fevereiro 2017

Atletiba: um perfeito domingo de futebol brasileiro

Escrito por Gabriel Brito, do Correio da Cidadania, em 20 de fevereiro de 2017

O futebol brasileiro pós-Ricardo Teixeira continua revisitando velhos papelões: virada de mesa e o eterno fantasma do tapetão; brigas de torcida altamente previsíveis e negligenciadas, quando não potencializadas, pelos órgãos e autoridades competentes; um calendário que volta a obrigar alguns clubes a jogar três vezes na semana, até em dias consecutivos; e, agora, um jogo adiado com casa cheia sob bizarras alegações.

O que aconteceu neste domingo em Curitiba, quando Atlético x Coritiba pretendiam transmitir o clássico entre si por meio da internet, de forma autônoma, na verdade é uma espécie de ilustração definitiva daquilo que muitos de nós falamos há anos: muito antes do torcedor, o interesse de uma empresa monopólica é o que move o ânimo daqueles que “cuidam” do nosso futebol.

Não precisamos perder tempo nessas linhas rememorando toda a construção do império global sobre o futebol brasileiro, em todas as instâncias, em especial agora, após a saída de cena da Rede Bandeirantes.

Vale discutir que, mesmo timidamente, vemos alguns espasmos de combate ao mandonismo de federações/CBF/Globo. Além de algumas negociações com o emergente Esporte Interativo por parte daqueles que se sentem menos prestigiados pela emissora carioca, observamos que há algumas tentativas de autonomizar os clubes, que afinal são os únicos elos indispensáveis para os jogos, na defesa de seus interesses econômicos.

Se uma grande liga de clubes ainda não saiu do papel, dada a dificuldade de unificar uma linha de pensamento e deixar de lado a luta por privilégios exclusivos, iniciativas como Nordestão, Primeira Liga e esta da dupla paranaense indicam que algo pode mudar em breve.

Ainda falta muito, pois como disse o ex-craque Alex, ao mesmo tempo em que tentam reverter um desequilíbrio econômico frente aos clubes de elite do país, alguns desfrutam do mesmo tipo de disparidade em nível estadual.

Uma coletividade de clubes que permite a permanência da parasitagem de Marco Polo del Nero à frente da CBF (figura impossibilitada de sair do país desde que o escândalo de propinas derrubou a cúpula da FIFA) ainda está no patamar da indigência política, moral e, muito provavelmente, intelectual.

De toda forma, é preciso aplaudir a iniciativa dos clubes em transmitir o jogo por conta própria. Tal como foram o rádio e a própria TV um dia, a internet também viverá seu boom de popularidade e colherá os frutos econômicos de forma proporcional. Se ainda engatinha uma transmissão online, em breve certamente fará parte de nossa rotina.

Portanto, é evidente que um novo nicho de mercado se abre. E com uma preciosa diferença: ao contrário da TV, a transmissão online não demandará o mesmo nível de aparelhagem técnica e física para levar as imagens ao telespectador. Na outra ponta, pode perfeitamente angariar patrocinadores que paguem bem para aparecer na telinha de seu computador, tal como o fazem para aparecer na tela da não assumida “TV Brasil”.

Ainda nesse sentido de autonomização dos clubes, é necessário registrar o papel de capanga da Rede Globo por parte da Federação Paranaense, cujo perfil político é historicamente da pior espécie.

O cancelamento da partida, em cima da hora, é fato gravíssimo, verdadeiro atentado ao futebol e ao torcedor. As alegações de falta de credenciamento não merecem a menor consideração. Primeiro porque ofendem demais nossa inteligência, segundo porque não é problema em ocasiões menos interessantes, como já mostrou essa matéria da ESPN. Por fim, o próprio quarto árbitro da partida deixara escapar o motivo ainda no gramado.

Estamos diante de um tempo em que as autoridades desse país, e o futebol é apenas reflexo menor, estão deliberadamente tentando tapear o cidadão. A maneira como tratam debates estruturais têm beirado a molecagem. Do mesmo modo que um governo tenta fazer o trabalhador crer que abrir mão do seu próprio FGTS ou de uma aposentadoria digna é saudável para a economia do país, a cartolagem que já assinou inúmeros contratos com a Globo acha mesmo que pode nos empulhar com um papo de “credenciamento” para cancelar uma partida entre dois times grandes.

É deveras grotesco. Não bastasse o campeonato cancelar um dos raros jogos que atraem uma boa presença da torcida, alega-se uma burocracia para barrar exatamente aqueles que fariam a transmissão autônoma, que de fato nunca devem ter se credenciado na federação. Mas e daí, se estão autorizados pelos próprios donos do espetáculo? Alguém acredita em todo esse rigor regimental das federações de futebol no Brasil?

De fato, duvido que algum capa preta da emissora tenha se dado o trabalho de pegar o telefone e passar a cruel ordem de não deixar a bola rolar, com todo o ônus subsequente em sua imagem pública.

Em relações de submissão hierárquica, econômica, social, é mais que comum o subordinado ser mais realista que o rei. A vontade de agradar é tão grande que não raro se toma uma atitude cujo rigor dificilmente seria imitado pelo próprio detentor do poder. Este sabe que oferecer uma sensação razoável de liberdade e oposição política é útil à manutenção das peças no exato lugar onde já estão. E não é uma partida de estadual transmitida pelo youtube que mudará tão cedo o status quo.

A Globo sabe que fez uma proposta baixa aos dois maiores de Curitiba e entende como parte do jogo a resposta que se engendrou para o frustrado clássico. Já o capanga, “bate primeiro, pergunta depois”, como bem sabe a inteligência coletiva.

Que fique a lição: os clubes brasileiros, de todos os níveis e divisões, precisam se livrar de uma vez por todas do poder cartorial de suas federações, que agem muito mais como empresas de interesse privado do que como protetoras de seus filiados e fomentadoras do futebol local. O que aconteceu neste domingo foi simbólico dos 30 anos de submissão do futebol nacional a uma emissora que já ganhou rios de dinheiro com nossa paixão, sempre sob a supervisão de uma cartolagem cujos conceitos e concepções são muito mais afeitos a uma ditadura do que a uma democracia.

Morte de torcedor adolescente e a narrativa que não fecha

Apesar de tudo o que foi dito acima, o jogo de fato não deveria ocorrer. Mais cedo, tivemos o lamentável episódio da morte de um torcedor de 15 anos do Coxa Branca, após levar um tiro de um sargento que participava da escolta da torcida.

Uma tragédia que não cabe na narrativa cada vez mais repisada pela mídia, isto é, aquela que atribui todos os males da violência às torcidas organizadas. Após a “arenização” do futebol brasileiro e o triunfo da cultura da segregação nos estádios, subdividindo as próprias torcidas, parece que há uma cruzada final pela “limpeza” desse verdadeiro espantalho dos estádios, em prol, é claro, do cidadão de bem – leia-se aquele que pode pagar mais, alvo preferencial dos clubes e suas “novas e modernas técnicas de gestão”.

Toda semana, procura-se destacar um fato violento nos estádios que possa ser imputado às torcidas, aos “bandidos”. Esquece-se o contexto de violência endêmica do país, o que serviria para demonstrar que os descalabros em estádios e entorno de jogos são fração mínima deste mal, e repetem-se as discussões de bons contra maus, a exemplo dos mais sensacionalistas programas policialescos da TV brasileira – com toda a carga de ignorância conjuntural agregada.

Se falta unidade dos clubes para defender seus interesses, o mesmo vale para as torcidas. Tal como já visto em outros lugares do mundo, o episódio deveria ensejar o pedido popular de adiamento do jogo. Não pelo interesse comercial, e sim por respeito à vida, algo longe de fazer parte da realidade brasileira.

Resta saber qual será a abordagem da mídia que adora criminalizar o torcedor organizado, sem disfarçar toda sua incapacidade de estabelecer um debate maduro sobre segurança pública. Essa morte, assim como a do cruzeirense que perdeu a vida após mal esclarecida confusão com a segurança do privatizado Mineirão ou a chacina da Pavilhão 9, não se encaixa na narrativa predeterminada de torcedores maus que aterrorizam o “torcedor de bem”, “afastam a família”.

Vamos ver se tentarão amaciar o episódio e promover alguma insinuação negativa a respeito da conduta do garoto ou se mais esse crime do Estado brasileiro provocará uma reflexão um pouco mais ampla de nossa violência cotidiana e estrutural.

Como se vê, toda a nossa desgraça coube numa única tarde de domingo.

Leia também:

Futebol estatizado? – a histórica querela entre o governo Kirchner e o monopólio local sobre o futebol

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.   

 

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A história do mais importante jogo que não houve

Texto de Marcelo Mendez publicado no jornal ABCD Maior

Transmissão do futebol pela TV explica o que houve no Paraná durante o Atletiba que não houve. Voltemos no tempo para entender…

 

O ano era 1986. O futebol Brasileiro, recém eliminado na Copa do Mundo realizada no México, chegava ao fundo do poço. O Campeonato Nacional chegava ao numero de 80 participantes, as séries não eram organizadas, a bagunça era generalizada, os jogos corriam a esmo sem maiores informações e após dezenas de séries e eliminatórias, o torneio chegou a sua fase decisiva e a final. Disputada em 25 de Fevereiro de 1987!

Era mais do que óbvio que algo precisava ser feito e para o ano de 1987 os clubes se juntaram, e saíram com uma nova entidade de nome “Clube dos 13” com as 13 agremiações principais do futebol nosso. O grupo surgiu então com uma proposta de tentar organizar o Campeonato e criaram a Copa União, que em seu módulo principal, seria disputada por incríveis 16 clubes.

Mas para dar certo era necessário alguém para pagar conta, chegou primeiro a Coca Cola que bancaria as camisas dos clubes e ainda faltava alguém para divulgar a coisa. E então, como diria os Racionais, “era a brecha que o sistema queria…” – A Rede Globo de Televisão é chamada para tal…

Com suas várias câmeras, gruas, replays e afins, a emissora passa a deter e determinar o que a gente podia e o que não podíamos ver em se tratando de jogos. Aos domingos, quatro jogos eram selecionados para que nós, a plebe, ligassemos la para uns telefones e escolhesse um deles para assistir.

Lógico que não eram os jogos principais. A globo fazia o que queria, os clubes eram omissos, precisavam da grana da TV e a nós, bom, “Assiste aí e não reclama”. Era então o começo do que pioraria bem mais com o tempo…

A Consolidação do Monopólio

Com as crises dos anos 90, com as péssimas gestões dos clubes, quase sempre endividados, pessimamente geridos, toscamente administrados, os tais clubes viram-se reféns de cotas de televisão, passando a ser esse, um dinheiro quase que fundamental para as contas principais. Verbas anos antecipadas, grana financiada, alma vendida, tal e qual num blues; Os clubes passaram a comer nas mãos da Rede Globo, que se consolidou graças as omissões dos “parceiros” endividados, do resto da imprensa que pouco fala sobre o assunto e do poder público que faz vistas grossas para essas relações além é claro, de um processo nefasto de elitização nos estádios que cada vez mais afasta o torcedor comum dando a ele como “opção” sentar em frente a televisão e ver a Globo.

O Levante

O que aconteceu no Paraná é uma prova cabal de que monopólios fazem o que querem e dane-se todo o resto. A coisa começou porque a Globo, dona dos direitos de tudo em se tratando de futebol, sem maiores explicações, ofereceu em 2017 pela transmissão dos jogos dos clubes em questão, a quantia de 1 milhão de reais, em detrimento dos 2,2 milhões pagos em 2016.

Uma quantia irrisória se pensarmos no quanto que a empresa fatura apenas em propaganda dos mesmos jogos. A federação Paranaense, arregada com o monopólio, usou de um recurso estapafúrdio de “credenciamentos” para proibir a transmissão via internet que os clubes fariam e estes, se recusaram a jogar em um ato inédito nesses anos todos de império. Oras meus caros…

O mundo real e o mundo segundo os monopólios

Transmissões de futebol por internet pelo mundo, não são novidades. Na Espanha, por exemplo, sem brigas entre federações e clubes, os jogos da Copa do Rei podem ser acompanhados de graça via facebook. A mesma plataforma transmite ao vivo em São Paulo, os jogos do Campeonato Paulista Feminino de futebol. Na Inglaterra, a BT Sports transmitiu em seu canal do youtube as finais da Liga Europa e da Liga dos Campeões em 2016. E porque a estranheza por aqui? Simples…

Não me causa espanto ver que em um Brasil doente, truculento, raivoso, não seja possível se entender que a internet é (ou deveria ser) um importante fator para democratização de conhecimentos e informações. Não da mais para impor tudo e mais hora, menos hora, as coisas vão mudar. O Paraná mostrou ontem um bom caminho para tal…

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Pebolim foi inventado por poeta anarquista para crianças refugiadas da Guerra Civil Espanhola

Texto de Fabián Mauri, para a Revista Un Caño

Traduzido e adaptado por Raphael Sanz, para a Destilaria da Bola

Créditos: Revista Un Caño

Créditos: Revista Un Caño

 

Madrid, 1936.

Alejandro Campos Ramirez (1919-2007), um jovem galego oriundo de um vilarejo chamado Finisterre – do latin, “o fim da terra” – deambula pelas ruas da cidade e pressente que seus desejos talvez estejam a ponto de serem cumpridos. Alguma vez sonhou em ser um grande arquiteto, mas apenas trabalhou de pedreiro. E acontece que sua verdadeira vocação foi a poesia. Conseguiu um emprego que o fazia feliz e de alguma maneira o aproximava desse universo boêmio dos artistas que admirava: aprendiz na imprensa. Se considerava um idealista prático, um anarquista pacífico que aspira viver, algum dia, em um mundo em que os homens não precisem mais serem governados por nenhuma autoridade. Nesse cobertor  de sonhos aquecia-se às vésperas do estalar da Guerra Civil Espanhola.

Uma bomba caiu sobre a casa em que vivia e ficou preso debaixo dos escombros. Gravemente ferido, foi levado a um hospital, de onde saiu coxo e com problemas respiratórios, durante um longo tempo. Ali foram chegando refugiados de guerra, mulheres e muitas crianças mutiladas – que fizeram elevar sua sensibilidade de poeta. Anos mais tarde, em 2004, contou a um jornalista do diário La Vanguardia de Barcelona o episódio de sua vida pelo qual hoje é recordado.

“Era o ano de 1937. Eu gostava de futebol, mas já estava coxo e não podia jogar. E sobretudo me doía ver aqueles meninos também coxos, tão tristes porque não podiam jogar bola com os outros. E pensei: se existe tênis de mesa, também pode haver futebol de mesa! Consegui umas barras de aço e um carpinteiro basco, refugiado ali, Javier Altuna, me construiu bonecos de madeira. A caixa da mesa foi feita com madeira de pinheiro, creio, e a bola com cortiça aglomerada de boa qualidade. Isso permitia o controle da bola, dominá-la, passar com efeitos, e assim por diante”.

Com todo acerto, o jornalista catalão Victor Amela observou que “inventar um jogo que consiga neutralizar por um momento a ignomínia da guerra é como compor um poema com espaço e tempo”.

Não foi o futbolín – assim se chama o pebolim na Espanha – a única invenção sensível do poeta: em uma ocasião, apaixonado por uma pianista, inventou pra ela um artefato que permitia passar as pentagramas das partituras pressionando um pedal.

Quando acabou a guerra, fugindo do Franquismo Alejandro acaba exilado na França. Mais tarde sofreu quatro anos de cativeiro no Marrocos e uma vez liberado empreendeu sua aventura americana, cruzando o Atlântico. No Equador fundou a revista de Poesia Universal. Viveu um tempo na Guatemala, onde aperfeiçoou seu pebolim e trucou a rodada com um basquete de mesa – esse último sem grande sucesso. No México participou da intensa atividade intelectual da capital federal daquele país, e se encontrou com seu referente, o poeta espanhol León Felipe. Voltou para a Espanha nos anos 80 já como um consagrado editor e passou a chamar-se Alejandro Finisterre, fim da terra, princípio de sua vida.

Sempre foi reconhecido com a importância de ter inventado o mundialmente difundido jogo de pebolim: com tantos nomes ao redor do mundo. Metegol na Argentina, Futbolín na Espanha, Pebolim em São Paulo, Totó no Rio de Janeiro, e por aí vai… “Se eu não tivesse inventado, outra pessoa teria”, comentou Finisterre. Considerava – como Jean Cocteau – que “a poesia sempre é necessária, não sei para quê, mas é necessária”.

Morreu em 2007, quando as crianças do mundo já haviam substituído seu invento pelos vídeo games. E o poeta celebrou isto: “eu acredito no progresso, existe um impulso humano no caminho da felicidade, da paz, da justiça e do amor. Esse mundo um dia chegará”.

A nós, que juntos a tantas outras gerações fomos beneficiários diretos desse esplêndido invento, fruto da imaginação e da sensibilidade daquele poeta, deveríamos prometer em sua homenagem cada vez que joguemos, respeitar e fazer respeitar para sempre aquela regra – que é uma regra mundial de obrigação moral de todo e qualquer jogador – de que não vale ficar girando – apelando – a linha de jogadores.

 

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Madrid: Rayo Vallecano x Atlético de Madrid. Créditos: Raphael Sanz

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Santa Cruz de la Sierra (Bolívia): Oriente Petrolero x Blooming. Créditos: Raphael Sanz

 

 

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