Para cada clube, duas torcidas

 Por João Bruxo

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Nesta quinta-feira o Palmeiras jogou – e venceu a Ponte Preta por 2 a 0 – no Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho. O seu, o meu, o nosso.

No entanto não vou falar da bela surpresa que Alberto Valentim tem mostrado, nem das esperanças reacendidas nos mais otimistas. Sim, essas são coisas que nos fazem se apaixonar pelo futebol. Mas têm outras. Vou falar da torcida, do ônibus que sai da Marquês de São Vicente e vai ao Pacaembu e de como tudo isso é maravilhoso. Ir ao estádio.

Não estou falando de “experiência”. Estou falando de ir ao estádio. Aquela coisa corriqueira e deliciosa que a gente costumava fazer um tempo atrás. A um estádio propriamente dito. De cimentão mesmo, daqueles que você consegue se mexer sem bater o joelho numa maldita cadeirinha. Não essas novas arenas (a nossa, a dos rivais e tantas outras dessas que fizeram afora). Frias e calculistas. Projetadas para a vigilância.

Estive em Montevideo no começo do ano. Uma baita jornada, aliás. Mas me atenho ao fato de que a Mancha Verde, naquela ocasião, lançou uma música muito legal que dizia que o torcedor larga tudo para ver o Palmeiras jogar. Que outro lugar e situação poderiam contrariar a letra? De lá pra cá, a principal torcida organizada do Palmeiras tentou por diversas vezes cantar esta nova música, de letra mais longa, nos jogos da Arena, mas foi ontem, no bom e velho Pacaembu que ela pegou de verdade e o estádio inteiro, crianças inclusive, se contagiaram com o ritmo.

Meu amigo de arquibancada e companheiro de futebol de várzea e boemia (também um excelente jornalista) que muitos aqui conhecem como Leandro Iamin me chamou a atenção para isto que falei acima. “Sabe por que essa música foi lançada de verdade aqui no Pacaembu? Porque isso aqui é um estádio de verdade, as pessoas que vêm aqui, vêm aqui pra isso”. Leandrão, meu parceiro, não tem o que pôr nem tirar.

A caminho do santuário

Terminei minha jornada de trabalho nesta quinta por volta das cinco e meia da tarde e já corri para o ponto de ônibus. Um para a Marquês de São Vicente e, em seguida, outro até a Praça Charles Miller. Mas esse segundo demorou demais.

Normalmente eu fico louco da vida quando o ônibus atrasa tanto assim – o que não é saudável, pois moro em São Paulo e ando de ônibus. Mas o Palmeiras ia jogar no Pacaembu e torcedores iam acumulando no ponto de ônibus a cada minuto de atraso. E para além dos seres humanos, um grupo de maritacas, surpreendentemente tomava de assalto uma árvore no canteiro central da avenida e cantavam. Era a natureza prevendo a vitória.

Um rapaz, recém saído do trabalho, ainda se vestindo de verde me pergunta:

  • Esse ônibus vai pro Pacaembu?

Não ia. Era um ônibus que iria por Perdizes. Mas começamos a conversar. O cara era um trabalhador, assim como eu e a maioria desse Brasil. Depois de mais uns dez minutos de espera, dois Ana Rosa verde ao mesmo tempo. O de trás era o nosso, mas a ansiedade já fazia muitos companheiros se dirigem ao primeiro. Alguém gritou: “É o detrás, Parmera!”

E lá subimos nós naquele coletivo que já estava forrado de camisas verdes. Celulares e toda sorte de utensílios individualizados, daqueles que te deixam afastado do que acontece ao redor, foram ao seu devido lugar: os bolsos. Todo mundo conversando, cantando, pensando no Valentim, no jogo, no ano que vem. De resenha sobre viagens de visitante, imbróglios dentro de torcida, tudo. Falava-se sobre tudo o que diz respeito ao Palmeiras e ao futebol como um todo. O rapaz comentou comigo:

  • Pô, você viu que hoje só venderam 15 mil ingressos?
  • Melhor assim, respondi, são os 15 mil que vão agitar até o final.

Eu já esperava uma resposta dentro do senso comum que permeia essa modernidade de plástico do futebol moderno. Mas o jovem trabalhador, uns dez anos mais novo que eu, senão mais, respondeu:

  • Cara, você tem razão. Ali no Gol Norte da Arena, onde normalmente eu vou, o pessoal agita mesmo, mas desde que a WTorre comprou um pedaço das cadeiras, tá muito difícil de ir lá. Daí uma vez acabei indo na Superior e no meio do jogo um monte de gente nem aí. Sentado, olhando celular, jogando cartola.

E até a Charles Miller fomos aprofundando esse assunto, até que cada um foi encontrar a sua turma e se despediu.

O jogo e o Estádio

O jogo, ou melhor, a catarse coletiva, foi reflexo do que é o Pacaembu para o Palmeiras desde a sua reconquista na vitória contra os rivais, em que em dois minutos, Prass pegou um pênalti e Dudu, com sua pequena estatura, marcou de cabeça. Desde este exorcismo com requintes de crueldade, e ainda que muitos palmeiristas se recusem a aceitar devido a alguns fracassos recentes como em 2010 e 2013, o Pacaembu agora é nosso! E ninguém tasca. Nem o prefeito.

O time reencontrou o bom futebol e, contagiado pela torcida, também a contagiou. O resultado em termos práticos despertou a esperança dos otimistas. “São 9 pontos em 9 jogos, eu sou palmeirense, tenho que acreditar”, afirmou Gabriel Santoro, uma figurinha carimbada e fenômeno no youtube por sua produção audiovisual e artística. Confesso que não sou tão otimista assim, mas reconheço uma pequena possibilidade.

E nesse clima, a nova música da Mancha pegou: https://www.facebook.com/fabioluis.paiva.9/videos/1618882118173041/

Voltando pra casa

 Por volta das 11 e meia da noite, um vizinho e companheiro de bancada chamou um Uber Pool, aquele mais barato que, no caminho, pode pegar outros passageiros. Me aprumei, saquei cinco mango do bolso, dei pra ele e falei, “vamos pro bairro senão complica”!

Entramos no carro e ele deu uma volta para pegar um passageiro em um barzinho ali próximo do Mackenzie. Entrou um jovem estudante, da mesma idade do rapaz que eu havia conversado na ida. Vestia calça jeans e camisa branca.

  • Nossa galera, top, eu também sou Palestra pra caralho! Mas hoje não deu pra ir ao jogo pois não posso mais faltar nessa aula e também porque tá cheio de buceta aqui no bar, relatou.
  • Ah, é, tem que estudar mesmo – respondi tentando dar aquele corte no assunto.
  • É, mas eu assisti aqui no “PremierPlayMobileSocialNetworkHandApp” (não entendi exatamente aonde ele assistiu, mas fica esse registro)
  • Na minha época tinha que ouvir no radinho mesmo numa situação dessa – respondeu o vizinho, ríspido, tentando cortar o papo.

O rapaz prosseguiu, mexendo no celular, sem nem entender o que acontecia, e não era por conta das cervejas que tinha tomado, mas porque esse consenso é tão martelado pela Globo que viver, naturalmente, de modo que foge disso, é impensável:

  • E aqui no Cartola, fiz mais de 30 pontos com o Diego e o Réver, tô em primeiro na liga!
  • Como assim?
  • Diego e Réver fizeram dois gols hoje e eu escalei ele.

Pedi que me explicasse como funcionava o tal “jogo interativo oficial do futebol brasileiro”. Ele explicou nas mais sinceras palavras um verdadeiro site de apostas maquiado de game interativo. Curioso, no mínimo. Mas o uber chegou ao nosso bairro, e nos despedimos do motorista e inconveniente companheiro.

  • Boa noite a todos
  • A gente se vê, estou sempre na Arena! – respondeu para se despedir.

Modernidade sem realidade

Fiquei encucado com isso. O universitário e o trabalhador, da mesma idade. Um trocou o Pacaembu pelo “bar cheio de buceta” mas sempre está na Arena. O outro deu um jeito de sair mais cedo do trabalho, mesmo em tempos de “não pense em crise, trabalhe” pra acompanhar o time aonde quer que fosse, que antes do prélio estava muito desacreditado no campeonato. O jovem trabalhador esteve presente nesse momento que, como dito, nos deu um fio de esperança em 2017.

O problema não é a Arena em si. O Estádio Palestra Itália, reformado, continua maravilhoso. Perdeu um pouco daquela coisa romântica, do céu aberto e o fosso. Mas é um baita de um estádio, não tem o que falar. O problema não são as coisas, mas os projetos e as maneiras como as coisas são feitas.

O Estádio do Palmeiras, da forma como está, poderia ser mais Estádio do que Arena. Poderia ter, pelo menos, chutando minimamente, metade da sua capacidade voltada aos setores mais populares. Mas não. É menos de 20% da capacidade: cerca de 8 mil dos 40 mil que podem entrar. Podia-se retirar as cadeiras desse setor popular, podia-se desligar as câmeras de vigilância extensiva que atuam como se uma horda bárbara vá pôr tudo abaixo na menor frustração. Um aparato que, não tendo o que fazer, se ocupa de perseguir um torcedor que acenda um sinalizador, faça algum protesto ou pasmem, que xingue ostensivamente um dirigente malquisto. Nem as organizadas escapam com cada vez mais punições que utilizam as “imagens de segurança” das arenas. Que de tão boas que são poderiam identificar indivíduos infratores, mas preferem criminalizar instituições inteiras a cada cuspe na hora errada.

Temos tudo na mão! O Palmeiras é uma escola de futebol, a eterna academia, mas não só. É uma escola de arquibancada e de paixão incondicional como o seu povão e organizadas têm provado. Precisamos é que o clube corresponda a isso, e valorize essa torcida que o fez ser o que é. Não aqueles que se sentam o jogo inteiro, de olho no cartola, torcendo por jogadores do Flamengo e locupletando-se de uma modernidade que torna o estádio um lugar seguro pra ele. Os velhos estádios são hostis a gente assim. Imagina só um IPhone 59 despencando, sem querer, arquibancada amarela abaixo. Antes tínhamos uma só torcida. Hoje temos duas. E o Palmeiras (e os outros grandes clubes não fogem disso) precisam decidir o que querem da vida.

A grande verdade é que após a tiagoleifertização do futebol, até o Chico Lang parece ser um cara legal. Talvez por isso a gente nunca mais o tenha xingado na saída dos jogos.

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*João Bruxo é uma entidade satânica que vive em São Paulo, é mais podre que a cidade em que vive, e encarna em alguns palmeirenses que nasceram com espírito rebelde. Este texto poderia ter sido escrito por muitas mãos, ou apenas uma: a mão imaginária de João Bruxo.

 

 

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