Arquivo da categoria: Da casa

Corintianos no Maracanã: “Ninguém pode ser preso como bode expiatório, com a finalidade de dar exemplo a outras pessoas”

Por Luiz Guilherme Ferreira e Raphael Sanz

 corintianos

No dia 23 de outubro houve uma briga entre torcedores do Corinthians e PMs do Rio de Janeiro dentro do Maracanã. No fim do jogo, todos os homens foram obrigados a permanecer sentados na arquibancada e sem camisa para que houvesse o reconhecimento dos envolvidos na briga. A imagem, transmitida ao vivo pela televisão aberta em São Paulo, chocou muita gente e remeteu à cenas pesadas de episódios como o Massacre do Carandiru, entre outros. Para discutir o evento e fazer uma análise jurídica do ocorrido, a Destilaria da Bola conversou com o advogado Fernando Hideo, professor de Direito Processual Penal da Escola Paulista de Direito na graduação e professor convidado no curso de pós-graduação da PUC/SP*.

“Dos milhares de torcedores humilhados e coagidos no estádio, apenas algumas dezenas foram identificados como agressores em um primeiro momento. Posteriormente, as imagens demonstraram que apenas quatro estavam realmente envolvidos. Isso é vergonhoso e demonstra que o direito penal é apenas um instrumento de dominação e controle social, destinado a punir alvos específicos e preservar interesses dominantes”, declarou Hideo.

Ao longo da conversa, Hideo explicou uma série de termos e nuances jurídicas utilizadas para criminalizar os torcedores corintianos e para justificar a prisão preventiva, mas que em sua opinião foram postas de forma enviesada e fora de contexto. Tudo de acordo com a conveniência do judiciário a partir da cobertura midiática do caso. Ainda, traçou duras críticas ao sistema judiciário brasileiro, desde sua gênese, até as formas de controle social que exerce nos dias de hoje.

“A casa grande deu origem à forma jurídica de um Estado pretensamente democrático de direito destinado à população incluída, onde direitos e garantias fundamentais são assegurados de acordo com a conveniência de um pensamento dominado pela elite econômica. Do outro lado, a senzala evoluiu para um Estado de Exceção permanente destinado aos excluídos, onde vige a lógica do combate seletivo à população pobre e marginalizada por meio da imposição do medo e do terror a partir da aplicação severa das normas incriminadoras e negação ao direito de defesa”, criticou.

Leia abaixo a entrevista na íntegra.

 Destilaria da Bola: Esta atitude da PM carioca, de deixar centenas de torcedores imóveis dentro do estádio e expostos daquela forma, tem respaldo na lei?

Fernando Hideo: A conduta dos policiais militares cariocas foi arbitrária e ilegal. As imagens dos torcedores coagidos a permanecer sentados na arquibancada e sem camisa, durante horas, são vergonhosas e merecem total repúdio.

Destilaria da Bola: O que é individualização da conduta e para que serve, usando este caso como exemplo?

Fernando Hideo: Nosso sistema de justiça criminal adota o “direito penal do fato”, isso significa que as pessoas só podem ser responsabilizadas por aquilo (e na exata medida daquilo) que fizeram. Punem-se condutas.

Ninguém pode ser punido pelo que é. Por isso é tão importante a individualização da conduta como pressuposto para se responsabilizar alguém na esfera criminal.

Em outras palavras, é preciso apontar exatamente quem praticou o quê para haver qualquer sanção criminal.

Segundo relatado pela imprensa, 3 mil corintianos tiveram sua liberdade restringida durante horas para que, ao final, se identificassem (sabe-se lá como) 40 torcedores que teriam se envolvido em confronto com a PM. Como justificar a humilhação infligida a todos os outros milhares de torcedores coagidos? É nitidamente uma medida desproporcional, arbitrária e ilegal.

Destilaria da Bola: Foram levadas 64 pessoas à delegacia supostamente identificadas, sendo que 31 permaneceram presas sob as acusações de lesão corporal, resistência qualificada, associação criminosa e por promover tumulto em eventos esportivos. Na sua visão são cabíveis tais acusações?

 Fernando Hideo: Não conheço as particularidades do caso, mas pelas informações e imagens publicadas parece ter havido confronto entre torcedores e policiais militares. Do lado dos torcedores, deve-se apurar eventuais crimes de lesão corporal e resistência (crimes de menor potencial ofensivo), que obrigatoriamente devem ser individualizados em relação à conduta de cada um.

Por outro lado, é imprescindível que se apure também eventuais crimes de abuso de autoridade e lesões corporais praticados pelos policiais militares. A acusação por associação criminosa carece de qualquer fundamento, violando até mesmo o direito fundamental à liberdade de associação.

Destilaria da Bola: Houve audiência de custódia no dia 25/10 em que se converteu a prisão em preventiva. Novamente utilizando este caso como exemplo, como explicamos ao leitor leigo o que é e para que serve uma audiência de custódia?

 Fernando Hideo: Todo aquele que é preso em flagrante tem direito de ser apresentado a um juiz em até 24 horas. Nessa chamada audiência de custódia, o juiz decidirá apenas se o suposto autor dos fatos responderá ao processo preso ou solto. Não serão discutidos os fatos em apuração, mas apenas a legalidade da prisão. As possíveis decisões são (i) relaxamento do flagrante ilegal; (ii) concessão de liberdade provisória, acompanhada ou não de medidas cautelares (fiança ou monitoramento eletrônico, por exemplo) e (iii) conversão do flagrante em prisão preventiva, como neste caso dos torcedores corintianos que discutimos.

Destilaria da Bola: Na fundamentação da prisão preventiva, a magistrada destacou que esta medida se revelou “imperiosa e necessária”, já que os presos são de outro estado, “o que poderia colocar em risco a instrução criminal”, além de que “se não unidos previamente com o intuito de cometimento de crimes nas dependências do estádio Mário Filho, os custodiados, no momento exato das agressões, uniram-se covardemente contra os agentes da Lei e da ordem. Impossível o Estado chancelar a violência que vem imperando nos ambientes esportivos e afastando a torcida familiar dos estádios”. Estes pontos tidos como fundamentais encontram respaldo técnico no direito penal? Quais?

 Fernando Hideo: A prisão preventiva só pode ser decretada, em breve síntese, nos casos de comprometimento da ordem pública, da ordem econômica, da instrução criminal ou risco à aplicação da lei penal.

Obviamente, o fato dos presos serem de outro estado não deve ser levado em consideração. Muito menos a “violência que vem imperando nos ambientes esportivos”.

Ninguém pode ser preso como bode expiatório, com a finalidade de dar exemplo a outras pessoas. Antes, deve haver prova do cometimento de crime grave e indícios de autoria, bem como provas concretas de que os envolvidos sejam ameaça à ordem pública, à ordem econômica, à instrução criminal ou risco à aplicação da lei penal. Além disso, a prisão preventiva só pode ser decretada se as medidas cautelares diversas da prisão se revelarem inadequadas ou insuficientes.

Destilaria da Bola: Posteriormente, em 08/11, dez pessoas foram presas em São Paulo acusadas de ameaçar pelas redes sociais a juíza do caso. Qual sua opinião sobre este fato?

 Fernando Hideo: Embora eu não tenha conhecimento do teor de tais ameaças, é temerário que prisões sejam decretadas nessas circunstâncias, podendo soar como vingança do Poder Judiciário, já que diariamente há milhares de ameaças nas redes sociais que não recebem nenhuma atenção das autoridades.

Destilaria da Bola: Na decisão em que recebe a denúncia do Ministério Público e mantém a prisão preventiva dos acusados, a juíza Marcela Caram diz que uma testemunha, o policial Ederson da Silva Maia, “teria narrado com precisão os fatos, apontando de forma incontroversa para cada um dos acusados, atribuindo-lhes condutas graves”. Em 23/11, foi noticiado que dos 30 presos apenas 4 foram identificados como envolvidos na briga. O que isso demonstra?

Fernando Hideo: Os fatos demonstram o despreparo e o autoritarismo arraigado em nosso sistema de justiça criminal. Dos milhares de torcedores humilhados e coagidos no estádio, apenas algumas dezenas foram identificados como agressores em um primeiro momento. Posteriormente, as imagens demonstraram que apenas quatro estavam realmente envolvidos. Isso é vergonhoso e demonstra que o direito penal é apenas um instrumento de dominação e controle social, destinado a punir alvos específicos e preservar interesses dominantes.

Destilaria da Bola: Ainda em novembro, a mesma juíza do caso dos corintianos relaxou o flagrante de dois homens presos com 4 quilos de maconha, um fuzil e uma pistola porque “Compulsando atentamente o procedimento, (…) verifico frágil a regularidade do flagrante, tento em vista que as circunstâncias da prisão não se encontram claras, tampouco a individualização das condutas dos flagranteados, assistindo razão à defesa, induzindo esta magistrada a concluir pela irregularidade formal do APF”. A juíza agiu certo neste caso? Se sim, por que não foi aplicada a mesma lógica aos corintianos?

 Fernando Hideo: Mesmo sem ter detalhes de ambos os casos, podemos perceber a incongruência entre as decisões. E não apenas nestes dois casos.

Nós nunca superamos a cultura da escravidão. Se antes identificávamos casa grande, senzala e capitães do mato como elementos sociais bem delineados, hoje devemos compreender a estrutura camuflada na qual convivem veladamente Estado de Direito, Estado de Exceção e Polícia Militar.

A casa grande deu origem à forma jurídica de um Estado pretensamente democrático de direito destinado à população incluída, onde direitos e garantias fundamentais são assegurados de acordo com a conveniência de um pensamento dominado pela elite econômica. Do outro lado, a senzala evoluiu para um Estado de Exceção permanente destinado aos excluídos, onde vige a lógica do combate seletivo à população pobre e marginalizada por meio da imposição do medo e do terror a partir da aplicação severa das normas incriminadoras e negação ao direito de defesa.

A tarefa que era atribuída aos capitães do mato, agentes da repressão e castigo aos escravos, foi confiada à Polícia Militar ― instituição incompatível com um regime democrático ― que atua, por um lado, como força de proteção dos interesses da classe dominante e, de outra parte, como força de ocupação territorial e repressão à população pobre.

Nos últimos anos (Mensalão e Lava Jato, especialmente), tivemos o acréscimo do elemento político partidário na seletividade do direito penal. Ao invés de se estender os direitos fundamentais aos excluídos (pobres e marginalizados), pretende-se universalizar o arbitrário aos incluídos (ricos e poderosos). Ocorre que as medidas criminais nunca são tomadas com isenção e imparcialidade. Está óbvio o partidarismo e a seletividade que regem as grandes investigações e processos penais midiáticos. Por tudo isso, o direito penal está cada vez mais autoritário em nosso país, manipulado pelos interesses econômicos e políticos.

Destilaria da Bola: Você acredita que os juízes tendem a ser mais duros quando o assunto é torcida de futebol? Qual seria o procedimento correto neste caso específico?

Fernando Hideo: Acredito que os juízes tendem a ser mais duros de acordo com a conveniência. A mídia, o sistema econômico e as questões políticas exercem grande influência na postura dos magistrados. Vide o caso do Carandiru e tantos outros: tantas mudanças de entendimento em casos idênticos, tantos pedidos de vista eternos, tantas perseguições a juízes garantistas que simplesmente cumprem a Constituição Federal.

Destilaria da Bola: Qual sua opinião pessoal sobre este caso como um todo?

 Fernando Hideo: A sociedade precisa compreender o verdadeiro papel do direito penal. É preciso acabar com essa mistificação do aumento de penas e diminuição do direito de defesa para reduzir a criminalidade.

Basta olhar no retrovisor para perceber que a atribuição da condição de ser humano aos escravos ocorreu para que lhes pudesse ser imputada a prática de crimes. “Coisas” não cometem crimes, logo é preciso transcender a condição de “coisa possuída por um senhor” para possibilitar a aplicação de sanções criminais. Assim é que o primeiro ato humano do escravo é o crime. Pura e simples dominação.

Basta, também, perceber que ainda hoje existem muito mais países que criminalizam a homossexualidade do que nações onde a união homoafetiva é regulamentada. Puro e simples controle moral.

Basta, ainda, notar que não há como escapar das sanções criminais referentes ao furto de uma simples bicicleta, mas para passar uma borracha em todas as consequências penais da sonegação de milhões de reais em tributos, é só fazer um acordo administrativo e quitar os débitos anos depois. Pura e simples conveniência econômica.

Basta, por fim, perceber o uso despudorado que tem se feito das estruturas do processo penal para viabilizar um golpe parlamentar, financeiro, jurídico e midiático em nosso país. Pura e simples seletividade manipulada pelas estruturas de poder. Vivemos em constante evolução e o direito penal é um freio de dominação e controle. Libertemo-nos!

 

*Fernando Hideo é advogado criminal e Professor de Direito Penal e Processual Penal em curso de graduação e pós-graduação. Doutorando em Direito Processual Penal pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2016) e Mestre em Direito Processual Penal pela mesma instituição (2013). Professor convidado no curso de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Escola Paulista de Direito e outros. Professor da cadeira de Direito Processual Penal da Escola Paulista de Direito no curso de graduação em Direito. É membro do Conselho Editorial do IBCCRIM – Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e associado ao Instituto de Defesa do Direito de Defesa – IDDD. Contato: fhilacerda@gmail.com

 

Leia também:

Palmeiras, Caco Barcellos e Rede Globo

 

 

Fontes:

http://globoesporte.globo.com/futebol/times/corinthians/noticia/2016/11/inquerito-identifica-por-imagens-so-4-de-30-corintianos-presos-no-maracana.html

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/10/justica-converte-em-preventiva-prisao-de-corintianos-detidos-no-maracana.html

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/10/juiza-que-decretou-prisao-de-corintianos-e-ameacada-diz-amaerj.html

https://noticias.terra.com.br/brasil/policia/policia-prende-suspeitos-de-ameacar-juiza-apos-de-prisao-de-corintianos,a5c72e300e1f104381789499c7f77aa9i9tcehx3.html

http://extra.globo.com/casos-de-policia/suspeitos-detidos-com-fuzil-pistola-maconha-no-morro-da-coroa-sao-soltos-em-audiencia-de-custodia-20471006.html

 

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Da casa

Que façamos o sistema tremer!

 

Por Raphael Sanz

screen-shot-2016-12-04-at-1-51-58-pm

O Império Romano era imbatível. Havia ganho inúmeras batalhas, nas mais diversas frentes e contra os mais diversos povos no esforço de determinar suas fronteiras. Aos dominados, a Lei Romana, tão estudada hoje pelos futuros juristas. Mas não só a Lei, como também o modo de vida e a cultura imperial eram impostos pela força das armas e da grana. Algumas tentativas de insurreição foram severamente esmagadas e todo aquele que se rebelava era desacreditado, taxado de “bárbaro”, “selvagem”, “animal” e, por fim, escravizado. Um belo dia o Império Romano começou a ruir. Godos e Germanos atacavam pelo norte, Hunos pelo leste e os Vândalos (eles mesmos) pelo sul. Não sou historiador e não sei em que nível esses ataques bárbaros foram coordenados, fato é que os povos e tribos de certa forma se uniram (conscientemente ou espontaneamente, me corrijam!) e derrubaram o invencível, porém decadente, império.

As tribos bárbaras não queriam necessariamente um evento de violência, a princípio. Queriam apenas a liberdade para viverem em seus territórios, com sua gente e suas culturas, sem precisarem se prestar submissas a Lei Romana. Mas como quem tá por cima não aceita a liberdade de quem está por baixo, não houve outra saída. E após longas e duras batalhas, o racionalismo imperial caiu de joelhos diante daqueles selvagens bruxos que eram tidos como o mal do mundo, apenas por quererem a liberdade.

O mundo de hoje, e o Brasil não poderia ser diferente, vive uma situação semelhante. Aquilo que convencionou-se chamar de “capitalismo” ou “sistema” nada de braçada em águas de mares nostruns contemporâneos. Impõe regras de conduta, de comportamento; empecilhos para os de debaixo se afirmarem e reprime com toda a violência possível e imaginária aqueles que manifestam dissenso. Fora do futebol temos inúmeros exemplos. Manifestações de junho de 2013 por exemplo: propondo um rompimento com o status quo acabaram reprimidas violentamente, com direito a olhos arrancados e tiros de balas letais em genitálias, para depois serem complemente desacreditadas e cooptadas pela cultura dominante. Hoje vemos direitos sociais e trabalhistas atacados em nome de um progresso econômico que não tem absolutamente nada a ver com bem estar social. Necessidades básicas como alimentação, habitação, água potável, transporte, saúde, educação, saneamento básico e lazer vão se transformando em privilégios que apenas patrícios imperiais têm o direito de gozar. E no futebol isto não é diferente.

screen-shot-2016-12-04-at-1-51-38-pm

Especialmente em São Paulo, a capital financeira e econômica da província brasileira do grande império global, algumas brigas bem violentas entre as distintas tribos que vivem nessas terras, comumente chamadas de vândalas (mas que coincidência, não?) justificaram a ofensiva imperial contra as mesmas. Desde idos de 1995 diversas práticas destas tribos vem sendo sistematicamente criminalizadas em uma escalada que faria qualquer Júlio César de vidas passadas parecer um amador.

Primeiro as bandeiras, depois os fogos, depois as vestimentas típicas e tradicionais, em seguida a batucada. Chegou-se ao ponto de vermos legionários armando cercos e bloqueando ruas no entorno dos sagrados templos destas tribos, impedindo sua aproximação. Afinal, todas essas práticas bárbaras “não cabem mais no futebol”, diria um medíocre publicitário imperial. E de fato proibiram tudo, menos a violência. Afinal de contas, violência não se proíbe com leis ou ainda mais violência daqueles que detêm seu monopólio. A única forma de coibir a violência é construir a paz; um processo longo e lento; doloroso e permanente que traz frutos silenciosos, aos poucos, mas que um dia poderá ser notado e comemorado.

Vimos falsos arautos e fajutos paladinos da paz e da justiça, todos de péssimo gosto, se promoverem com esta violência. E como um pescador, que vive da pesca, não quer o fim da vida aquática; estes vermes e abutres que se promoveram, ganharam poder, notoriedade, prêmios e grana com a violência também não têm a menor intenção de construir a paz. Porque a história já mostrou que é mais vantajoso vermos as tribos se matando entre si, do que conversando em paz. Afinal, a união entre os povos; consciente ou não, articulada ou não; foi o que levou abaixo o poder e a opressão romana no passado.

17156689_401

Ainda não chegamos ao estágio das novas invasões bárbaras; mas estamos sim naquele momento em que os tais vândalos, hunos e godos do presente querem paz e liberdade. E o que está unindo nossas tribos futebolísticas infelizmente foi a tragédia aérea que ocorreu na madrugada da última terça-feira com o plantel da Chapecoense, e que também vitimou jornalistas e tripulação.

Eis que hoje, horas antes da publicação deste texto escrito no calor deste momento que tem tudo para ser histórico, as principais torcidas organizadas dos quatro grandes clubes de São Paulo (com reforço de torcedores do Santo André) se uniram na porta do Pacaembu, templo venerado pelas quatro grandes religiões do nosso futebol para prestar uma homenagem à Chapecoense, aos seus mortos e a sua torcida. Mas além das homenagens, vieram pedir paz e união como forma de se fortalecer na luta pela sonhada liberdade.

“Vivemos em um país que ano passado teve 60 mil assassinatos. Então, a sociedade é violenta, não é só a torcida organizada, somos apenas um reflexo daquilo que acontece na sociedade. Outra coisa: queremos trazer de volta a alegria ao futebol. O futebol tá sem graça, é proibido bandeira, proibido tambor, papel picado e também o próprio torcedor organizado de ir ao estádio. Isso nos une, e aproveitamos esse episódio da Chapecoense para fazer esta união. Como você pode ver, não tem nenhum policial aqui. Nem um. E estamos aqui em paz, frente a frente. Então é isso, a repressão só faz aumentar a violência. Precisamos é de festa e de alegria. A rivalidade tem de continuar existindo senão não existe futebol, agora, o cara pode ser meu adversário sem ser meu inimigo mortal, eu não quero matar ele por causa disso. E a maioria pensa assim. Agora, se fechar qualquer quarteirão paulistano haverá lá uma pessoa violenta, de Torcida Organizada ou não, porque a sociedade é violenta como um todo. E nós estamos cansados dessa criminalização que fazem com as T.O.s. E por que fazem isso? Porque ela luta, reivindica, briga com o dirigente ladrão, com a globo, com a CBF, com o ladrão da merenda. É essa a repressão que vem pra cima da gente e estamos querendo mostrar que é possível uma união, mantendo a rivalidade, contra o futebol moderno e a favor do povão outra vez tomando conta dos estádios”, afirmou Chico um representante da Gaviões da Fiel na praça Charles Miller, com toda a sabedoria que emana da barba branca e dos cabelos brancos que ostenta.

“Já temos conversado entre as diretorias faz um tempo, e chegamos a conclusão que o futebol é festa, é paixão, e estão nos tirando esse direito, muitas vezes por causa de uns problemas internos. Então nos solidarizamos com esse caso da Chapecoense e não tem como fugirmos desse eixo humanitário. E se pra vocês essa união é uma surpresa, para nós não é, porque tem sido semeada à base de muito trabalho e vamos continuar com isso para os próximos anos”, afirmou um representante da Mancha Verde que emendou: “muitas vezes a violência acontece porque a rapaziada não tem mais direito a lazer, nem a cultura e nem ao estádio, com tudo banido, inclusive a festa na arquibancada, então acabam praticando a violência como um subterfúgio, mas estamos tentando reverter isso e trabalhar para esse bem maior que é a paz”. Ele terminou dizendo que deixou o orgulho de clube em segundo plano em prol de algo maior.

screen-shot-2016-12-04-at-3-44-15-pm

Dois torcedores de velha guarda que se conheceram em uma briga e hoje são amigos, o Chico da Gaviões e um outro senhor da Jovem do Santos conversavam relembrando de lutas passadas, não entre torcidas, mas contra a ditadura militar. E o santista sintetizou: “O torcedor unido é forte e eles tem medo dessa união. E eu tenho certeza que essa união veio pra ser selada. Parabéns a todos os dirigentes e a todo mundo que tá aqui hoje”, definiu com o ar de serenidade que só a idade, a experiência e a esperança podem trazer consigo.

Se essa união permanecerá ainda não sabemos. Há muitos céticos, como eu, que preferem esperar para ver. Mas é inegável que o que aconteceu hoje no Pacaembu já está marcado nos corações de muita gente de arquibancada: de organizada ou não. Resta ver até onde isto irá. Espero, do fundo do meu coração alviverde, que vá longe. E que como Spártacus – líder de uma rebelião de escravos no velho Império Romano – falou um dia, “façamos o império tremer!”

É para isto que torcemos. Para termos liberdade. E aos que nos negam a liberdade e se aproveitam das nossas tragédias, espero que só lhes restem a lata de lixo da história! Mas isso dependerá apenas de nós, não deles.

 

Observação: Pra quem quiser ver imagens desta tarde, recomendo muito a cobertura ao vivo do Esporte Interativo, um canal que recém fechou os direitos de transmissão com Santos e Palmeiras e que tem um grande amigo no time de repórteres. Neste link você pode acompanhar todas as aspas que estão nesse texto e muitas outras falas que vão no mesmo sentido.

 

Viva a Mancha Verde!

Viva a Gaviões da Fiel!

Viva a Jovem do Santos!

Viva a Independente!

Viva a torcida do Santo André!

Viva as Torcidas Organizadas!

E viva o futebol brasileiro!

Para Sempre Chapecoense!!!

1 comentário

Arquivado em Da casa

Força Chape!

Por Raphael Sanz

Publicado também no Correio da Cidadania.

Nunca dei muita bola pra Chapecoense. Era apenas um “timinho” que estava dando um trabalho na primeira divisão, mas logo a deixaria. Ledo engano. Gosto das cores, mas quando golearam o meu Palmeiras por 5 a 1 na Arena Condá, no ano passado, aí sim peguei birra. Mas, sinceramente, nunca dei muita importância. Apenas recentemente comecei a prestar mais atenção a este clube por conta das campanhas nas Copas Sul-Americanas e me impressionou sua história recente.

O clube, fundado em 1973, faz aniversário em 10 de maio, um dia depois deste que escreve. Na época de sua fundação como clube amador, onde permaneceu por pouco tempo, a cidade de Chapecó vivia uma espécie de crise no futebol. Clubes mais antigos como o Atlético Clube Chapecó, Independente Futebol Clube, Grêmio Esportivo Comercial e Guayracá Futebol Clube já estavam em amplo processo de decadência, e os grandes times de São Paulo, Rio e Paraná fatiavam, ou tentavam fatiar, os corações de Chapecó. A 10 de maio de 1973, torcedores do Atlético e do Independente (Heitor Pasqualotto, Valdir Pelisser, Lorário Immich, Vicente Delai e Altair Zanella) resolveram fundir ambos os clubes e assim criaram a Associação Chapecoense de Futebol. Immich foi o primeiro presidente.

E no amadorismo dos primeiros anos o clube construiu e solidificou sua identidade com a cidade do oeste catarinense. Seu primeiro time era composto na totalidade por atletas amadores citadinos. Profissionalizado, o primeiro título estadual veio já em 1977. Após 26 vitórias, 12 empates e 8 derrotas, o clube venceu o Avaí por 1 a 0 no jogo derradeiro do campeonato estadual e vestiu sua primeira faixa de campeão. Entre 1978 e 79, teve uma breve passagem pela elite do futebol brasileiro, mas sem a contundência dos dias atuais.

Em uma busca incessante pelo bicampeonato estadual, acabou perdendo o título para o Joinville em 78 em um dos campeonatos mais polêmicos já disputados no estado, com direito a desistência do Avaí. Em 1991, o bicampeonato novamente escapou, dessa vez pelas mãos do Criciúma de Luiz Felipe Scolari. Mas em 1996 o bi chegaria. Contra o Joinville. E com chuva de rojões de frente para o hotel onde dormia e se concentrava o rival do leste. Mais três títulos estaduais viriam: 2007, 2011 e neste trágico ano, de 2016, que já foi de alegrias para a Chapecoense, mas infelizmente terminou da forma que ainda digerimos.

Uma forte crise abateu a Chapecoense a partir de 2001, quando terminou na lanterna do estadual e precisou disputar uma seletiva para se manter no campeonato do ano seguinte. Em 2003, precisou mudar de personalidade jurídica para não decretar falência e passou a chamar-se Associação Chapecoense Kindermann/Mastervet, parceria que durou até o ano seguinte e serviu como suporte para montar a base que empregaria a retomada do clube como potência estadual. Já em 2005, uma nova diretoria assumiu o clube e empregou uma política de recuperação financeira que já no ano seguinte mostrou resultados, com a conquista da Copa Santa Catarina no segundo semestre.

Campeão Catarinense em 2007, a Chape não repetiu a dose em 2008, ficando em oitavo lugar no estadual e perdendo o direito de disputar a Série D do Brasileirão. Mas em 2009, com o vice-campeonato estadual, a Chape voltou ao Brasileirão, para de lá não mais sair. Ainda em 2009 chegou às finais da Série D, não foi campeã, mas subiu para a Série C, onde permaneceu até ser vice da mesma, em 2012. Em seu primeiro ano de Série B, surpreendeu a todos, e como o bicho papão que é, papou o vice-campeonato, elevando-se à Série A do Brasileirão de 2014. E a partir daí, todos sabemos o que veio pela frente. Boas campanhas na Série A, eliminação na Copa Sul-Americana para o River Plate em 2015 e, em 2016, finamente um clube catarinense chega a uma final internacional. A defesa de Danilo no último lance do empate contra o San Lorenzo é para a posteridade. Eis que, então, acontece o que aconteceu.

Não posso falar pelos torcedores da Chape, mas entendo o que pode representar pra eles. A imagem divulgada pela Folha da torcida rezando o Pai Nosso ao redor do estádio é muito comovente. Que maluquice é a vida. Comemoraram até a madrugada aquele empate, mas hoje, acredito que muitos prefeririam que o Danilo não tivesse salvo essa épica bola no último minuto do jogo. Bruno Rangel, entre os mortos, é o maior artilheiro da história do clube. Ananias, autor do primeiro gol do novo estádio do Palmeiras, também se foi. Assim como o técnico Caio Jr, Cleber Santana e muitos outros. Perdas e mais perdas. Vidas interrompidas. Tristeza infinita.

Sem muito mais o que dizer, apenas lamentar, a Destilaria da Bola buscou contar, de forma bem resumida, um pouco da história deste pequeno grande clube. Pequeno por ser de uma cidade pequena, com pouca grana e jogadores modestos. Grande por toda a história que construiu, apesar das adversidades.

Lamentável, digna de nota odiosa, a atitude de um certo veículo de comunicação que não merece ser citado nominalmente aqui e que em sua incessante caça por cliques, divulgou “selfies e vídeos” dos momentos finais da morte dos jogadores.

Grandiosa e digna de respeito a atitude do Atlético Nacional de Medellín, de abrir mão da disputa e declarar a Chape campeã. Não vai resolver os problemas gerados pelo acidente, mas pelo menos presta uma justa homenagem.

Gostaria de prestar também solidariedade, em nome de todo o time da Destilaria da Bola e nossos colaboradores, às famílias dos jogadores, comissão técnica, colegas jornalistas e tripulação. E também a maravilhosa torcida da Chape que não merecia isto. Aliás, ninguém merece! Espero de coração que esta tragédia seja superada por toda a coletividade de Chapecó, no tempo que for necessário para que isso ocorra, para que enfim o futebol brasileiro possa novamente sorrir em breve.

Em tempo: como palmeirista, é muito triste ter recebido a Chape em nossa casa, no dia de nossa grande festa, e ter visto um rival de respeito sofrer uma pancada dessas pouco mais de 24 horas depois. Novamente, desejo paz para todos.

Abraços de solidariedade.

 

Força, Chape!!!

images

2 Comentários

Arquivado em Da casa