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A partida de futebol mais bonita que já existiu

Por Irlan Simões

Em 48 horas o futebol viveu a sua maior tragédia e assistiu ao maior gesto já feito em seu nome.  Nem ele é mais o mesmo.

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Eu não queria falar da Chapecoense. Não queria falar dessa tragédia e de como ela abateu todos nós, amantes do futebol. Mas a noite inspiradora protagonizada pelo Club Atlético Nacional e sua hinchada, com homenagens às 71 vítimas do acidente aéreo, mudou absolutamente tudo.

Toda a dor foi transformada pela solidariedade. Todo esse evento catastrófico e todo o desespero que trouxe no seu rastro foram engolidos pela partida de futebol mais bonita que nós já vimos em vida. E a pelota, aquela que é o começo de tudo isso, teve a humildade de ficar de coadjuvante pela primeira vez na vida.

Uma noite inesquecível. Um gesto ímpar e gigantesco. Um marco. Num momento em que o futebol é cada vez mais maltratado e roubado de nós, ele volta até de um em um, até aos mais céticos, derruba litros de lágrimas e faz a boca soltar involuntariamente um: “vale a pena”.

Foi por causa da morte, essa terrível e inevitável piada, que o mundo do futebol virou um só. No estádio Atanasio Giradort, em Medellín, que todos os torcedores, hinchas, tifosi, supporter e fan foram contemplados nas preces, cantos e palmas dos verdolagas.

A morte fez do futebol um só. Logo ele, tão bem sucedido em lembrar-nos como é estar vivo.

Sempre imaginei o futebol como uma “linguagem universal” que atravessa as fronteiras e se molda ao solo onde foi semeado. Em cada canto desse mundo as pessoas falam a mesma coisa, sem vocabulário e sem alfabeto.

Por amar tanto esse jogo sempre me busquei captar outras “linguagens universais” comparáveis, nos pequenos e grandes costumes desse vasto planeta.  Aqui e acolá pode se observar que todos os povos do mundo dançam, comem, amam, bebem e brigam.

Todos se enfeitam para chamar atenção. Todos brindam as conquistas e os ciclos. Todos sentem saudades do seu céu e do seu chão. Todos fazem música para fazer jorrar aquilo que aqui chamamos de “alma”. Cada um da sua forma, mas da mesma maneira.

O evento trágico da última segunda-feira (28) ensinou que o luto também é uma linguagem universal. Ele se mostrou em centenas de gestos distintos, todos absolutamente compreensíveis aos olhos de quem compartilha ou se solidariza pela dor da perda.

Como é bela, sabemos agora, a forma colombiana de dizer “adeus, não te esqueceremos”. Nessa imensa Pedra da Roseta que é o fazer a vida de cada ser humano, a despedida e a compaixão se mostraram verbetes poderosos.

Ninguém vai embora sozinho. Nenhuma vida terá sido em vão.

Uma partida de futebol nunca é apenas 90 minutos. Ela carrega anos, décadas de entrega, de acompanhamento. Um clube é um castelo construído tijolo a tijolo na vida de cada torcedor.  Para alguns 30 anos, para alguns 60, para outros apenas 2.

Somos eternamente reféns daquilo que aceitamos construir na nossa breve e ridícula estadia nesse mundo.  É por isso que um clube não se abandona. É impossível deixar para trás aquilo que viu crescer sob tempestades devastadoras e glórias memoráveis. Alguém pode até fingir, mas não será jamais capaz de desprezar completamente o clube que já seguiu.

Mas o futebol parece indecifrável para quem nunca o viveu na vida. Por isso tão desprezado. Desprezado por pessoas que ficam possessas porque o bolo sola, esperneiam porque a unha quebra, batem no filho porque a parede mancha… todas essas cabanas de palha de uma vida.

E não entendem o que é chorar ou sorrir por um clube de futebol que se segue desde pendejo.

Um time se vai, a Chapecoense fica. Uma enorme ferida em sua história anestesiada pela solidariedade de tantos outros torcedores que choraram apenas ao imaginar cinquenta membros da sua comunidade deixando a vida num estalar de dedos.

Fica o agradecimento e apoio de cada brasileiro ao gesto colossal do Club Atlético Nacional. A partir de agora todos têm o dever moral de reservar para os Verdolagas de Medellín um espaço no seu coração de torcedor.

Esse é o ano em que o futebol se transforma por completo. Quem sabe essa inspiração sirva para mostrar definitivamente porque ele não pode ter dono: o futebol é grande demais para caber no cofre de alguém.

 

Irlan Simões é jornalista e pesquisador de futebol. Tem uma coluna semanal na Revista Caros Amigos de onde este artigo foi retirado.

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Calendário do futebol brasileiro de 2017 será ainda pior

 

Apresentamos hoje mais um parceiro nosso: o grande Irlan Simões, baiano, torcedor do Vitória, e um cara que já faz uns bons anos tem mandado muito bem nos escritos sobre o nosso futebol. Ele escreve para um monte de lugares, edita a Revista Rever e é colunista da Caros Amigos, onde esta análise foi originalmente publicada. Agora, já devidamente destilado, também estará por aqui.

Texto de Irlan Simões

 

Houve um tempo em que a falta de uma estrutura de transporte adequada fazia com que os torneios nacionais fossem mais curtos que os campeonatos estaduais.  Pouco importava se os clubes eram do Ceará, de Mato Grosso ou do Rio Grande do Sul: as federações tinham carta branca para organizar torneios com modelos medonhos, realizando dezenas de clássicos para arrecadar com bilheterias e fazer os clubes terem atividade durante todo o ano.

Até o final da década de 1980 essa lógica foi dominante, sendo apenas superada pelo então crescente e imperativo processo de midiatização dos jogos de futebol. Esse novo momento, paulatinamente sofisticado em termos comerciais e estruturais, passou a exigir uma maior organização do calendário a nível nacional. A Comissão Brasileira de Futebol (CBF) passaria a impor datas mais padronizadas, “confinando” os estaduais ao primeiro semestre e deixando o segundo semestre para os torneios nacionais de primeira e segunda divisão.

O primeiro semestre, durante um bom tempo também, contou com o início e o fim da Copa do Brasil e da Taça Libertadores da América. Algo que ficou para o passado, e é o que gerou a grande mudança que estamos vendo para o ano de 2017.

As idas e vindas do futebol brasileiro e as sequenciais “viradas de mesa” impediram que um padrão no calendário tomasse corpo ainda nos anos 1990. Apenas em 2003 a CBF vai conseguir aplicar o modelo de “pontos corridos” que, finalmente – mas não sem polêmicas -, teria vida longa, já chegando atualmente à sua 14ª edição.

Pouco tempo depois conseguiria estender esse modelo – onde todos os clubes jogam entre si em jogos dentro e fora de casa, com o maior pontuador se sagrando campeão – para as competições da Série B, também fixando o número de participantes em 20, já em 2006.

De lá para cá, a Série C também foi fixada em 20 clubes, com a adoção de um modelo de dois grupos de 10, em jogos de ida e volta, com quartas, semi e final (claramente o torneio mais excitante do segundo semestre) e a Série D passou a ser o térreo do imenso futebol nacional, atualmente com 68 equipes, em grupos de 4 e mata-matas.

Vale contar que a aplicação dos pontos corridos em 2003, com suas 46 datas à época, custou o fim dos torneios regionais, que concentravam clubes de diversos estados. A maior vítima foi a Copa do Nordeste, único caso que tinha retorno financeiro considerável para os seus clubes. Isso será tema de outro texto dessa coluna. Mas guardem na memória que isso faz parte de uma guerra entre uma pretensa liga de clubes e a CBF (como se desenha de novo).

Nessa oportunidade vamos discutir o calendário lançado pela CBF em 2017 a partir de alguns diferentes pontos. De antemão informo que não vou entrar na discussão de como deve ser o modelo do campeonato brasileiro, seja porque é demasiado polêmico e inconclusivo (alô modelo piramidal da Carsughi Mania!), seja porque o maior problema do futebol brasileiro hoje é a concentração de renda. Se tivéssemos pontos corridos com a mesma discrepância orçamentária de hoje a parada seria igualmente sem graça.

A “questão” do calendário

As motivações políticas respaldadas na anatomia da reprodução do poder dentro da CBF faziam com que a entidade máxima do futebol brasileiro jamais questionasse a existência dos campeonatos estaduais. As federações não querem perder relevância e muito menos sua fonte de renda, e por conta disso, manter os estaduais vivos cumpre um papel político central nos planos de quem deseja comandar o futebol brasileiro.

Veja que estamos falando de torneios que são criticados desde o final dos anos 1990 por serem deficitários. O futebol brasileiro se nacionalizou e as pretensões dos torcedores também. Mesmo no único campeonato estadual que não dá prejuízo financeiro aos seus participantes, que é o de São Paulo, o desinteresse do torcedor é tremendo. E é ele o termômetro da parada toda.

Mas como o colégio eleitoral da CBF é formado pelas 27 federações e mais os 20 clubes da Série A, a outra mão precisa ser lavada. Aí talvez resida o maior problema do futebol brasileiro: os nós dos acordos políticos, aliados a uma impressionante incapacidade em dar respostas às diferenças entre os estados, vem causando uma situação em que apenas 52 clubes brasileiros – dos 128 que disputarão as Séries A, B, C e D – ficarão em atividade já no dia 10 de setembro de 2017. Todo o resto não terá qualquer competição a disputar.

Num país com 27 unidades federativas, esse número representa média de menos do que 2 clubes por estado. Considerando a realidade concreta, clubes de apenas 15 estados tiveram atividades futebolísticas após o dia 2 de outubro de 2016, quando se encerrava a primeira fase da Série C. Isso significa ficar dois meses sem atividades antes do fim oficial do calendário nacional, quando começam as férias dos atletas. Quando muito, esses outros estados terão algumas copas secundárias quase amadoras a nível estadual.

Isso acontece porque tanto os clubes do Amapá – que se classificam para disputar seis jogos da primeira fase da Série D, raramente se classificando – estão submetidos a uma estrutura cronogramática que também deve servir a um clube de ponta de São Paulo, que disputa Libertadores, fases finais da Copa do Brasil e uma Série A com 38 jogos.

Com isso tudo, chegamos ao caso 2017. As séries A e B, que possuem calendário fixo para todos os 40 clubes que as compõem, acabam tendo que encaixar seus 38 jogos entre a metade de maio e o final de novembro. Ao mesmo tempo em que a Copa do Brasil é disputada, e agora, com o acréscimo das datas mais espaçadas da Taça Libertadores e da Copa Sulamericana (uma espécie de segunda divisão do continente); após as mudanças impostas pela Conmebol para o ano que vem.

Pior para os menores

As séries C e D vão acabar ainda mais cedo do que em 2016. O terceiro escalão do futebol brasileiro passará a começar junto às séries A e B, quando tinha um intervalo de cerca de duas semanas. Com a manutenção das suas 24 datas (para os finalistas), a Série C se encerrará no dia 22 de outubro; diferente do dia de 6 de novembro de 2016.

O Guarani, clube tradicional que já foi campeão brasileiro, optou por rescindir o contrato de todo o seu elenco após o término da Série C, quando foi vice-campeão no início de novembro. A justificativa da diretoria era evitar gastos, mas fica claro que o clube será prejudicado na tentativa de formação de um novo elenco para o campeonato paulista de 2017. Mas faz sentido. Sem jogos, não há bilheteria, não há patrocínio, não há porque manter jogadores sob contrato para ficar 3 meses parado.

Mas mesmo o clube rebaixado na Série C teve a oportunidade de disputar ao menos 18 jogos, sendo nove deles em seus domínios, ao longo de quatro meses. A situação mais complicada fica por conta dos clubes que entraram na Série D, só disputaram seis jogos, e depois fecharam suas portas por longos cinco meses. Até que se inicie o campeonato estadual do ano seguinte.

Nesse sentido o calendário especial feito para os estados nordestinos – para dar conta de estabelecer as datas da Copa do Nordeste, que ocorre em paralelo aos estaduais e às primeiras fases da Copa do Brasil – contou com um dos poucos pontos positivos desse calendário de 2017.

A CBF deu autorização ao uso de três datas “opcionais” para os estaduais nordestinos. Por conta das regras recentes de garantia de 30 dias de férias, mais 25 dias de “pré-temporada”, os estaduais só poderiam se iniciar no final de janeiro.

Mas, como já dito antes, apenas 40 clubes realmente jogam até o início de dezembro, fazendo com que essa regra só seja necessária para uma parcela quase ínfima dos atletas inscritos nos quase 250 clubes participantes da primeira divisão de cada um dos 27 estaduais. Essa autorização vai permitir que alguns estaduais se iniciem já no dia 15 de janeiro, cerca de dez dias e três datas antes do previsto.

Há um modelo ideal?

Deve haver, mas não se trata de criar algo para se tornar eterno. O Brasil é um caso absolutamente particular no mundo do futebol e, muito infelizmente, insistimos há décadas a procurar “modelo ideal” em países totalmente diferentes do nosso.

O único País com as dimensões geográficas com clubes de grande torcida com quase quatro mil quilômetros de distância entre si são os Estados Unidos. Lá, por motivações históricas, os seus torneios são pensados de forma regionalizada nas primeiras fases, as chamadas “conferências”. Esse modelo só poderia ser comparado ao que foram os torneios nacionais dos anos 1959 a 1970, guardadas as suas devidas proporções.

No Brasil, seguindo a ideia de “liga” dos modelos europeus, optamos por fazer um torneio que exige um grande “aperto” no calendário, com viagens muito longas. Ao mesmo tempo em que temos uma “primeira divisão” muito pequena, com apenas 20 vagas, para os mais de 40 clubes de massa que possuímos de norte a sul, que abrilhantariam o futebol nacional. Mas para muitos dos ditos “especialistas” a solução passa pela adequação do nosso calendário ao verão europeu: início de temporada em julho e final em junho do ano seguinte. Algo totalmente sem sentido.

Talvez essa “temporada europeia” fosse uma solução de curto prazo para essa ausência de calendário dos clubes de menor porte. Caso as primeiras fases dos estaduais – com os clubes ausentes das Séries A, B e C – ocorressem no segundo semestre, com a sua retomada nos primeiros meses do ano seguinte, poderíamos almejar um acordo na discussão sobre a viabilidade ou não dos estaduais.

Esses torneios existem a mais de 100 anos em muitos estados, e não podem ser extintos sem causar um ferimento grave na história do futebol brasileiro. Mas não podem continuar ocupando 20 datas dos calendários de clubes que disputam outros três ou quatro torneios no ano. É preciso pensar nesse “desmembramento”, deixando de insistir no “confinamento dos estaduais”, que expliquei ainda no começo do texto, forçando sua realização em paralelo em estados com realidades totalmente distintas como Rondônia e Rio de Janeiro.

O futebol brasileiro precisa ser pensado em sua totalidade e na forma de cadeia produtiva de uma indústria cultural. Manter seu funcionamento pleno e financeiramente sustentável desde a base da sua pirâmide traz benefícios diretos para o seu topo, além de permitir a geração de milhares de empregos em todos os rincões do país, muito além dos jogadores. São esses torneios que também proporcionam a formação de novos atletas e a participação de milhões de brasileiros de fora das grandes cidades do país nesse mundo mágico que é o futebol.

 

 

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