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A história do mais importante jogo que não houve

Texto de Marcelo Mendez publicado no jornal ABCD Maior

Transmissão do futebol pela TV explica o que houve no Paraná durante o Atletiba que não houve. Voltemos no tempo para entender…

 

O ano era 1986. O futebol Brasileiro, recém eliminado na Copa do Mundo realizada no México, chegava ao fundo do poço. O Campeonato Nacional chegava ao numero de 80 participantes, as séries não eram organizadas, a bagunça era generalizada, os jogos corriam a esmo sem maiores informações e após dezenas de séries e eliminatórias, o torneio chegou a sua fase decisiva e a final. Disputada em 25 de Fevereiro de 1987!

Era mais do que óbvio que algo precisava ser feito e para o ano de 1987 os clubes se juntaram, e saíram com uma nova entidade de nome “Clube dos 13” com as 13 agremiações principais do futebol nosso. O grupo surgiu então com uma proposta de tentar organizar o Campeonato e criaram a Copa União, que em seu módulo principal, seria disputada por incríveis 16 clubes.

Mas para dar certo era necessário alguém para pagar conta, chegou primeiro a Coca Cola que bancaria as camisas dos clubes e ainda faltava alguém para divulgar a coisa. E então, como diria os Racionais, “era a brecha que o sistema queria…” – A Rede Globo de Televisão é chamada para tal…

Com suas várias câmeras, gruas, replays e afins, a emissora passa a deter e determinar o que a gente podia e o que não podíamos ver em se tratando de jogos. Aos domingos, quatro jogos eram selecionados para que nós, a plebe, ligassemos la para uns telefones e escolhesse um deles para assistir.

Lógico que não eram os jogos principais. A globo fazia o que queria, os clubes eram omissos, precisavam da grana da TV e a nós, bom, “Assiste aí e não reclama”. Era então o começo do que pioraria bem mais com o tempo…

A Consolidação do Monopólio

Com as crises dos anos 90, com as péssimas gestões dos clubes, quase sempre endividados, pessimamente geridos, toscamente administrados, os tais clubes viram-se reféns de cotas de televisão, passando a ser esse, um dinheiro quase que fundamental para as contas principais. Verbas anos antecipadas, grana financiada, alma vendida, tal e qual num blues; Os clubes passaram a comer nas mãos da Rede Globo, que se consolidou graças as omissões dos “parceiros” endividados, do resto da imprensa que pouco fala sobre o assunto e do poder público que faz vistas grossas para essas relações além é claro, de um processo nefasto de elitização nos estádios que cada vez mais afasta o torcedor comum dando a ele como “opção” sentar em frente a televisão e ver a Globo.

O Levante

O que aconteceu no Paraná é uma prova cabal de que monopólios fazem o que querem e dane-se todo o resto. A coisa começou porque a Globo, dona dos direitos de tudo em se tratando de futebol, sem maiores explicações, ofereceu em 2017 pela transmissão dos jogos dos clubes em questão, a quantia de 1 milhão de reais, em detrimento dos 2,2 milhões pagos em 2016.

Uma quantia irrisória se pensarmos no quanto que a empresa fatura apenas em propaganda dos mesmos jogos. A federação Paranaense, arregada com o monopólio, usou de um recurso estapafúrdio de “credenciamentos” para proibir a transmissão via internet que os clubes fariam e estes, se recusaram a jogar em um ato inédito nesses anos todos de império. Oras meus caros…

O mundo real e o mundo segundo os monopólios

Transmissões de futebol por internet pelo mundo, não são novidades. Na Espanha, por exemplo, sem brigas entre federações e clubes, os jogos da Copa do Rei podem ser acompanhados de graça via facebook. A mesma plataforma transmite ao vivo em São Paulo, os jogos do Campeonato Paulista Feminino de futebol. Na Inglaterra, a BT Sports transmitiu em seu canal do youtube as finais da Liga Europa e da Liga dos Campeões em 2016. E porque a estranheza por aqui? Simples…

Não me causa espanto ver que em um Brasil doente, truculento, raivoso, não seja possível se entender que a internet é (ou deveria ser) um importante fator para democratização de conhecimentos e informações. Não da mais para impor tudo e mais hora, menos hora, as coisas vão mudar. O Paraná mostrou ontem um bom caminho para tal…

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Eu e o Mário Sérgio…

Vos apresento Marcelo Mendez, o último da tríade de grandes monstros sagrados que toparam colaborar com a Destilaria da Bola. Ele que é jornalista esportivo experiente, de longa data (não, Marcelo, não o estamos chamando de velho=) e tem uma coluna semanal no jornal ABCD Maior sobre futebol de várzea, onde este texto foi publicado originalmente. Parmerista de criancinha, Marcelo presta sua homenagem ao craque Mário Sérgio, uma das vítimas do acidente que vitimou jornalistas, tripulação, comissão técnica e jogadores da Chapecoense. Uma verdadeira obra de arte que merece ser lida e relida.

Eu e o Mário Sérgio….

Por Marcelo Mendez

“Meu maior divertimento de menino era ver o Mário com 10 do Palmeiras”

Teve uma noite em casa, em 1984, que chamei meu pai, como sempre fazia para irmos ao Parque Antártica ver o Palmeiras em um jogo do Campeonato Paulista que se iniciava. O velho que estava lendo um livro que eu lembro bem, do Celso Furtado, parou e me falou:

Mário Sérgio morreu a caminho da Colômbia, quando comentaria a final da Copa Sul-Americana na FOX Sports. Foto: Divulgação FOX

Mário Sérgio morreu a caminho da Colômbia, quando comentaria a final da Copa Sul-Americana na FOX Sports. Foto: Divulgação FOX

“Sabe filho, acho que já tá na hora de você começar a ir ao estádio sozinho. Já tá com 14, é esperto, sabe andar bem em São Paulo e vai ser uma experiência muito boa para você.”

“Sério??? E a mãe?”

“Bom, deixa que me viro com ela…”

Não deu para ir no jogo do domingo, mas na semana seguinte, após as argumentações de meu pai e do saudoso tio Bida, minha mãe tomou uns calmantes e me deixou ir. O jogo seria no Pacaembu, tio Bida deu uma grana pro cachorro quente e guaraná, o pai deu o dinheiro do ingresso e da condução e lá fui eu assistir Palmeiras e América de Rio Preto pelo Paulistão.

E a única coisa que me lembro era do Mário Sérgio.

O classudo canhoto, dono da camisa 10 verde, jogava o fino da bola, dava soneto ao invés de apenas passes, encheu Luizinho Lemos de bola, o Palmeiras venceu, foi um espetáculo e dali para frente meu maior divertimento de menino era ver o Mário com a 10 do Palmeiras.

Mas aí vieram os homens e estragaram a festa…

Mário Sérgio foi pego em um exame de doping, o julgamento deu 4 a 4 e mesmo assim o Palmeiras foi punido, perdemos os pontos, o campeonato e o camisa 10. Mário se foi e eu fui com ele.

Por onde o Vesgo andou, eu o segui por profissão de fé. Eu era um mendigo do futebol, de pires na mão, clamando por um pouco de arte e o Mário sempre me deu aos montes. Em 1988, vi uma tal Copa Pelé de Masters do Luciano do Vale só para vê-lo jogar, só para eu poder me encantar um pouco e ele sempre me encantou.

Passou o tempo.

Mário Sérgio se tornou comentarista e eventualmente a gente se esbarrava por aí. Sempre muito gentil, muito sacana, bem humorado, cheio de causos e histórias. Tínhamos uma primeira conversa para marcar uma entrevista para o Museu da Pelada e então, bem…

Um voo para Antioquia, na Colômbia, botou um ponto final em tudo. De você agora, meu camisa 10, só lembro do tempo que você me fez feliz. De quando você olhava para um lado e metia a bola para o outro. Um tempo que fui muito feliz, que eu era menino que, imagina, “até ia sozinho para São Paulo!”

Ia para te ver jogar, 10.

Agora você vai jogar para outros lados, vai para outros lados ae. Vai na fé, craque. É duro te escrever com a lágrima que escorre a cara agora, mas eu sei que por onde você for você estará bem.

Você foi grande na vida, Craque.

Vai em paz e muito obrigado, Mário Sérgio.

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*Após se aposentar como jogador, Mário Sérgio foi técnico do São Caetano entre 2002 e 2003 e depois virou comentarista.

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