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Gabriel Uchida: “se você realmente ama futebol, você odiou a Copa do Mundo”

 

Nota da Destilaria: é sempre bom ouvir um profissional como Gabriel Uchida, com quem tive o prazer e a honra de fazer uma reportagem na Cracolândia em 2014. O cara é incansável: viaja o mundo, se mete nos grandes buracos suburbanos sem medo e convive próximo de pessoas que para o grande público são extremamente violentas e perigosas, mas que na realidade são apenas pessoas com seus defeitos e qualidades. Na entrevista abaixo, ele conversou com uma revista estrangeira sobre seu trabalho documentando o futebol e aproveitou para dar umas boas alfinetadas nas autoridades brasileiras. De um ponto de vista técnico, o nonsense venceu. Afinal, traduzir para o português uma entrevista feita em inglês com um cara que é brasileiro é, no mínimo, sem noção mesmo. Boa leitura!

 

Publicado em inglês em 27 de fevereiro de 2017 pela Pickles Magazine

Traduzido por Raphael Sanz para a Destilaria da Bola

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O fotógrafo paulista Gabriel Uchida viajou o mundo, de Cuba à Etiópia, documentando a cultura futeboleira e os torcedores que amam o esporte pelos lugares onde passou. Ele foi elegante e nos respondeu a algumas perguntas.

Pickles Magazine: No teu site, você se refere ao Hunter S. Thompson e seu estudo sobre os Hells Angels, mas você prefere torcidas de futebol. O que há nas torcidas organizadas que te fazem lembrar os Hells Angels? 

Gabriel Uchida: Hunter S. Thompson é um dos meus escritores favoritos e uma grande referência para mim. Acho que os Hells Angels, as Torcidas Organizadas do Brasil e as torcidas e hooligans ao redor do mundo ainda não foram muito bem compreendidos. Não sou o advogado deles, meu trabalho não é defendê-los, mas eu tento mostrar o que realmente acontece para além dos clichês e preconceitos. E honestamente, é um mundo muito interessante, eu posso dizer que aprendi muito com os torcedores organizados, hooligans e ultras.

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Pickles Magazine: Você viajou o mundo fotografando torcedores, pôde notar similaridades e diferenças na maneira que os torcedores apoiam seus times em diferentes países? 

Gabriel Uchida: Em uma maneira bem simples: torcedores Latino Americanos são bem caóticos, no Leste Europeu são tão organizados que parecem exércitos, na Europa Ocidental são bem criativos e na América do Norte ainda estão apenas começando a sua “soccer culture” então estão copiando coisas que gostam de outros países. Também fotografei torcedores na Etiópia e esses caras são extremamente felizes e amam cantar e dançar.

Pickles Magazine: Suas fotos são incrivelmente íntimas, você se coloca bem no meio da ação… já se deu mal em meio ao clima do jogo ou em comemorações?

Gabriel Uchida: Tenho feito isso faz sete anos então tenho muitas histórias muito loucas. Certa vez eu estava em Montevideo, no Uruguai, para a final da Copa Libertadores. Era o Peñarol contra o Santos e eu viajava com os torcedores brasileiros. No caminho para o estádio o motorista de táxi ficou puto porque meus amigos estavam gritando, cantando e jogando cerveja nos outros carros, então ele sacou o revólver e começou a nos ameaçar. Naquela noite fomos atacados por torcedores do Peñarol e eu fui atingido por uma garrafa de vidro na perna. Ironicamente este também foi um dos melhores dias da minha vida porque sou torcedor do Santos e terminamos vencendo aquela final de Copa. Quando você está numa multidão de torcedores, mas torce para um time diferente, isso pode ser perigoso. O Corinthians venceu um campeonato contra o Santos e muitos caras estavam me abraçando na comemoração. Felizmente eu estava muito focado em conseguir boas fotos. Há ainda uma outra história envolvendo meu clube: uma vez eu estava viajando com os torcedores do Palmeiras para um jogo de visitante contra o Santos e o nosso ônibus foi atacado na rua. No final da briga os palmeirenses estavam me zoando porque eu fui basicamente atacado pelos torcedores do meu próprio time.

Pickles Magazine: A Inglaterra viu um declínio no hooliganismo e na violência envolvida com o futebol nos últimos 20, 30 anos e hoje não é mais o mesmo problema que um dia foi… o que pode dizer da cultura hooligan que ainda aparece no Brasil?

Gabriel Uchida: Para entender o hooligan brasileiro é preciso primeiro lembrar que este é um país pobre e violento. De fato, eu diria que nós vivemos uma guerra não oficial porque há mortes e muitas outras coisas negativas acontecendo diariamente. Então é basicamente o mesmo no futebol. E há um outro ponto complicado em toda essa situação: a polícia brasileira. São muito agressivos e pouco organizados. Alguns resultados de um recente estudo feito em São Paulo: 60% da população não confia na polícia; a média diária de letalidade policial é de 1,7 pessoa por dia. Temos uma expressão que ilustra bem essa cena: um grande barril de pólvora sempre pronto e prestes a explodir.

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Pickles Magazine: Sua série de fotos enfocando os torcedores organizados é incrivelmente pessoal, como você conseguiu acesso para clicar imagens tão íntimas?

Gabriel Uchida: Tenho trabalhado com futebol há sete anos, então conheço um monte de gente, e eles respeitam meu trabalho porque entendem meu projeto. Existe confiança dos dois lados. Nunca estive lá para criar factoides sensacionalistas ou para dizer que todos eles são apenas criminosos. Sempre tento entender a cultura deles e é por isso que eles me respeitam. Além disso, eles têm sido vítimas de violência policial em muitas ocasiões e eu fui o único que mostrou a história como ela é, enquanto a mídia de massa estava dizendo que eles eram os caras maus e ponto final. Uma vez, um torcedor muito bêbado ficou puto comigo sem razão. Ele tentou me atacar e apenas alguns segundos depois havia muitos outros hooligans batendo nele. Eu não pedi por aquilo, eles simplesmente viram a situação e decidiram me ajudar porque sabiam qual era a do meu trabalho. No final das contas, eles até mesmo explicaram o meu projeto para o beberrão e ele passou o jogo inteiro me pedindo desculpas.

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Pickles Magazine: Pode falar sobre os impactos e legados da Copa do Mundo?

Gabriel Uchida: É fácil explicar o impacto da copa: se você realmente ama futebol, você odiou a Copa do Mundo. Ela mudou o nosso futebol de uma forma terrível, significa muito mais restrições para torcedores, ingressos mais caros e menos diversão. Imagina que temos um monte de comunidades pobres e essas comunidades não têm hospitais, escolas, nem qualquer infraestrutura básica. E ao invés de usar a grana para ajudar essas comunidades, usaram pra construir Arenas em lugares onde elas não eram necessárias – e muitas comunidades foram despejadas para a construção delas, deixando muitas pessoas sem ter para onde ir. A Arena Amazônia, por exemplo, foi construída em uma região longínqua onde o futebol é praticamente amador. É um lugar muito pobre que tinha em média 500 torcedores por jogo. Nada mudou exceto que agora eles têm uma arena pra 40 mil pessoas. E houve uma série de casos de corrupção envolvendo a Copa do Mundo e suas obras. Foi definitivamente algo horrível para o nosso povo como um todo, não apenas para torcedores de futebol.

Pickles Magazine: As fotografias da sua aventura cubana são incríveis… você foi pra lá a procura de futebol, achou o que esperava?

Gabriel Uchida: Já fui duas vezes para Cuba e eu realmente amei este país. A situação do futebol por lá é um pouco curiosa porque o povo ama o esporte mas as médias de público nos estádios são muito baixas. Há imagens de Messi, Neymar e Cristiano Ronaldo em toda parte, além de jovens e crianças jogando bola em toda esquina. Eu estava lá quando o Barcelona jogou contra o Real Madrid e toda Havana estava louca pela partida. Todos os bares e hotéis estavam lotados com gente assistindo ao jogo. Uma pesquisa sobre a ilha mostrou que 89,1% das pessoas com até 25 anos preferem futebol em relação ao baseball – que é considerado o esporte mais popular por lá. Mas o ponto nisso tudo é que a mídia de lá está exaustivamente mostrando a Champions League enquanto raramente dá atenção às competições locais. Os ingressos para os jogos são bem baratos mas isso não é suficiente. De toda forma, foi uma grande surpresa para mim conhecer a maneira como eles amam o futebol. Eu ainda conheci o técnico do La Habana FC e o filho dele se chama Romário por conta do ex jogador brasileiro.

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Visite a página do Gabriel Uchida e conheça melhor o seu trabalho.

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