Que façamos o sistema tremer!

 

Por Raphael Sanz

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O Império Romano era imbatível. Havia ganho inúmeras batalhas, nas mais diversas frentes e contra os mais diversos povos no esforço de determinar suas fronteiras. Aos dominados, a Lei Romana, tão estudada hoje pelos futuros juristas. Mas não só a Lei, como também o modo de vida e a cultura imperial eram impostos pela força das armas e da grana. Algumas tentativas de insurreição foram severamente esmagadas e todo aquele que se rebelava era desacreditado, taxado de “bárbaro”, “selvagem”, “animal” e, por fim, escravizado. Um belo dia o Império Romano começou a ruir. Godos e Germanos atacavam pelo norte, Hunos pelo leste e os Vândalos (eles mesmos) pelo sul. Não sou historiador e não sei em que nível esses ataques bárbaros foram coordenados, fato é que os povos e tribos de certa forma se uniram (conscientemente ou espontaneamente, me corrijam!) e derrubaram o invencível, porém decadente, império.

As tribos bárbaras não queriam necessariamente um evento de violência, a princípio. Queriam apenas a liberdade para viverem em seus territórios, com sua gente e suas culturas, sem precisarem se prestar submissas a Lei Romana. Mas como quem tá por cima não aceita a liberdade de quem está por baixo, não houve outra saída. E após longas e duras batalhas, o racionalismo imperial caiu de joelhos diante daqueles selvagens bruxos que eram tidos como o mal do mundo, apenas por quererem a liberdade.

O mundo de hoje, e o Brasil não poderia ser diferente, vive uma situação semelhante. Aquilo que convencionou-se chamar de “capitalismo” ou “sistema” nada de braçada em águas de mares nostruns contemporâneos. Impõe regras de conduta, de comportamento; empecilhos para os de debaixo se afirmarem e reprime com toda a violência possível e imaginária aqueles que manifestam dissenso. Fora do futebol temos inúmeros exemplos. Manifestações de junho de 2013 por exemplo: propondo um rompimento com o status quo acabaram reprimidas violentamente, com direito a olhos arrancados e tiros de balas letais em genitálias, para depois serem complemente desacreditadas e cooptadas pela cultura dominante. Hoje vemos direitos sociais e trabalhistas atacados em nome de um progresso econômico que não tem absolutamente nada a ver com bem estar social. Necessidades básicas como alimentação, habitação, água potável, transporte, saúde, educação, saneamento básico e lazer vão se transformando em privilégios que apenas patrícios imperiais têm o direito de gozar. E no futebol isto não é diferente.

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Especialmente em São Paulo, a capital financeira e econômica da província brasileira do grande império global, algumas brigas bem violentas entre as distintas tribos que vivem nessas terras, comumente chamadas de vândalas (mas que coincidência, não?) justificaram a ofensiva imperial contra as mesmas. Desde idos de 1995 diversas práticas destas tribos vem sendo sistematicamente criminalizadas em uma escalada que faria qualquer Júlio César de vidas passadas parecer um amador.

Primeiro as bandeiras, depois os fogos, depois as vestimentas típicas e tradicionais, em seguida a batucada. Chegou-se ao ponto de vermos legionários armando cercos e bloqueando ruas no entorno dos sagrados templos destas tribos, impedindo sua aproximação. Afinal, todas essas práticas bárbaras “não cabem mais no futebol”, diria um medíocre publicitário imperial. E de fato proibiram tudo, menos a violência. Afinal de contas, violência não se proíbe com leis ou ainda mais violência daqueles que detêm seu monopólio. A única forma de coibir a violência é construir a paz; um processo longo e lento; doloroso e permanente que traz frutos silenciosos, aos poucos, mas que um dia poderá ser notado e comemorado.

Vimos falsos arautos e fajutos paladinos da paz e da justiça, todos de péssimo gosto, se promoverem com esta violência. E como um pescador, que vive da pesca, não quer o fim da vida aquática; estes vermes e abutres que se promoveram, ganharam poder, notoriedade, prêmios e grana com a violência também não têm a menor intenção de construir a paz. Porque a história já mostrou que é mais vantajoso vermos as tribos se matando entre si, do que conversando em paz. Afinal, a união entre os povos; consciente ou não, articulada ou não; foi o que levou abaixo o poder e a opressão romana no passado.

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Ainda não chegamos ao estágio das novas invasões bárbaras; mas estamos sim naquele momento em que os tais vândalos, hunos e godos do presente querem paz e liberdade. E o que está unindo nossas tribos futebolísticas infelizmente foi a tragédia aérea que ocorreu na madrugada da última terça-feira com o plantel da Chapecoense, e que também vitimou jornalistas e tripulação.

Eis que hoje, horas antes da publicação deste texto escrito no calor deste momento que tem tudo para ser histórico, as principais torcidas organizadas dos quatro grandes clubes de São Paulo (com reforço de torcedores do Santo André) se uniram na porta do Pacaembu, templo venerado pelas quatro grandes religiões do nosso futebol para prestar uma homenagem à Chapecoense, aos seus mortos e a sua torcida. Mas além das homenagens, vieram pedir paz e união como forma de se fortalecer na luta pela sonhada liberdade.

“Vivemos em um país que ano passado teve 60 mil assassinatos. Então, a sociedade é violenta, não é só a torcida organizada, somos apenas um reflexo daquilo que acontece na sociedade. Outra coisa: queremos trazer de volta a alegria ao futebol. O futebol tá sem graça, é proibido bandeira, proibido tambor, papel picado e também o próprio torcedor organizado de ir ao estádio. Isso nos une, e aproveitamos esse episódio da Chapecoense para fazer esta união. Como você pode ver, não tem nenhum policial aqui. Nem um. E estamos aqui em paz, frente a frente. Então é isso, a repressão só faz aumentar a violência. Precisamos é de festa e de alegria. A rivalidade tem de continuar existindo senão não existe futebol, agora, o cara pode ser meu adversário sem ser meu inimigo mortal, eu não quero matar ele por causa disso. E a maioria pensa assim. Agora, se fechar qualquer quarteirão paulistano haverá lá uma pessoa violenta, de Torcida Organizada ou não, porque a sociedade é violenta como um todo. E nós estamos cansados dessa criminalização que fazem com as T.O.s. E por que fazem isso? Porque ela luta, reivindica, briga com o dirigente ladrão, com a globo, com a CBF, com o ladrão da merenda. É essa a repressão que vem pra cima da gente e estamos querendo mostrar que é possível uma união, mantendo a rivalidade, contra o futebol moderno e a favor do povão outra vez tomando conta dos estádios”, afirmou Chico um representante da Gaviões da Fiel na praça Charles Miller, com toda a sabedoria que emana da barba branca e dos cabelos brancos que ostenta.

“Já temos conversado entre as diretorias faz um tempo, e chegamos a conclusão que o futebol é festa, é paixão, e estão nos tirando esse direito, muitas vezes por causa de uns problemas internos. Então nos solidarizamos com esse caso da Chapecoense e não tem como fugirmos desse eixo humanitário. E se pra vocês essa união é uma surpresa, para nós não é, porque tem sido semeada à base de muito trabalho e vamos continuar com isso para os próximos anos”, afirmou um representante da Mancha Verde que emendou: “muitas vezes a violência acontece porque a rapaziada não tem mais direito a lazer, nem a cultura e nem ao estádio, com tudo banido, inclusive a festa na arquibancada, então acabam praticando a violência como um subterfúgio, mas estamos tentando reverter isso e trabalhar para esse bem maior que é a paz”. Ele terminou dizendo que deixou o orgulho de clube em segundo plano em prol de algo maior.

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Dois torcedores de velha guarda que se conheceram em uma briga e hoje são amigos, o Chico da Gaviões e um outro senhor da Jovem do Santos conversavam relembrando de lutas passadas, não entre torcidas, mas contra a ditadura militar. E o santista sintetizou: “O torcedor unido é forte e eles tem medo dessa união. E eu tenho certeza que essa união veio pra ser selada. Parabéns a todos os dirigentes e a todo mundo que tá aqui hoje”, definiu com o ar de serenidade que só a idade, a experiência e a esperança podem trazer consigo.

Se essa união permanecerá ainda não sabemos. Há muitos céticos, como eu, que preferem esperar para ver. Mas é inegável que o que aconteceu hoje no Pacaembu já está marcado nos corações de muita gente de arquibancada: de organizada ou não. Resta ver até onde isto irá. Espero, do fundo do meu coração alviverde, que vá longe. E que como Spártacus – líder de uma rebelião de escravos no velho Império Romano – falou um dia, “façamos o império tremer!”

É para isto que torcemos. Para termos liberdade. E aos que nos negam a liberdade e se aproveitam das nossas tragédias, espero que só lhes restem a lata de lixo da história! Mas isso dependerá apenas de nós, não deles.

 

Observação: Pra quem quiser ver imagens desta tarde, recomendo muito a cobertura ao vivo do Esporte Interativo, um canal que recém fechou os direitos de transmissão com Santos e Palmeiras e que tem um grande amigo no time de repórteres. Neste link você pode acompanhar todas as aspas que estão nesse texto e muitas outras falas que vão no mesmo sentido.

 

Viva a Mancha Verde!

Viva a Gaviões da Fiel!

Viva a Jovem do Santos!

Viva a Independente!

Viva a torcida do Santo André!

Viva as Torcidas Organizadas!

E viva o futebol brasileiro!

Para Sempre Chapecoense!!!

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Eu e o Mário Sérgio…

Vos apresento Marcelo Mendez, o último da tríade de grandes monstros sagrados que toparam colaborar com a Destilaria da Bola. Ele que é jornalista esportivo experiente, de longa data (não, Marcelo, não o estamos chamando de velho=) e tem uma coluna semanal no jornal ABCD Maior sobre futebol de várzea, onde este texto foi publicado originalmente. Parmerista de criancinha, Marcelo presta sua homenagem ao craque Mário Sérgio, uma das vítimas do acidente que vitimou jornalistas, tripulação, comissão técnica e jogadores da Chapecoense. Uma verdadeira obra de arte que merece ser lida e relida.

Eu e o Mário Sérgio….

Por Marcelo Mendez

“Meu maior divertimento de menino era ver o Mário com 10 do Palmeiras”

Teve uma noite em casa, em 1984, que chamei meu pai, como sempre fazia para irmos ao Parque Antártica ver o Palmeiras em um jogo do Campeonato Paulista que se iniciava. O velho que estava lendo um livro que eu lembro bem, do Celso Furtado, parou e me falou:

Mário Sérgio morreu a caminho da Colômbia, quando comentaria a final da Copa Sul-Americana na FOX Sports. Foto: Divulgação FOX

Mário Sérgio morreu a caminho da Colômbia, quando comentaria a final da Copa Sul-Americana na FOX Sports. Foto: Divulgação FOX

“Sabe filho, acho que já tá na hora de você começar a ir ao estádio sozinho. Já tá com 14, é esperto, sabe andar bem em São Paulo e vai ser uma experiência muito boa para você.”

“Sério??? E a mãe?”

“Bom, deixa que me viro com ela…”

Não deu para ir no jogo do domingo, mas na semana seguinte, após as argumentações de meu pai e do saudoso tio Bida, minha mãe tomou uns calmantes e me deixou ir. O jogo seria no Pacaembu, tio Bida deu uma grana pro cachorro quente e guaraná, o pai deu o dinheiro do ingresso e da condução e lá fui eu assistir Palmeiras e América de Rio Preto pelo Paulistão.

E a única coisa que me lembro era do Mário Sérgio.

O classudo canhoto, dono da camisa 10 verde, jogava o fino da bola, dava soneto ao invés de apenas passes, encheu Luizinho Lemos de bola, o Palmeiras venceu, foi um espetáculo e dali para frente meu maior divertimento de menino era ver o Mário com a 10 do Palmeiras.

Mas aí vieram os homens e estragaram a festa…

Mário Sérgio foi pego em um exame de doping, o julgamento deu 4 a 4 e mesmo assim o Palmeiras foi punido, perdemos os pontos, o campeonato e o camisa 10. Mário se foi e eu fui com ele.

Por onde o Vesgo andou, eu o segui por profissão de fé. Eu era um mendigo do futebol, de pires na mão, clamando por um pouco de arte e o Mário sempre me deu aos montes. Em 1988, vi uma tal Copa Pelé de Masters do Luciano do Vale só para vê-lo jogar, só para eu poder me encantar um pouco e ele sempre me encantou.

Passou o tempo.

Mário Sérgio se tornou comentarista e eventualmente a gente se esbarrava por aí. Sempre muito gentil, muito sacana, bem humorado, cheio de causos e histórias. Tínhamos uma primeira conversa para marcar uma entrevista para o Museu da Pelada e então, bem…

Um voo para Antioquia, na Colômbia, botou um ponto final em tudo. De você agora, meu camisa 10, só lembro do tempo que você me fez feliz. De quando você olhava para um lado e metia a bola para o outro. Um tempo que fui muito feliz, que eu era menino que, imagina, “até ia sozinho para São Paulo!”

Ia para te ver jogar, 10.

Agora você vai jogar para outros lados, vai para outros lados ae. Vai na fé, craque. É duro te escrever com a lágrima que escorre a cara agora, mas eu sei que por onde você for você estará bem.

Você foi grande na vida, Craque.

Vai em paz e muito obrigado, Mário Sérgio.

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*Após se aposentar como jogador, Mário Sérgio foi técnico do São Caetano entre 2002 e 2003 e depois virou comentarista.

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O dia em que o futebol morreu

Mais uma obra de arte de Gabriel Brito, publicada no Correio da Cidadania e republicada aqui. 

You’re mine and we belong together

Yes, we belong together, for eternity

You’re mine, your lips belong to me
Yes, they belong to only me, for eternity

You’re mine, my baby and you’ll always be
I swear by everything I own
You’ll always, always be mine

You’re mine and we belong together
Yes, we belong together, for eternity

Ritchie Valens

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“Nós vivíamos numa harmonia muito grande. Ontem de manhã, eu me despedindo, eles me diziam que iam em busca para tornar esse sonho uma realidade. Compartilhamos esse sonho, muito emocionados. E esse sonho acabou essa madrugada”. Com essas poucas palavras o presidente do Conselho da Chapecoense, Plinio David, definiu a interrupção dos anos felizes.

Tragédias que fogem ao controle humano sempre trazem nossos milenares questionamentos sobre os mistérios da existência, a efemeridade, senão banalidade, da vida.

Somos levados a pensar que esse dia de trabalho e estresse não vale nada, que aquelas discussões aparentemente tão profundas e transcendentes não passam do mais imbecil desperdício de tempo, que, no fim das contas, caminhar pelo lado certo ou errado de acordo com nossos princípios não tem tanta diferença.

Ao fim e ao cabo, somos mera poeira cósmica e só resta aproveitar a estadia.

Não há parábolas da vida e da fé no oculto, essa tremenda invenção nascida justamente do medo de desaparecer para sempre sem a menor apelação, para consolar quem voava para a coroação de todo um auge, o mais clássico conto de fadas.

Pois veio o indizível e aquele dia, melhor do que os mais íntimos sonhos do torcedor já tinham projetado, jamais poderá ser vivido.

E quanto mais se pensa em tudo que este clube veio construindo fora e realizando dentro de campo, maior a impotência e o desalento.

Não era/é apenas um clube que trabalhava direitinho de acordo com os manuais das boas práticas. Era/é o time de seu povo, da sua comunidade, que não se deixara deslumbrar com os belos e recém-frequentados salões das primeiras divisões e passava a adotar novas maneiras.

A Chapecoense e sua presença no meio dos grandes fez lembrar que o futebol ainda podia ser movido a sentimento e pertencimento, que para chegar ao mais alto não é obrigatório arrancar-se das próprias raízes – no máximo, quando algum regulamento estúpido ordena.

Fez lembrar que os comuns e os modestos podem fazer melhor, subir aos distintos olimpos da vida, dançar com a mais bonita.

Vazio impreenchível, não há reparação, material ou imaterial. O ingrato destino colocou a Chape ao lado de outros gigantes e na finita eternidade do futebol pelo mais nefasto dos motivos.

Foi o pior dia dos 120 anos de história do futebol brasileiro e nunca mais seremos os mesmos.

 

Gabriel Brito é jornalista e editor-adjunto do Correio da Cidadania.

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Força Chape!

Por Raphael Sanz

Publicado também no Correio da Cidadania.

Nunca dei muita bola pra Chapecoense. Era apenas um “timinho” que estava dando um trabalho na primeira divisão, mas logo a deixaria. Ledo engano. Gosto das cores, mas quando golearam o meu Palmeiras por 5 a 1 na Arena Condá, no ano passado, aí sim peguei birra. Mas, sinceramente, nunca dei muita importância. Apenas recentemente comecei a prestar mais atenção a este clube por conta das campanhas nas Copas Sul-Americanas e me impressionou sua história recente.

O clube, fundado em 1973, faz aniversário em 10 de maio, um dia depois deste que escreve. Na época de sua fundação como clube amador, onde permaneceu por pouco tempo, a cidade de Chapecó vivia uma espécie de crise no futebol. Clubes mais antigos como o Atlético Clube Chapecó, Independente Futebol Clube, Grêmio Esportivo Comercial e Guayracá Futebol Clube já estavam em amplo processo de decadência, e os grandes times de São Paulo, Rio e Paraná fatiavam, ou tentavam fatiar, os corações de Chapecó. A 10 de maio de 1973, torcedores do Atlético e do Independente (Heitor Pasqualotto, Valdir Pelisser, Lorário Immich, Vicente Delai e Altair Zanella) resolveram fundir ambos os clubes e assim criaram a Associação Chapecoense de Futebol. Immich foi o primeiro presidente.

E no amadorismo dos primeiros anos o clube construiu e solidificou sua identidade com a cidade do oeste catarinense. Seu primeiro time era composto na totalidade por atletas amadores citadinos. Profissionalizado, o primeiro título estadual veio já em 1977. Após 26 vitórias, 12 empates e 8 derrotas, o clube venceu o Avaí por 1 a 0 no jogo derradeiro do campeonato estadual e vestiu sua primeira faixa de campeão. Entre 1978 e 79, teve uma breve passagem pela elite do futebol brasileiro, mas sem a contundência dos dias atuais.

Em uma busca incessante pelo bicampeonato estadual, acabou perdendo o título para o Joinville em 78 em um dos campeonatos mais polêmicos já disputados no estado, com direito a desistência do Avaí. Em 1991, o bicampeonato novamente escapou, dessa vez pelas mãos do Criciúma de Luiz Felipe Scolari. Mas em 1996 o bi chegaria. Contra o Joinville. E com chuva de rojões de frente para o hotel onde dormia e se concentrava o rival do leste. Mais três títulos estaduais viriam: 2007, 2011 e neste trágico ano, de 2016, que já foi de alegrias para a Chapecoense, mas infelizmente terminou da forma que ainda digerimos.

Uma forte crise abateu a Chapecoense a partir de 2001, quando terminou na lanterna do estadual e precisou disputar uma seletiva para se manter no campeonato do ano seguinte. Em 2003, precisou mudar de personalidade jurídica para não decretar falência e passou a chamar-se Associação Chapecoense Kindermann/Mastervet, parceria que durou até o ano seguinte e serviu como suporte para montar a base que empregaria a retomada do clube como potência estadual. Já em 2005, uma nova diretoria assumiu o clube e empregou uma política de recuperação financeira que já no ano seguinte mostrou resultados, com a conquista da Copa Santa Catarina no segundo semestre.

Campeão Catarinense em 2007, a Chape não repetiu a dose em 2008, ficando em oitavo lugar no estadual e perdendo o direito de disputar a Série D do Brasileirão. Mas em 2009, com o vice-campeonato estadual, a Chape voltou ao Brasileirão, para de lá não mais sair. Ainda em 2009 chegou às finais da Série D, não foi campeã, mas subiu para a Série C, onde permaneceu até ser vice da mesma, em 2012. Em seu primeiro ano de Série B, surpreendeu a todos, e como o bicho papão que é, papou o vice-campeonato, elevando-se à Série A do Brasileirão de 2014. E a partir daí, todos sabemos o que veio pela frente. Boas campanhas na Série A, eliminação na Copa Sul-Americana para o River Plate em 2015 e, em 2016, finamente um clube catarinense chega a uma final internacional. A defesa de Danilo no último lance do empate contra o San Lorenzo é para a posteridade. Eis que, então, acontece o que aconteceu.

Não posso falar pelos torcedores da Chape, mas entendo o que pode representar pra eles. A imagem divulgada pela Folha da torcida rezando o Pai Nosso ao redor do estádio é muito comovente. Que maluquice é a vida. Comemoraram até a madrugada aquele empate, mas hoje, acredito que muitos prefeririam que o Danilo não tivesse salvo essa épica bola no último minuto do jogo. Bruno Rangel, entre os mortos, é o maior artilheiro da história do clube. Ananias, autor do primeiro gol do novo estádio do Palmeiras, também se foi. Assim como o técnico Caio Jr, Cleber Santana e muitos outros. Perdas e mais perdas. Vidas interrompidas. Tristeza infinita.

Sem muito mais o que dizer, apenas lamentar, a Destilaria da Bola buscou contar, de forma bem resumida, um pouco da história deste pequeno grande clube. Pequeno por ser de uma cidade pequena, com pouca grana e jogadores modestos. Grande por toda a história que construiu, apesar das adversidades.

Lamentável, digna de nota odiosa, a atitude de um certo veículo de comunicação que não merece ser citado nominalmente aqui e que em sua incessante caça por cliques, divulgou “selfies e vídeos” dos momentos finais da morte dos jogadores.

Grandiosa e digna de respeito a atitude do Atlético Nacional de Medellín, de abrir mão da disputa e declarar a Chape campeã. Não vai resolver os problemas gerados pelo acidente, mas pelo menos presta uma justa homenagem.

Gostaria de prestar também solidariedade, em nome de todo o time da Destilaria da Bola e nossos colaboradores, às famílias dos jogadores, comissão técnica, colegas jornalistas e tripulação. E também a maravilhosa torcida da Chape que não merecia isto. Aliás, ninguém merece! Espero de coração que esta tragédia seja superada por toda a coletividade de Chapecó, no tempo que for necessário para que isso ocorra, para que enfim o futebol brasileiro possa novamente sorrir em breve.

Em tempo: como palmeirista, é muito triste ter recebido a Chape em nossa casa, no dia de nossa grande festa, e ter visto um rival de respeito sofrer uma pancada dessas pouco mais de 24 horas depois. Novamente, desejo paz para todos.

Abraços de solidariedade.

 

Força, Chape!!!

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Calendário do futebol brasileiro de 2017 será ainda pior

 

Apresentamos hoje mais um parceiro nosso: o grande Irlan Simões, baiano, torcedor do Vitória, e um cara que já faz uns bons anos tem mandado muito bem nos escritos sobre o nosso futebol. Ele escreve para um monte de lugares, edita a Revista Rever e é colunista da Caros Amigos, onde esta análise foi originalmente publicada. Agora, já devidamente destilado, também estará por aqui.

Texto de Irlan Simões

 

Houve um tempo em que a falta de uma estrutura de transporte adequada fazia com que os torneios nacionais fossem mais curtos que os campeonatos estaduais.  Pouco importava se os clubes eram do Ceará, de Mato Grosso ou do Rio Grande do Sul: as federações tinham carta branca para organizar torneios com modelos medonhos, realizando dezenas de clássicos para arrecadar com bilheterias e fazer os clubes terem atividade durante todo o ano.

Até o final da década de 1980 essa lógica foi dominante, sendo apenas superada pelo então crescente e imperativo processo de midiatização dos jogos de futebol. Esse novo momento, paulatinamente sofisticado em termos comerciais e estruturais, passou a exigir uma maior organização do calendário a nível nacional. A Comissão Brasileira de Futebol (CBF) passaria a impor datas mais padronizadas, “confinando” os estaduais ao primeiro semestre e deixando o segundo semestre para os torneios nacionais de primeira e segunda divisão.

O primeiro semestre, durante um bom tempo também, contou com o início e o fim da Copa do Brasil e da Taça Libertadores da América. Algo que ficou para o passado, e é o que gerou a grande mudança que estamos vendo para o ano de 2017.

As idas e vindas do futebol brasileiro e as sequenciais “viradas de mesa” impediram que um padrão no calendário tomasse corpo ainda nos anos 1990. Apenas em 2003 a CBF vai conseguir aplicar o modelo de “pontos corridos” que, finalmente – mas não sem polêmicas -, teria vida longa, já chegando atualmente à sua 14ª edição.

Pouco tempo depois conseguiria estender esse modelo – onde todos os clubes jogam entre si em jogos dentro e fora de casa, com o maior pontuador se sagrando campeão – para as competições da Série B, também fixando o número de participantes em 20, já em 2006.

De lá para cá, a Série C também foi fixada em 20 clubes, com a adoção de um modelo de dois grupos de 10, em jogos de ida e volta, com quartas, semi e final (claramente o torneio mais excitante do segundo semestre) e a Série D passou a ser o térreo do imenso futebol nacional, atualmente com 68 equipes, em grupos de 4 e mata-matas.

Vale contar que a aplicação dos pontos corridos em 2003, com suas 46 datas à época, custou o fim dos torneios regionais, que concentravam clubes de diversos estados. A maior vítima foi a Copa do Nordeste, único caso que tinha retorno financeiro considerável para os seus clubes. Isso será tema de outro texto dessa coluna. Mas guardem na memória que isso faz parte de uma guerra entre uma pretensa liga de clubes e a CBF (como se desenha de novo).

Nessa oportunidade vamos discutir o calendário lançado pela CBF em 2017 a partir de alguns diferentes pontos. De antemão informo que não vou entrar na discussão de como deve ser o modelo do campeonato brasileiro, seja porque é demasiado polêmico e inconclusivo (alô modelo piramidal da Carsughi Mania!), seja porque o maior problema do futebol brasileiro hoje é a concentração de renda. Se tivéssemos pontos corridos com a mesma discrepância orçamentária de hoje a parada seria igualmente sem graça.

A “questão” do calendário

As motivações políticas respaldadas na anatomia da reprodução do poder dentro da CBF faziam com que a entidade máxima do futebol brasileiro jamais questionasse a existência dos campeonatos estaduais. As federações não querem perder relevância e muito menos sua fonte de renda, e por conta disso, manter os estaduais vivos cumpre um papel político central nos planos de quem deseja comandar o futebol brasileiro.

Veja que estamos falando de torneios que são criticados desde o final dos anos 1990 por serem deficitários. O futebol brasileiro se nacionalizou e as pretensões dos torcedores também. Mesmo no único campeonato estadual que não dá prejuízo financeiro aos seus participantes, que é o de São Paulo, o desinteresse do torcedor é tremendo. E é ele o termômetro da parada toda.

Mas como o colégio eleitoral da CBF é formado pelas 27 federações e mais os 20 clubes da Série A, a outra mão precisa ser lavada. Aí talvez resida o maior problema do futebol brasileiro: os nós dos acordos políticos, aliados a uma impressionante incapacidade em dar respostas às diferenças entre os estados, vem causando uma situação em que apenas 52 clubes brasileiros – dos 128 que disputarão as Séries A, B, C e D – ficarão em atividade já no dia 10 de setembro de 2017. Todo o resto não terá qualquer competição a disputar.

Num país com 27 unidades federativas, esse número representa média de menos do que 2 clubes por estado. Considerando a realidade concreta, clubes de apenas 15 estados tiveram atividades futebolísticas após o dia 2 de outubro de 2016, quando se encerrava a primeira fase da Série C. Isso significa ficar dois meses sem atividades antes do fim oficial do calendário nacional, quando começam as férias dos atletas. Quando muito, esses outros estados terão algumas copas secundárias quase amadoras a nível estadual.

Isso acontece porque tanto os clubes do Amapá – que se classificam para disputar seis jogos da primeira fase da Série D, raramente se classificando – estão submetidos a uma estrutura cronogramática que também deve servir a um clube de ponta de São Paulo, que disputa Libertadores, fases finais da Copa do Brasil e uma Série A com 38 jogos.

Com isso tudo, chegamos ao caso 2017. As séries A e B, que possuem calendário fixo para todos os 40 clubes que as compõem, acabam tendo que encaixar seus 38 jogos entre a metade de maio e o final de novembro. Ao mesmo tempo em que a Copa do Brasil é disputada, e agora, com o acréscimo das datas mais espaçadas da Taça Libertadores e da Copa Sulamericana (uma espécie de segunda divisão do continente); após as mudanças impostas pela Conmebol para o ano que vem.

Pior para os menores

As séries C e D vão acabar ainda mais cedo do que em 2016. O terceiro escalão do futebol brasileiro passará a começar junto às séries A e B, quando tinha um intervalo de cerca de duas semanas. Com a manutenção das suas 24 datas (para os finalistas), a Série C se encerrará no dia 22 de outubro; diferente do dia de 6 de novembro de 2016.

O Guarani, clube tradicional que já foi campeão brasileiro, optou por rescindir o contrato de todo o seu elenco após o término da Série C, quando foi vice-campeão no início de novembro. A justificativa da diretoria era evitar gastos, mas fica claro que o clube será prejudicado na tentativa de formação de um novo elenco para o campeonato paulista de 2017. Mas faz sentido. Sem jogos, não há bilheteria, não há patrocínio, não há porque manter jogadores sob contrato para ficar 3 meses parado.

Mas mesmo o clube rebaixado na Série C teve a oportunidade de disputar ao menos 18 jogos, sendo nove deles em seus domínios, ao longo de quatro meses. A situação mais complicada fica por conta dos clubes que entraram na Série D, só disputaram seis jogos, e depois fecharam suas portas por longos cinco meses. Até que se inicie o campeonato estadual do ano seguinte.

Nesse sentido o calendário especial feito para os estados nordestinos – para dar conta de estabelecer as datas da Copa do Nordeste, que ocorre em paralelo aos estaduais e às primeiras fases da Copa do Brasil – contou com um dos poucos pontos positivos desse calendário de 2017.

A CBF deu autorização ao uso de três datas “opcionais” para os estaduais nordestinos. Por conta das regras recentes de garantia de 30 dias de férias, mais 25 dias de “pré-temporada”, os estaduais só poderiam se iniciar no final de janeiro.

Mas, como já dito antes, apenas 40 clubes realmente jogam até o início de dezembro, fazendo com que essa regra só seja necessária para uma parcela quase ínfima dos atletas inscritos nos quase 250 clubes participantes da primeira divisão de cada um dos 27 estaduais. Essa autorização vai permitir que alguns estaduais se iniciem já no dia 15 de janeiro, cerca de dez dias e três datas antes do previsto.

Há um modelo ideal?

Deve haver, mas não se trata de criar algo para se tornar eterno. O Brasil é um caso absolutamente particular no mundo do futebol e, muito infelizmente, insistimos há décadas a procurar “modelo ideal” em países totalmente diferentes do nosso.

O único País com as dimensões geográficas com clubes de grande torcida com quase quatro mil quilômetros de distância entre si são os Estados Unidos. Lá, por motivações históricas, os seus torneios são pensados de forma regionalizada nas primeiras fases, as chamadas “conferências”. Esse modelo só poderia ser comparado ao que foram os torneios nacionais dos anos 1959 a 1970, guardadas as suas devidas proporções.

No Brasil, seguindo a ideia de “liga” dos modelos europeus, optamos por fazer um torneio que exige um grande “aperto” no calendário, com viagens muito longas. Ao mesmo tempo em que temos uma “primeira divisão” muito pequena, com apenas 20 vagas, para os mais de 40 clubes de massa que possuímos de norte a sul, que abrilhantariam o futebol nacional. Mas para muitos dos ditos “especialistas” a solução passa pela adequação do nosso calendário ao verão europeu: início de temporada em julho e final em junho do ano seguinte. Algo totalmente sem sentido.

Talvez essa “temporada europeia” fosse uma solução de curto prazo para essa ausência de calendário dos clubes de menor porte. Caso as primeiras fases dos estaduais – com os clubes ausentes das Séries A, B e C – ocorressem no segundo semestre, com a sua retomada nos primeiros meses do ano seguinte, poderíamos almejar um acordo na discussão sobre a viabilidade ou não dos estaduais.

Esses torneios existem a mais de 100 anos em muitos estados, e não podem ser extintos sem causar um ferimento grave na história do futebol brasileiro. Mas não podem continuar ocupando 20 datas dos calendários de clubes que disputam outros três ou quatro torneios no ano. É preciso pensar nesse “desmembramento”, deixando de insistir no “confinamento dos estaduais”, que expliquei ainda no começo do texto, forçando sua realização em paralelo em estados com realidades totalmente distintas como Rondônia e Rio de Janeiro.

O futebol brasileiro precisa ser pensado em sua totalidade e na forma de cadeia produtiva de uma indústria cultural. Manter seu funcionamento pleno e financeiramente sustentável desde a base da sua pirâmide traz benefícios diretos para o seu topo, além de permitir a geração de milhares de empregos em todos os rincões do país, muito além dos jogadores. São esses torneios que também proporcionam a formação de novos atletas e a participação de milhões de brasileiros de fora das grandes cidades do país nesse mundo mágico que é o futebol.

 

 

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Arquivado em Irlan Simões

A volta da imortalidade

Texto de Gabriel Brito publicado na webrádio Central3 em 24 de novembro de 2016

Um dos melhores jogos que o país viu nos últimos anos é uma das primeiras coisas a dizer de Atlético Mineiro 1-3 Grêmio, na partida de ida final da Copa do Brasil. Para além do elogio geral, fica uma categórica superioridade gaúcha, referendada pela terceira vitória seguida em solo mineiro.

A este respeito, está claro que o tricolor encontrou o remédio pra atar e sedar o galo doido, indomável vingador que não considera a pausa em seu repertório.

Tal constatação leva a outra, de modo que esta crônica enxerga o corpo e a mente do time dirigido por Roger. Claro que ver a epopeia comandada por Renato Portaluppi pode fazê-la ainda mais épica no coração gremista, mas o ex-lateral também seria digníssimo comandante deste penta quase garantido.

Feita a nota de rodapé, novamente vimos a paciência e cadência gremista enredarem o ímpeto atleticano, que apostou na linha de três armadores-avantes formada por Maicossuel, Cazares e Robinho para servir Pratto.

Na teoria um 4-2-3-1, na prática, por vários momentos, um 4-2-4 suicida, que permitiu aos meio-campistas visitantes todo o conforto na hora de escolher o passe, a exemplo da bela enfiada de Maicon que terminou no golaço de Pedro Rocha e outras grandes oportunidades.

Diante do fraco auxílio defensivo da linha de frente, a volância de Leandro Donizete e Junior Urso só corria atrás. Nesse sentido, cabe ponderar que Marcelo Oliveira faz seus times jogarem na mesma batida há praticamente 6 anos, desde seu sucesso com o Coritiba. Se por um lado já foi finalista e campeão várias vezes, por outro suas principais derrotas têm a marca da falta de variação.

Ao fazer o segundo em bela infiltração individual, Pedro Rocha apenas colocou uma medida mais justa no placar. E nem sua nada justa expulsão foi suficiente para assustar um time que, além de seguro de si, está no ápice motivacional.

O golaço de Gabriel serviu como lembrete do potencial técnico do Galo, mas a estratégia do equilíbrio haveria de dar o tiro de misericórdia na tática do ataque total – ou inconsequente.

Como castigo a esse samba de uma nota só cantado pelo time de Marcelo, veio o gol matador de Everton, a reafirmar a volta dos momentos imortais e emoldurar uma bela semelhança com outro 3 a 1 longe de casa, cujas saudades estão a 90 minutos de acabar.

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Contra a mega-ofensividade galista, duas linhas de quatro, na qual Pedro Rocha fazia às vezes do atacante que é e Douglas exercia uma espécie de free-hole. Abandonados pela linha ofensiva, Donizete e Urso nunca puderam cortar os passes de um time muito competente no fundamento. Muitas semelhanças com o 2-0 gremista no Brasileiro de 2015.

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Arquivado em Gabriel Brito

Cada um com sua agonia

Com este texto, inauguramos uma nova fase no Destilaria da Bola, a fase da retomada! Além das produções da casa de Raphael Sanz, LG Ferreira, Arrison “Capivara” Jardel, Alex Mirkhan, RH Thompson e Fernanda Russo, ainda contaremos com alguns colaboradores de fora deste humilde blog futeboleiro e alcoolizado. Entre esses colaboradores está o implacável Gabriel Brito, jornalista do Correio da Cidadania e colaborador da WebRádio Central3, onde este texto foi originalmente publicado. Em breve mais novidades de colaboradores. Vamos ao que interessa:

Cada um com sua agonia, por Gabriel Brito

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Da euforia à debacle, do hexa que serve de pilar da reconstrução da pátria de chuteiras a uma campanha fadada ao esquecimento. De campeão de tudo a condenado, de clube modelo a mais uma instituição da massa engolida pela mesquinharia da velha-nova cartolagem.

Foi nesse cenário que Corinthians e Internacional voltaram a ver as caras em mais uma boa história desta rivalidade recente. No íntimo, a torcida alvinegra já não aguenta mais seu próprio time, não se identifica com nenhum dos jogadores e encontra-se tragada por uma diretoria que remonta aos estertores do dualibismo.

Falando nessa maldita era, estamos diante de uma boa reprodução da campanha de 2006, que preparou o terreno para o desastre que dispensa comentários. A tarja de capitão no braço de Vilson não me deixa mentir. O segundo turno marcado pela autossabotagem de uma campanha que vinha digníssima, permitida por uma diretoria incapaz de conter qualquer investida do mercado (ou de seus achegados) me fez, definitivamente, por em xeque a validade de continuar a frequentar uma casa que insiste em não ser nossa.

Além do clube largado, vemos uma reedição de “choques de ordem”, cuja finalidade, muito claramente, é levar o apartheid social e o consumismo cego para os estádios. É praticamente a última fronteira de nossas fraturas históricas, já superada até em carnaval de rua, admirável ousadia dessa gente de bem. A Copa foi o laboratório e seu legado de palácios de mármore está aí para ser usado.

Assim, voltamos a insossos anos, quando tudo era proibido e as médias de público ainda mais baixas. Já tendo pagado inúmeras entradas para este filme tão sórdido como infrutífero, lamento, mas não vou ficar para ver mais uma temporada onde tudo o que nos fez amar o futebol e a arquibancada desde cedo está criminalizado. Pior: uma criminalização apoiada por parte da torcida – ou nova torcida.

Ontem mesmo, apesar de a sanha em rebaixar o rival gaúcho aquecer alguns corações, voltamos a ver a trágica cena em que o torcedor do clube se levanta contra outro torcedor do clube por equiparar a fumaça de um sinalizador à ameaça nuclear norte-coreana e, dessa forma, entregá-lo aos homens da lei e da ordem.

Isso pra não falar da interdição do setor norte, a nova modalidade de “luta de classes” que os donos do futebol profissional engendraram. Afinal, tirar mando de campo de quem abraçou as arenas e sua farsa econômica, pra fazer jogo em Araraquara com 7 mil pagantes, é ato de autossabotagem já detectado pelo “sistema” – basta observar como rapidamente se voltou atrás na retirada do mando de campo do Grêmio, sob vigoroso apoio de quem tanto inflou egos de auditores e advogados.

Agora, e podemos ver pelo tom desavergonhado de alguns “dateninhas” da mídia esportiva, a luta contra essa entidade espectral denominada torcedor organizado trava-se sem cerimônias, dia e noite.

O problema é que, antes de proteger a família, como alegam, estão apenas excluindo aquele que paga menos. A família que paga menos também foi chutada pra fora do estádio – nem vamos tratar do nível desse tipo de discurso, infantil e falacioso, e seus frutos históricos.

Fato objetivo é que com a setorização dos novos estádios (sic) ficou fácil predeterminar quem entra e quem fica fora e, assim, logo alteraram o código desportivo para permitir uma acomodação que interessa a todos (eles).

Como pequena mostra da seletividade da “crítica civilizatória”, vimos sumir do noticiário a morte do cruzeirense após mal contada refrega com seguranças do Mineirão (ou Minas Arena), assim como será abafada a tenebrosa canção de troça ao finado Fernandão, ontem.

Feito o parêntese, estava eu lá, na divisória com a torcida que também vê de perto o que é ser limada por uma gente deslumbrada que pisa na sua alma em nome dos “compromissos da modernidade” e seus imperativos econômicos (claro que agora há um refluxo, pois à beira da segunda divisão todos aqueles demônios postos para fora da nova e lustrosa casa são imediatamente convocados a salvar o clube daquela que será a mãe de todas as desgraças).

Deu pena do Colorado. Trata-se de time tão desmoralizado que nem o pênalti digno de uma edição de luxo do famoso do DVD foi contestado pelos desolados atletas.

Após uma retranca que beirou o ridículo, por respeitar um time capaz de tomar o gol que tomou do Figueirense aos 48 do segundo tempo, o Inter lançou a campo um trio que poderia recolocar o alvinegro no prumo. Seijas, Nico López e Valdivia entraram para tentar evitar o pior – e poderiam entrar desde o começo se quiserem uns ares novos em São Paulo. Pra não falar de Alex, de bons serviços conhecidos nos dois lados, que nem do banco saiu.

Parece que Lisca não traz nenhuma ideia muito animadora frente ao tétrico antecessor e, pelo apresentado ontem, os colorados têm tudo pra amargar o fim dos tempos da valsa da mais traumática maneira.

Ao vencedor, que fique sem as batatas. Valeu pelo sabor da rivalidade recém-estabelecida. Mas entre voltar a uma Libertadores com o grande rival na crista e Osvaldo no banco, ou diminuir a carga de estresse e fazer um balanço antes que seja novamente tarde, fico com a segunda opção. E no sofá de casa. Deu pra mim.

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Arquivado em Gabriel Brito