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Nos mijam, e o jornal diz que chove

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Por R. Thompson

Dizem por aí que a meca do futebol é a Europa: clubes ricos, grandes jogadores, médias de público excelentes e o caraglio à quatro. Dizem também que aquele é o continente mais rico do mundo, apesar da crise econômica: monumentos suntuosos, qualidade de vida excelente, igrejas folhadas à ouro e o diabo à quatro. Há quem diga, ainda, que devemos seguir o modelo de futebol e de sociedade daqueles lados. Não sei porque insistem em pedir isso; nossos campeonatos estaduais já seguem à risca os padrões europeus.

A Europa tornou-se esse continente admirado a partir da exploração e do saque de outros povos e terras, quando os estupradores de índios e de aborígenas arrancaram à força toda riqueza natural da América do Sul e da África. Fato semelhante acontece nos campeonatos estaduais do Brasil, com exceção, talvez, de São Paulo, onde os times de empresários proliferam com a mesma velocidade que o dito sertanejo universitário (não dá pra chamar isso de música).

Qualquer partida de futebol profissional no Brasil movimenta cifras monumentais, mas nem sempre os times levam sua justa parte. Quando se fala em repensar os campeonatos estaduais, temos que repensar as estruturas dos clubes e da distribuição de verba, não somente a do calendário apertado: a diferença de valor dos direitos de transmissão e dos patrocínios entre grandes e pequenos é abismal.

Não há mais como pensar em um Campeonato Gaúcho com decisão entre Brasil de Pelotas e Guarani de Venâncio Aires, tampouco uma final entre América e Bangu no Rio de Janeiro. O Grêmio, por exemplo, tem uma folha salarial que beira os R$ 10 milhões, enquanto que os vencimentos mensais do Veranópolis não chega a R$ 200 mil (durante a disputa do estadual, já que o clube entra em recesso depois de maio).

Os estaduais, invariavelmente, caminham para a extinção ou para uma significativa mudança. Os grandes clubes já não têm tanto interesse na competição e os pequenos já não têm tanta ambição. Quem melhor aproveita essas competições são os empresários, agentes e jogadores que sonham em conseguir uma transferência rentável, ou os apostadores, que veem a chance de usar o desinteresse dos clubes como alavanca para a (nem) tão combatida manipulação de resultados.

No meio dessa crise existencial o Brasil procura falsos culpados pela decadência dos estaduais, assim como a Europa classifica as nações que usurpou como ‘países em desenvolvimento’, o que é o mesmo que chamar um anão de criança. Como escreveu Eduardo Galeano no ‘Livro dos Abraços’, nos mijam, e o jornal diz que chove.

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