Arquivo do mês: abril 2013

“José Maria Marin não tem dignidade para nos representar em absolutamente nada”

Entrevista com Ivo Herzog (por Raphael Sanz)

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Ivo Herzog e Romário em evento pedindo o Fora Marin. créditos: http://www.jb.com.br

Recentemente foi descoberta uma ligação entre o presidente da CBF, José Maria Marin, e o assassinato do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI CODI, em 1975. Na época, Marin era deputado estadual pela Arena, partido central da ditadura, e fez uma série de discursos contra a TV Cultura, onde Herzog era diretor de jornalismo, afirmando que a sociedade paulistana estava apavorada com o conteúdo veiculado pela emissora e pedindo a cabeça de Herzog. E foi exatamente o que aconteceu. Após ser procurado, Vladimir Herzog se apresentou às autoridades, e acabou assassinado nos porões da tortura.

Ivo Herzog, 46 anos, filho do jornalista executado pelos militares, hoje cuida da fundação que leva o nome do seu pai e trabalha em prol dos direitos humanos e do direito à memória. Junto ao baixinho Romário, hoje deputado, Ivo criou a petição que pede a saída de Marin das presidências da CBF e do Comitê Organizador da Copa do Mundo, reivindicação que ganhou coro na sociedade.

Por uma questão de afinidade com a causa, a Frente Nacional dos Torcedores (FNT) entrou nessa e está organizado um grande ato em Porto Alegre, seu principal reduto atualmente, na próxima sexta-feira e, sendo assim, nos pediu gentilmente que fizéssemos uma entrevista com Ivo Herzog sobre Marin, dos rumos do futebol e da sociedade brasileira em geral e da relação do atual embaixador da Copa do Mundo com a morte do seu pai nos terríveis anos da ditadura. Essa entrevista você confere abaixo, na íntegra.

Raphael Sanz – Bom, meu caro Ivo Herzog, vamos conversar um pouco sobre aquele senhor que é atualmente o presidente da Confederação Brasileira de Futebol e embaixador da Copa do Mundo no Brasil. Quando foi a primeira vez que você ouviu falar dele?

Ivo Herzog – Eu ouço falar dele desde sempre, isso se perde no tempo. Porém, ele ligado ao futebol realmente foi só na época em que o Ricardo Teixeira saiu da presidência da CBF, eu não tinha ideia de que ele fosse vice presidente da Confederação Brasileira de Futebol.

RS – Bom, então qual era a ocupação dele antes desse envolvimento com o futebol?

IH: Não sei qual é a ocupação dele, mas vejamos que na década de 80 ele foi vice-governador do Estado de São Paulo, quando o governador era o Paulo Maluf. Então, isso pra mim, isso já é um atestado de que a pessoa não é do bem.

RS – E qual é a relação direta do José Maria Marin com a tua vida?

IH – O que a gente descobriu recentemente, no ano passado, através de uma reportagem do Juca Kfouri, é que até antes de ele ser governador, lá atrás, na década de 70, ele foi deputado estadual pela Arena. E naquela época, em 1975, o meu pai foi assassinado. Duas semanas antes do meu pai ser assassinado, ele fez um discurso na assembleia instigando que havia coisas terríveis acontecendo na TV Cultura, que a população paulistana não estava conseguindo dormir tranquila e que o governo tinha que fazer uma ação contra a TV Cultura. O meu pai era o diretor de jornalismo da TV Cultura e o governo realizou a ação: matou meu pai. Depois, na sequência, um ano após a morte do meu pai, em outubro de 1976,  Marin voltou à tribuna e fez longos e bastante elaborados elogios ao chefe da policia secreta do governo na época, a polícia que prendia, torturava e matava – o Sérgio Fleury. Ele é uma figura terrível, temida, uma das piores coisas que já existiram na nossa sociedade. E o Marin deixou bem claro em seu discurso que o Fleury era um exemplo a ser seguido, era um herói. Então é complicado que hoje a gente tenha essa pessoa encabeçando a Copa do Mundo de 2014.

RS – Pegando esse gancho do discurso do Marin, que transformou o Fleury em herói, você vê algum paralelo com o que acontece hoje em dia em São Paulo, ou seja, essa nova militarização que aconteceu por aqui, até pouco tempo atrás os militares estavam nas nossas nas subprefeituras?

IH – Não sei, nunca parei para pensar sobre isso. Eu acho que há uma outra questão que a gente deve sim parar para pensar e refletir. Essa sim tem uma relação com a história de violência que vem desde a época da escravidão e do extermínio dos índios, é a violência policial. Hoje o principal executor, o principal assassino não é o bandido, é a polícia. A policia mata de 8 a 10 vezes mais do que os bandidos na nossa cidade, então sim existe uma cultura da violência e da impunidade e a gente vê essa cultura presente muito na maneira como a nossa polícia age. Isso tem um paralelo muito forte com a época da ditadura.

RS – Você acredita que afastando o Marin da CBF nós talvez conseguíssemos dar um golpe nessa cultura da impunidade?

IH – Não. Acho que isso é pouco. Mas vamos separar as coisas. O Marin hoje está na frente de duas coisas: da CBF e da Copa do Mundo. Meu maior problema com ele é em relação com a Copa do Mundo, porque o Mundial não é dele, não é da CBF, é de todos nós, né? É um evento internacional, um evento de grande festa, grande alegria, feito com muito dinheiro público e a gente tem à frente desse evento uma pessoa que simboliza tudo aquilo que nós lutamos contra. O arbítrio, a violência, a ditadura… ele simboliza isso tudo. Não só nós no Brasil, mas vários outros países, né? Toda a América Latina, a Europa pela questão do nazismo, da Segunda Guerra Mundial, aquela coisa toda, então da mesma maneira que eu estou indignado quando dou entrevistas para jornais de fora do país -da América Latina e da Europa-,  eles também não conseguem entender como o Brasil, em plena democracia consolidada, quase 30 anos de democracia, tem uma pessoa como o José Maria Marin à frente do maior evento internacional de toda sua história. Ninguém consegue entender isso. Inclusive é a primeira vez na história das Copas do Mundo que o presidente da confederação é também o presidente do comitê organizador. Tradicionalmente, a pessoa que está à frente do comitê organizador é um ex atleta, uma pessoa que é uma um grande embaixador, uma pessoa de aprovação unânime, um ídolo daquele país. Será que o Marin é ídolo de alguém?

RS – Saindo um pouco da Copa do Mundo e caminhando em direção à Comissão da Verdade: qual é a importância de se investigar os crimes cometidos pela ditadura?

IH – Você deve ter mais ou menos uns vinte anos a menos do que eu. Você hoje saiu de “não sei onde” e veio para cá. Você veio pensando no ônibus, no trem ou no metrô. Pensando nas coisas que existem. Provavelmente pensou que muitas coisas poderiam ser diferentes. E por que as coisas são do jeito que são? Por que o presente é o presente? O presente é o resultado do passado. O presente agora (do momento da entrevista) é resultado do telefonema que você me deu no passado. Por isso que estamos aqui agora. Na nossa sociedade que é uma coisa mais complexa e maior, com uma intensidade muito maior de coisas, somos o resultado de uma longa história. E a gente só entende esse presente – porque as coisas são desse jeito- , se a gente conhecer o nosso passado. E enquanto vamos nos falando, você provavelmente já está pensando em como irá editar essa reportagem, onde irá publicá-la, o que vai fazer com ela, ou seja, está pensando no futuro a partir do que está entendendo do presente. E o seu presente é fruto do passado. Sendo assim, não tem como você construir um futuro sem ter conhecimento sobre o passado, ele é construído a partir dos conhecimentos que você tem da vida, das coisas e dos fatos. Hoje, de maneira geral, as pessoas têm muito pouco conhecimento sobre a nossa história recente. Então, o entendimento que eles têm sobre o presente é em função do pouco que conhecem e em função disso eles montam uma ação, que pode ser qualquer coisa, não necessariamente organizar uma passeata, mas por exemplo discutir política na mesa do boteco tomando um chopp, dando opinião sobre um filme, qualquer coisa. Tudo o que a gente faz tem um caráter politico, da vida na “polis,” na cidade, então tudo isso que as pessoas estão fazendo é em função do conhecimento delas e, o conhecimento em relação à nossa história, é muito pouco. A Comissão Nacional da Verdade é um instrumento para conhecermos um pouco mais desse passado, para entender um pouco mais do nosso presente e assim exercer a nossa cidadania de uma maneira mais consciente. Um passo muito importante, mas que é apenas um passo, uma etapa, só que esse processo é muito mais complexo. Acho que tudo começa com uma melhoria no sistema de ensino. Ensinar a nossa historia recente, os direitos humanos, no ensino fundamental, no ensino básico, mostrar para as pessoas certos valores. Questões como armas, pena de morte, casamento entre pessoas do mesmo sexo, independente da opinião que você tenho sobre elas, mas todas essas questões, elas são os seus valores como cidadão. Eles são muito importantes. Uma democracia deve possuir uma diversidade enorme de valores. O que é importante é que você tenha os seus valores e se sinta seguro com eles, e que nós possamos construir os nossos valores através das informações a que temos acesso. Por exemplo, muita gente é a favor da pena de morte. Eu, particularmente, sou contra e acho que tenho uma opinião relativamente bem formada a respeito do tema, eu sempre tive muito interesse em saber mais a respeito, li muito, me informei muito e vejo que em nenhum lugar onde foi adotada, a pena de morte conseguiu resolver o problema da violência. Inclusive um dos países onde há um número enorme de assassinatos é o próprio Estados Unidos, onde a pena de morte é vigente. Então, a gente vê que não é esse o caminho. Enfim, todas essas questões são muito complexas, mas o mais interessante, o mais gostoso e o mais fascinante de viver é a gente ter informações para podermos construir nossos valores com consistência, ter uma boa opinião e falar com orgulho o que pensamos. Lembra daquele ditado, você já deve ter ouvido falar, “religião, política e futebol não se discute.” Se discute e se discute muito. Futebol a gente não para de discutir, então por que não podemos discutir religião e politica também?

RS – Só uma curiosidade, você gosta de futebol?

IH – Gosto.

RS – Para que time você torce?

IH – Corinthians.

RS – Voltando à questão da discussão, da vida na polis e de que futebol, política e religião são discutíveis, o que você acha da Frente Nacional dos Torcedores que visa não só discutir a questão do “Fora Marin” levantada por você e pelo deputado Romário, mas como também realizar um certo de ação a respeito disso?

IH – Eu acho super importante, eu acho que o debate sempre agrega e ele é a essência da polis e da vida em sociedade e democrática. Sou a favor desde que não haja violência. Eu não justifico a violência a partir de nada. Ou seja, se o Marin é violento, é estúpido, vem e dá com o porrete na sua cabeça, chama a polícia e manda prendê-lo, não revide. Não se pode usar a violência como uma forma de argumento e nem de contra argumento. Quem faz isso são eles, não somos nós. Eu acho interessante esse movimento de vocês e acho que uma coisa que pode enriquecer o movimento é se vocês conseguissem abranger esse movimento se unindo a outros movimentos e a outros debates que são importantes. Por exemplo: você conhece o estatuto da CBF?

RS – Não.

IH –  Pois é. Eu também não. Essa é uma questão na qual devemos brigar. Se a CBF leva tanto dinheiro público, por que o estatuto dela é secreto? Na internet até tem umas cópias piratas do estatuto. Em uma delas, diz que a CBF é uma fundação sem fins lucrativos. Bom, se é sem fins lucrativos, por que então eles dão cheques entre R$ 100 mil e 400 mil para os cartolas das federações estaduais de futebol? Alias, como é que é feita a escolha desses cartolas todos? Aliás, tem outra coisa que seria interessante ser feita para fortalecer esse movimento, que seria a criação de um grupos de estudo sobre o nosso futebol. Eu acho que tem uma riqueza do ponto de vista político maravilhosa. O futebol no Brasil e em outros países da América Latina sempre foi usado como uma cortina de fumaça para governos que queriam esconder as suas fraquezas politicas. Por exemplo, a Copa na Argentina de 1978. No final, era uma ditadura que já estava indo para o beleléu, estava indo para o saco, e eles fizeram de tudo, mexeram em alguns jogos, porque a Argentina tinha de ser a campeã. Nesse processo de euforia do povo, por um breve momento as pessoas esquecem que não têm comida, não têm saúde e isso continua sendo usado. Lógico que a sociedade evoluiu em diversos aspectos, hoje temos uma democracia, um estado de direito, onde é possível até tirar um presidente da república como a gente fez com o Collor, mas na área do futebol muito pouca coisa mudou. São grupos muito estranhos com ideologias políticas muito complicadas, e eu acho que cabe e seria muito importante envolver os jogadores e os técnicos a começarem a opinar sobre política. Afinal, eles são os ídolos das pessoas, por que eles não podem opinar sobre as coisas? Por que eles só ficam com aquelas entrevistas plásticas de final de jogo que não falam nada com nada e não falam o que estão achando. O quê eles acham do Marin? Sabe, o silêncio é a conivência.

RS – Está faltando um doutor Sócrates?

IH – Não foi só o Sócrates, foi um processo na verdade. Foi todo um grupo que subiu ao palanque pedindo eleições diretas. Na época eram jogadores do Corinthians, mas depois foram jogar em outros times, portanto não tem nada a ver com o Corinthians, eram Sócrates, Casagrande e sei lá mais quem, mas enfim, eles são cidadãos, eles têm a obrigação de fazer isso e o não fazer, que é o que acontece hoje em dia, é uma conivência, uma cumplicidade com um sistema que eu pelo menos acho que está errado. Cada um pode achar uma coisa, enfim. Falando sobre questão do torcedor, eu gosto, sou torcedor, meu filho também adora futebol, a gente vai muito aqui no Pacaembu e a maneira como tratam a gente, torcedor, é… você vai comprar ingresso e nunca sabe se vai poder usar cartão de crédito, dinheiro, ou não vai. Para comprar meia entrada para o meu filho, tenho que adivinhar que documento eles vão pedir, porque na verdade eles fazem de tudo para te impedir de comprar a meia entrada, aí você chega no dia do jogo e enfrenta um cerco policial, parece uma praça de guerra e você tem que parar o carro “não sei a onde”, andar um monte… Não posso ir para lá de carro? Cadê esse conflito todo? Eu estava vendo agora os jogos da Champions League e eles têm bandeiras nos estádios e as bandeiras dos estádios faz tempo que eles tiraram daqui de São Paulo, uma coisa tão bonita. Ou seja, nós somos tratados como uns criminosos, nós somos tratados assim por aqueles que em muitos casos são os próprios criminosos.

RS – O que você tem a dizer, além do que foi dito, aos torcedores de todo esse país, que estão indo atrás desse movimento, do Fora Marin, que mensagem você ainda gostaria de passar para esse pessoal?

IH – A única forma da gente mudar as coisas é fazendo alguma coisa, então para mudar o futebol brasileiro, a gente só depende de mim, de vocês e desses torcedores, depende de cada um de nós colocarmos para fora a nossa indignação. Se ficarmos esperando que as coisas mudem sozinhas, elas não vão mudar.

RS – Bom, vamos supor: num mundo ideal, daqui dois meses, José Maria Marin estará afastado do Comitê da Copa do Mundo e da presidência da CBF. O que o futebol brasileiro tem a ganhar com isso?

IH – Dignidade. Eu acho que o Marin não tem dignidade para nos representar em absolutamente nada que leve o nome do nosso país, ele sempre foi um inimigo a ser combatido.

fm2013

Leia também:

  1. Matéria da agencia A Publica que explica muito bem a história de Vladimir Herzog com Marin em 1975: http://www.apublica.org/2013/02/qual-papel-chefao-futebol-brasileiro-assassinato-de-herzog/
  2. Site da Frente Nacional dos torcedores: http://www.frentedostorcedores.com.br/
  3. Fundação Vladimir Herzog: http://www.vladimirherzog.org

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A HISTÓRIA DO FUTEBOL É UMA TRISTE VIAGEM DO PRAZER AO DEVER

eduardo galeano

Pensei em escrever um texto hoje sobre a chegada das finais nos estaduais. Esbarrei na falta de vontade gerada pelos jogos horríveis, alguns inúteis e arbitragem pior ainda. Tentei fazer um esforço mínimo para concluir o motivo de um Palmeiras x Santos me dar sono, o Grêmio perder a vaga nos pênaltis, o Corinthians e o Fluminense passearem em campo, o São Paulo sofrer, nem ficar sabendo dos resultados de Minas e menos ainda dos do Nordeste, tantos cartões por “atitudes antidesportivas”, etc. A minha conclusão cansada só não é impublicável porque aqui não temos chefe para impedir publicações e pouco estamos nos importando com a moral e bons costumes. Porém, até xingar me deu preguiça. Aí entra Eduardo Galeano com toda a sua elegância para nos salvar. O que pensei em escrever foi exatamente isso:

“A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever. Ao mesmo tempo em que o esporte se tornou indústria, foi desterrando a beleza que nasce da alegria de jogar só pelo prazer de jogar. Neste mundo do fim de século, o futebol profissional condena o que é inútil, e é inútil o que não é rentável. Ninguém ganha nada com essa loucura que faz com que o homem seja menino por um momento, jogando como o menino que brinca com o balão de gás e como o gato que brinca com o novelo de lã: bailarino que dança com uma bola leve como o balão que sobe ao ar e o novelo que roda, jogando sem saber que joga, sem motivo, sem relógio e sem juiz.

O jogo se transformou em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos espectadores, futebol para olhar, e o espetáculo se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo, que não é organizado para ser jogado, mas para impedir que se jogue. A tecnocracia do esporte profissional foi impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria, atrofia a fantasia e proíbe a ousadia.

Por sorte ainda aparece nos campos, embora muito de vez em quando, algum atrevido que sai do roteiro e comete o disparate de driblar o time adversário inteirinho, além do juiz e do público das arquibancadas, pelo puro prazer do corpo que se lança na proibida aventura da liberdade”.

– Eduardo Galeano (Futebol ao sol e à sombra)

 

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2014, a Copa que o Brasil já perdeu!!!

Por F.Filó

A corja do futebol reunida

A corja do futebol reunida

Leiam esse texto de Thiago Arantes, no site da ESPN.

http://www.espn.com.br/post/325303_2014-a-copa-que-o-brasil-ja-perdeu

 

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Ai de Ti, Maracanã

pelada

 

Em tempos de cretinice desenfreada vez ou outra lemos algo que vale à pena, como é este texto retirado daqui.

Muito bom!

1. Ai de ti, Maracanã, que deste tuas costas ao clamor de tuas arquibancadas e soterraste tua geral humilde em busca das glórias vãs; céus e terra te negarão o sono, e 200 mil vozes hão de assombrar-te pelas noites.

2. Ai de tuas poltronas acolchoadas, ai de teus camarotes de luxúria, ai de tua soberba para poucos, porque para muitos te quis e para muitos foste erguido. Porque nem tua cobertura há de te esconder os teus inúmeros pecados quando minha ira se lançar contra ti.

3. Acaso não te lembraste do silêncio que te dei quando nasceste? Que te fiz carioca, mas te inaugurei paulista, para que soubessem que não és lar de ninguém? Acaso não te conduzi até a final do Mundial, para que fosses profanado pela Celeste estrangeira e calasses tua ambição desmedida? Não te testei timaços e timinhos pela régua das vitórias?

4. Não te consignei eu aos clássicos, porque eras neutro e palco perfeito, um lugar a ser conquistado no grito e no campo pelas quatro forças que ao teu redor orbitam, e pelos ídolos que desfilaram tantas cores? Pois hoje vejo que te prostituis a consórcios que não te conhecem, e não mais serás informado pela Suderj em teus vindouros telões de LED.

5. Enorme era teu campo, e encolheu-se; ampla era tua capacidade, e apequenou-se; agrandaste teu estacionamento e será imensa tua final, mas não como sonhavas quando aprenderam a te amar. Ai de ti, Maracanã, pois culparás os cabrais que não te deram dimensão exata nem te fizeram olímpico e pagarás com teu orçamento estraçalhado, teu parque aquático em deserto e tua pista soterrada.

6. E aqueles que te cantaram hinos aos domingos, ao se sentarem em tuas cadeiras numeradas, não te reconhecerão; e a nova torcida que terás tampouco tu hás de reconhecer. E eu hei de emudecer teu eco catedral à sombra de tua intrepável lona cobertora, para que sejas silencioso e ordeiro como um shopping de aeroporto.

7. E a própria bola te há de boicotar, e sobre teu tapete sentirás as dores de parto de inúmeras peladas que negarão a honra do teu nome. Pois serás Maracarena, serás Maraca-Não, serás rebatizado e deserdado em tuas tradições: os gentios rasgarão tua rede véu-de-noiva e vendê-la-ão aos pobres.

8. Ai daqueles que combinarem de se encontrar no Bellini, pois se perderão, com suas camisetas piratas e seus ingressos falsos repassados por cambistas torpes a custo de quatro dígitos, indo parar na Uerj. Nem assim teu banheiro será mais limpo do que foi nos dias de tua glória.

9. Selarei teu portão 18, e não mais se concederá tua imensa cortesia aos múltiplos conchavos, quando traficavas influência em teus corredores e escadas rolantes. Perpétua será tua dor, cativa será tua vergonha.

10. Desfraldai vossas bandeiras, uniformizados, porque só assim recordareis o espetáculo que fazíeis: tuas faixas darão lugar aos camarotes da luxúria, e teus cânticos não serão ouvidos no isolamento perfeito dos proseccos, mojitos e DJs, numa publicitária orgia no templo que virou programa.

11. E tu, Maracanã, com teus ouvidos de concreto lamentarás aqueles palavrões que sentados não bradamos, mesmo com o grito molhado na cevada, e gemerás em cada viga, em cada solda, em cada rejunte, no chapisco de teus muros, nos parafusos dos mais buchas, em cada cu que assentares (78 mil lugares?), na tua escassez de gigantismo a flagelar-te com a memória de quando eras mais nosso porque cabiam mais de nós.

Márvio dos Anjos

d’apres Rubem Braga

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Mengão Sempre

 

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NÃO AO FUTEBOL MODERNO

Homenagem ao Galvão, que quase goza quando fala do "padrão fifa"

Homenagem ao Galvão, que quase goza quando fala do “padrão fifa”

Por Vinicius Borghese

A máscara vai caindo…

Assim como em um espetáculo de teatro ou novela a história passa a se desenrolar e os “vilões” ficam preocupados…

A história vai se desenrolando, do jeito que o público está acostumado, a máscara do vilão caindo, um tropeço aqui outro ali, vão juntando os pedaços e em um piscar de olhos todo o “esquema” é desvendado…

O “mocinho” geralmente desmascara o vilão em um grande truque ou jogo, empurrado pela torcida de todos aqueles que só querem o bem maior…até que o “vilão” consegue fazer com que seus “torcedores” passem a odiá-lo, a cobrar os resultados prometidos e os altos investimentos realizados…

Conversa fiada a parte, a matéria abaixo é exatamente como uma novela, a máscara do “futebol moderno” vai caindo, a “máscara” que foi vendida sobre torcida, violência e cobrança passa a cair e o FUTEBOL respira no campeonato mais modinha e coxinha do mundo!

http://globoesporte.globo.com/futebol/liga-dos-campeoes/noticia/2013/04/torcedores-do-real-hostilizam-jogadores-no-aeroporto-de-dortmund.html

O resultado não foi apenas dos times da Alemanha, mas do FUTEBOL! O bom e velho futebol de estádios lotados, com cerveja na arquibancada, ingresso barato, faixas, bandeiras de mastro e sintonia doentia entre torcida e time!

A você que idolatrou o “molde” vendido pela imprensa sobre os times, torcida e “esquemas táticos” geniais meus pêsames…

NÃO AO FUTEBOL MODERNO!

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FUTEBOL NÃO É SOBREMESA DE NOVELA

globo

 

Para que possamos desenvolver nosso futebol de forma melhor, o respeito ao torcedor é fundamental. Para isso, não é mais possível que um jogo acabe meia-noite unicamente porque uma rede de televisão determinou que é esse o horário por conta da sua novela.  Acolhendo esta premissa, há um projeto de lei em Porto Alegre que poderá romper com esta lógica cretina.

Colaciono aqui uma parte do texto, cujo título roubei, escrito pelo João Hermínio Marques, presidente da Frente Nacional dos Torcedores, que destrincha este assunto:

“A ditadura da novela vai acabar. Somos Torcedores e a Rede Globo não manda na gente! Porto Alegre deve servir de modelo para todo o Brasil. Todo Torcedor militante, não apenas em Porto Alegre, está na expectativa da aprovação para comemorar esse enorme capital político na luta contra o monopólio opressor da Rede Globo, na luta por horários mais acessíveis. Porto Alegre tem a chance de mostrar para o povo brasileiro o quão ela ainda é a capital mui leal e valorosa. Esperamos lealdade dos Vereadores com os interesses sociais da população”.

Espero mesmo que isso seja uma tendência. E muito boa sorte aos gaúchos na votação de amanhã. Vamos que podemos!

Leiam o texto na íntegra: http://www.sul21.com.br/jornal/2013/04/futebol-nao-e-sobremesa-de-novela/

Página da FNT/RS: http://www.facebook.com/FNT.RS

PS: Em breve publicaremos uma entrevista com o presidente da FNT.

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Pq fas iso Portugeza?

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Vamos falar agora única e exclusivamente de futebol.

E a Lusa conseguiu a proeza de ser eliminada da Copa do Brasil pelo esquadrão imbatível do Naviraiense, na última terça-feira, dia 16 de abril de 2013. Sim, o mesmo Naviraiense do Mato Grosso do Sul que há três anos apanhou do Santos, que nem gente grande, por 10 a 0, ontem eliminou a Portuguesa arrancando um empate em 1 a 1 no Canindé, após um 0 a 0 em casa. E a Lusa dançou logo depois de ter sofrido a histórica goleada para o Comercial de Ribeirão Preto por 7 a 0 na séria A2 do Paulistão.

Na ocasião, a desculpa dada por imprensa e setores da torcida é a de que os jogadores estavam indignados com meses de salário atrasado (se eu estiver enganado, por favor me corrijam). É fato que o senhor Manuel da Lupa assim como toda a diretoria da Lusa são de uma incompetência sem igual. Não é a toa que devem dois meses de direitos de imagem, quatro meses de “ajuda aluguel” e ainda não pagaram a premiação da última Série A do Brasileirão e nenhum bicho da A2 do Paulistão. Fato também é que ninguém deveria ficar sem receber pelo trabalho realizado, isso é algo desumano, vai contra o bom senso e qualquer noção básica de direitos humanos. Só que no futebol, as coisas são diferentes.

Os jogadores rubro-verdes tinham a faca e o queijo na mão. Poderia ter feito greve, ido na imprensa, na justiça, feito um protesto, um baita escarcéu e estariam com toda a razão do mundo: lutar pelo que é de direito, é dever de todo ser humano. Se bem sucedidos, certamente seriam exemplo para outros jogadores de tantos outros clubes que também devem, e não são poucos e nem é pouco o quanto devem.

Acontece que essa bundamolice reinante no futebol brasileiro pós Lei Pelé não permite que as coisas sejam como elas são. Aposto que muitos jogadores nem cogitaram botar o Da Lupa no pau mas tiveram a idéia brilhante de entrar em campo e por mais de uma vez envergonhar sua torcida e manchar a tradicional camiseta da equipe do Canindé. A camiseta é algo sagrado no futebol, ainda mais em uma equipe como a Lusa que há 40 anos não ganha um titulo de expressão e ainda assim conta com uma torcida fanática e apaixonada. O que fizeram os jogadores da Portuguesa é de uma falta de ética tremenda. A retaliação deles acabou machucando a torcida que de certa forma, com criticas ou não, está sempre apoiando o time. E enquanto isso, Manuel da Lupa saboreia um bolinho de bacalhau e uma dose de bagaceira tranquilamente em alguma padaria bem longe da Vila Maria.

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