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PALMEIRAS, CACO BARCELLOS E REDE GLOBO

globo

São Paulo, terça-feira, 15 de novembro de 2016 – A torcida do Palmeiras toma o aeroporto de Congonhas e faz uma festa incrível para empurrar seu time rumo ao título brasileiro. A quatro rodadas do final, o time alviverde tinha 70 pontos, quatro a mais que o Flamengo, segundo colocado e com um jogo a mais. Absolutamente todos os veículos de comunicação saúdam o mar verde.

Rio de Janeiro, quarta-feira, 16 de novembro de 2016 – Está em trâmite na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) uma série de medidas visando a redução de gastos públicos, o que é feito, claro, sangrando os direitos do trabalhador. Cobrindo a manifestação dos servidores públicos contrários a tais medidas, Caco Barcellos foi expulso e agredido pelos presentes aos gritos de “golpista” e “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. A emissora soltou uma nota dizendo: “A Globo repudia qualquer tipo de hostilidade que impeça a transmissão da notícia ao espectador, único fim do trabalho jornalístico da Globo, que preza pela isenção e correção” (Ahãm).

Entre os dois fatos um denominador comum: a Rede Globo.

A tal festa incrível da torcida palmeirense já foi regra semanal dentro dos estádios. Não só da torcida alviverde como de incontáveis clubes Brasil afora antes da elitização de nossos estádios.

Não se trata apenas de erguer modernas arenas, mas de moldar o torcedor a elas. Para domesticar o torcedor e transformá-lo em um consumidor, é necessário incutir a nova modalidade de torcer, na qual não cabe mais balançar bandeiras, acender sinalizadores, tirar a camisa, sentar em lugares aleatórios, fazer churrasco no entorno, ficar bêbado, etc.

Muitos faziam isso, mas temos os especialistas: torcidas organizadas. Os mesmos que a Rede Globo, detentora dos direitos exclusivos de transmissão dos jogos, chama de “vândalos travestidos de torcedores” e “membros de facção”. Se são vândalos e são membros de facção devem ser combatidos da forma mais brutal possível pela Polícia Militar. Sim, aquela polícia que mais mata no mundo deve cuidar da ordem.

Mas por que? Para que as famílias voltem aos estádios, para que os jogos comecem sem fumaça, para que os “torcedores comuns” possam parar seus carros, sentar em seus lugares marcados, consumir com calma os produtos vendidos, balançar as bandeiras de plástico com o logo do patrocinador deixadas em seu assento pela diretoria. Enfim, para que o novo modo de torcer seja sinônimo de conforto, educação e desenvolvimento. Nem que para isso se chame de “evolução” policiais espancando pessoas nas arquibancadas.

Torcida palmeirense no aeroporto

Torcida palmeirense no aeroporto

Na outra ponta temos Caco Barcellos, funcionário da Rede Globo. Como jornalista é um monstro, escreveu seu primeiro livro, nos idos dos anos 80, na linha de frente da guerra na Nicarágua, “A Revolução das Crianças”, e posteriormente nos brindou com um trabalho contundente sobre a elite da PM paulista, o famoso “Rota 66”.

Porém, trabalha para a Globo (não que justifique) e estava no meio de uma manifestação. A regra da Globo para manifestações é criminalizar as que não a interessam e exaltar as que interessam. Convocaram para as manifestações pró-impeachment como sendo um belo piquenique dominical no parque. Talvez fosse, mas não é este o ponto.

Nas manifestações de 2013 no mesmo Rio de Janeiro (e no Brasil), usou todo o seu alcance para escandalizar o país no Jornal Nacional com os vândalos mascarados que barbarizavam pelas ruas. Criminalizaram o quanto puderam e conquistaram seu troféu: Santiago Andrade, cinegrafista da Band morto por um rojão solto por manifestantes.

Deitaram e rolaram na história, transfigurando aquele momento em um ataque grave à liberdade de impressa e como a prova definitiva do caráter terrorista de manifestantes que ousavam enfrentar a polícia e a ordem.

Caco Barcellos sendo agredido. O posicionamento da Globo coloca em risco seus profissionais

Caco Barcellos sendo agredido: o posicionamento da Globo coloca em risco seus profissionais. Evoca liberdade de imprensa para colher informações e depois deturpa a realidade de acordo com os seus interesses. Jornalistas são estigmatizados assim como sua empregadora faz com outros setores da sociedade.

Voltando um pouco no tempo, temos o apoio da Globo à ditadura militar, inclusive tentando esconder o movimento Diretas Já. Nos anos 80, o caso Proconsult, que foi uma tentativa de fraude eleitoral para evitar a vitória de Brizola no Rio. Começo dos anos 90 a manipulação descarada para que Collor vencesse Lula. Recentemente, a criminalização de todos os movimentos de rua, além do incentivo ao punitivismo puro e simples. Permanentemente, a criminalização da pobreza com “especialistas” explicando porque se deve usar fuzil nas favelas.

Democratizar a mídia é medida urgente. Urgente porque está intimamente ligada à liberdade na vida real, nas ruas, nos estádios, nas assembleias, comunidades, onde quer que seja. Nos espantamos com uma festa de torcida em um aeroporto e com um jornalista agredido. Temos razão, é de se espantar este deslocamento, as coisas fora do seu lugar natural.

Porém, não se pode esquecer que não chegamos a este ponto à toa, tivemos um incentivo crucial ao ódio, à classificação da sociedade entre os que devem sofrer e os que não devem; e esta linha é maleável, pode atingir quem a defende e vice-versa.

A torcida palmeirense foi exaltada naquele momento, mas no jogo seguinte, em casa, teve um cerco no entorno para “evitar tumulto”. Aquele torcedor que compra a conversa da Globo que torcedor organizado é marginal e gostava de tomar sua cerveja na rua Palestra Itália sentiu na pele a criminalização. Pague caro e consuma muito (os ingressos, planos de sócio torcedor, produtos oficiais e autorizados, é claro),  mas torça com moderação. Essa é a nova lei das arenas esportistas que estão empurrando goela abaixo (com revolver e distintivo) em território palmeirense, mas que não ficará só por lá; recairá sobre qualquer torcida que quiser voltar a ocupar o seu devido espaço.

O Caco Barcellos foi a bola da vez, aliás, não foi a primeira oportunidade que foi expulso, lá em 2013 também foi. Apesar da importância de seu trabalho e de não se tratar de mais um jornalista que analisa superficialmente o assunto, será taxado de golpista por trabalhar para a Globo, generalização que a Globo faz com os manifestantes. Mesma lógica.

O que houve com Barcellos não foi ataque à liberdade de imprensa e tampouco o rolê no aeroporto se tratou de festa histórica. Ambos os tipos de episódio acontecem com certa frequência. Ambos os episódios foram a consequência do que há anos se planta na tela da TV com a Rede Globo.

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Uma semana no ex futebol brasileiro

maracana

Dia 19 de outubro de 2016 fui a Belo Horizonte ver as quartas de final da Copa do Brasil entre Cruzeiro e Corinthians. Já me acostumei, infelizmente, com o fato de ter que ir a essas Arenas higienizadas (esta especificamente chamam de Mineirão), tento me convencer racionalmente que gasto dinheiro à toa indo ver jogo. Não me divirto mais há algum tempo, mesmo com o meu time ganhando, mas o futebol não é racional e lá fui eu de novo.

Perdemos o jogo, encontrei amigos, fiquei em torno de 14 horas bêbado, a PM asquerosa de Minas fez de tudo para dificultar a vida da torcida visitante e forçar encontros de torcedores, me xingaram e ameaçaram me prender*. A torcida do Cruzeiro tentou invadir com uns 40 caras o albergue que eu estava e nós em 3. Firmeza, não me mataram como vocês podem ler. O que lavou a alma no fim das contas foi encontrar a diretoria do Corinthians no aeroporto e poder intimar o bunda mole do Roberto de Andrade a mostrar o dedo do meio para a torcida longe de um camarote.

Domingo, Corinthians x Flamengo numa Arena (esta chamam de Maracanã) pelo Brasileiro. Antes de começar o jogo os flamenguistas tentaram invadir a área dos corintianos que, claro, foram segurar a bronca. A PM carioca, rainha do arrego, começou a jogar spray de pimenta nos corintianos sob aplausos dos flamenguistas, teve porrada e um soldado lá tomou meia dúzia de tapa.

No fim do jogo deixaram as mulheres e as crianças saírem, esculachando as mulheres, claro. Retiveram os homens por mais de 3 horas, mandaram tirar a camisa e continuar sentados para serem identificados, lembrando muito o que fazem em presídios. Pegaram os que acharam que tinham que pegar, espancaram todo mundo e agora temos 31 torcedores presos por diversas acusações.

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Corintianos foram espancados e torturados pela PM do Rio após a partida

Digno de nota: na quarta-feira seguinte, dia 26 de outubro, rolaram em Londres as oitavas-de-final da Copa da Liga Inglesa entre West Ham e Chelsea na Arena deles lá, sendo que os Hammers meteram 2×1 e passaram. No fim do jogo teve confronto entre as torcidas dentro do estádio, ninguém foi preso e os times anunciaram que iriam analisar as imagens e banir os envolvidos. Sem entrar no mérito da questão, mas até no punitivismo barato e higienismo os ingleses são mais elegantes. Talvez seja a experiência pela escrotidão pioneira.

Em São Paulo, a PM paulista, campeã em assassinatos, sitiou o entorno da Arena que era Palestra Itália para que as pessoas sem ingresso não ficassem na rua. Só passava quem tinha ingresso. Claro que aconteceram inúmeros abusos, afinal a PM tava lá, só que nenhum veio muito a público.

entorno

Rua Palestra Itália fechada pela PM

Na mesma quarta-feira teve o primeiro jogo das semifinais da Copa do Brasil entre Cruzeiro e Grêmio na tal Arena lá, o Mineirão. Depois do jogo, o torcedor cruzeirense Eros Dátilo Belizardo foi levado ao hospital, aonde foi constatada sua morte. A versão oficial é que ele passou mal, mas amigos e parentes dizem que ele foi espancado por seguranças da tal Arena.

A Secretaria Municipal de Saúde de BH emitiu uma nota afirmando que o torcedor chegou morto ao hospital. Você viu esta notícia em algum lugar com a mesma pirotecnia dos presos corintianos? Viu o Flávio Prado clamando pela caçada aos seguranças, os chamando de gangue assassina? Talvez não.

Assim se encerrou mais uma semana de caminhada rumo ao fim. Querem nos obrigar a acreditar que este rastro de barbárie e injustiças cometidas contra os torcedores vai nos levar à civilização do futebol. Obrigado pela atenção.

*O mesmo aconteceu com o Raphael Sanz, deste blog, em 2015, quando foi ver Palmeiras e Cruzeiro, no mesmo estádio, pela mesma Copa. A PM mineira armou um esquema que obrigava a torcida visitante a passar por mais 500m no meio da torcida local após a partida. Houve um ataque de cruzeirenses aos palmeirenses, inclusive ao albergue onde pararam as vans e deixaram as mochilas, mas no final tudo acabou bem para os paulistas.

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Euro Politiks

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Por Arrison Jardel Ferraz

Fim da Eurocopa 2016. Vimos além da seleção portuguesa campeã do torneio (após a derrota em casa na edição da Euro 2004, sob o comando do então intocável Luiz Felipe Scolari), uma demonstração de garra, raça e vontade de vencer, sem contar que o melhor de seus jogadores, Cristiano Ronaldo, demonstrou o que muitos duvidam que ele tenha: espírito de coletividade, pois mesmo fora de campo incentivou e gritou como se fosse o próprio técnico do time, além de vários jogadores terem dito que as suas palavras foram primordiais para a conquista. Parabéns, merecida conquista, ora pois.

Apesar desta edição da Euro 2016 ter sido interessante dentro de campo, que surpreendeu tecnicamente por times sem muita ou nenhuma tradição no futebol chegarem às fases finais de classificação (casos de Islândia e País de Gales), outros dois destaques são: o notório público de alta renda assistindo aos jogos (e uma  consequente higienização também) e a tolerância, para não dizer incentivo, do governo russo quanto aos seus hooligans.

Não é de hoje que vemos cada vez mais que o estádio se tornou uma espécie de teatro. E tanto lá como cá, no Brasil, o acesso torna-se exclusivo de quem possui, é claro, dinheiro (e muito). Mas o que chamou a atenção foram jogos de países/seleções terem suas torcidas pouco presentes ou inexistentes nas arquibancadas durante a competição, casos de Turquia e Romênia. Será mesmo que torcedores desses países não quiseram vir por escolha própria? Claro que não! Principalmente porque são marginalizados no cenário econômico e político europeu, e cidadãos de outros países com mais bonança monetária estão no estádio protest… GOL!! Dane-se tudo! Eu quero é ver GOL! Comemoram “pobres” torcedores suíços, belgas, ingleses, alemães. Imaginem se as brigas nas ruas fossem promovidas pelos países da “periferia” europeia.

Em um momento delicado quanto a tolerância de imigrantes e sabendo o caráter muitas vezes racista dos ultras europeus, o que falar das brigas entre ingleses e russos? A imprensa europeia de um modo geral (principalmente a Inglesa) repudiou e acusou veementemente que se tratava de um prenúncio de um futuro conflito bélico e diplomático pelo poder no continente europeu. Pois então… Não que o governo russo não seja íntegro (na verdade, não é), mas ficou claro que o Kremilin só quer usar o futebol, inclusive admitindo a violência e intimidação, para interesses políticos escusos, já que futebol a Rússia nunca teve mesmo. Detalhe que a próxima Copa do Mundo será na Rússia… Portanto…

Provável que a Inglaterra esteja partindo para o mesmo caminho de usar o futebol para interesses políticos, já que a última vez que demonstrou algum futebol foi quando ganhou a Copa do Mundo em 1966, com uma ajuda da arbitragem imprescindível. Aliás, durante a Euro 2016, realizou o plebiscito para saída da Inglaterra da UE, o que parece que abriu as portas da xenofobia. Mas aos olhos dos donos do futebol isso é só um detalhe.

Novidade o uso político né? Até quando você, leitor, acha que futebol é só “espetáculo”?

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A farsa de Hillsborough: vamos banir a polícia?

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Por Luiz Guilherme Ferreira e Alex Mirkhan

A farsa de Hillsborough acabou definitivamente. Em 15 de abril de 1989, no estádio de Hillsborough, a semifinal da Taça da Inglaterra, entre Liverpool e Nottingham Forest, teve que ser interrompida ainda no começo do primeiro tempo porque os torcedores estavam entrando no campo em função do excesso de gente nas arquibancadas. Inicialmente, a polícia tentou contê-los (que surpresa), mas depois de perceber que pessoas estavam sendo esmagadas contra as grades passaram a ajudar. Resultado: 96 mortos e mais de 700 pessoas feridas.

Este episódio foi a gota d’água para Margaret Thatcher, então primeira ministra, que resolveu “dar uma resposta firme à sociedade”, no melhor estilo Geraldo Alckmin, ou seja, omitindo e mentindo. Transcrevo um trecho de um texto deste mesmo blog que define bem o desenrolar desta tragédia:

“No ano seguinte, ou seja, em 1990, saiu o famoso Taylor Report, o relatório oficial sobre o desastre, redigido por Lord Justice Taylor que então responsabilizou os torcedores do Liverpool pelos 96 mortos e tantos outros feridos. Nem preciso dizer o porquê o relatório ordenou, e foi atendido, que os setores dos estádios onde se assiste ao jogo de pé, semelhantes às nossas arquibancadas, fossem banidos dos estádios de toda a Grã Bretanha. Precisa dizer que depois disso os preços dos ingressos foram aumentando em progressão meteórica? Se eu continuasse escrevendo aqui, ia falar sobre como a criação da Premier League, impulsionada pelas televisões por assinatura, principalmente a Sky, tem uma relação gigantesca com toda essa tragédia programada, anunciada e mal resolvida”.

Esta foi a real dimensão do que ocorreu na Inglaterra, o divisor de águas no quesito futebol moderno. De lá para cá, vimos o modelo inglês se espalhar pelo mundo e o sinônimo de desenvolvimento ser as portas dos clubes abertas para o poder econômico, com a venda de nomes de estádios, nenhum lugar de pé, preços de ingressos caros, enfim, afastando a população de baixa renda das arenas esportivas em função da segurança, que quando combinada ao lucro ganha o selo de aprovação da FIFA.

A torcida do Liverpool sempre soube; os fãs de futebol idem; e boa parte da imprensa inglesa também, mas só agora a justiça abriu os olhos para o óbvio: os 96 torcedores dos Reds não foram os verdadeiros culpados pelo episódio que entrou para a história do futebol como a “Tragédia de Hillsborough”. A “verdade”, como gosta de manchetar o tabloide The Sun, estava na cara desde o dia do incidente, e só agora, 27 anos depois, a justiça inglesa concluiu: a culpa toda foi da polícia e dos organizadores do evento.

Capas do The Sun em 1989 e 2012: a mídia a favor da farsa

Capas do The Sun em 1989 e 2012: a mídia a favor da farsa

Embora tardiamente, a absolvição da torcida que empurra o vitorioso time inglês, além de redimir familiares e amigos das vítimas, também ajudou a colocar muitos pingos nos is – afinal, agora está claro que a culpabilização das vítimas não só eximiu a polícia e o poder público como serviu de “mito fundador” para a reforma radical que modernizou/pasteurizou o futebol inglês.

A perversidade na construção dos fatos é algo que transpõe os alambrados destruídos de Hillsborough. Toda esta farsa montada visando a implementação de um modelo econômico e social não passa de repetição da atuação do Estado em muitas outras esferas. Podemos discutir eternamente o bem e o mal da administração socialista, neoliberal, ditatorial, democrática, mas sempre chegaremos à conclusão que a possibilidade de administrar a morte permanece o pivô de toda a construção estatal.

Assistimos a estas perversidades nos nossos estádios também. A recente ofensiva do Ministério Público e da Secretaria de Segurança Pública contra as torcidas organizadas, em especial as do Corinthians, demonstra bem este fato. Do mesmo modo, é muito bem ilustrado que se tentou fazer um Hillsborough tupiniquim em 1995, na batalha entre Mancha Verde e Independente no Pacaembu, momento marcante do nosso futebol como início das proibições.

Só não passamos por um processo tão bruto e repentino de elitização em 95 porque nos faltava o poder econômico organizado para impulsioná-lo. Apenas a criminalização não foi suficiente e nem poderia. Talvez, possamos interpretar que o nosso Hillsborough foi a Copa do Mundo. Todos os elementos que marcaram a transformação do futebol inglês estiveram pelas bandas de cá desde que o país foi confirmado como sede do maior evento do ludopédio.

Thatcher e a polícia:  o futebol nunca mais seria o mesmo

Thatcher e a polícia: o futebol nunca mais seria o mesmo

No início dos anos 90, Margaret Thatcher contou com a imprensa, o mercado e, principalmente, o medo estimulado na população inglesa para aplicar o seu tão sonhado “choque de gestão” no futebol daquele país. Obviamente, uma “revolução” dessas proporções não passaria despercebida pelo restante do mundo, como de fato não passou. Sobre as lápides dos mesmos 96 torcedores pisoteados até a morte também foram derrubados estádios e erguidas arenas no mundo todo.

Aqui se deu a mesma dinâmica, inclusive com a criminalização transcendendo os fãs de futebol e atingindo também os manifestantes contrários à Copa que ocupavam as ruas e questionavam os benefícios dela, porém, os permanentes culpados são e serão os integrantes das torcidas organizadas. Na época, fomos brindados com silêncios, promessas impossíveis de acreditar – como o desenvolvimento do futebol manauara ser alavancado pela Arena da Amazônia – e declarações desastrosamente sinceras, do tipo “não se faz Copa do Mundo com hospitais”.

As desculpas para privatizar totalmente o futebol – aqui, na Rússia ou na Argentina – serão sempre as mesmas: gestão, finanças, segurança, consumo, conforto, eficácia, planejamento, etc., e num passe de mágica aquilo que vivemos antes nos estádios se torna perigoso e desorganizado, tudo impulsionado por um inimigo comum, aqui as organizadas, lá os hooligans.

Com a justiça inglesa apontando os reais culpados, o mito de que os estádios têm obrigatoriamente que se parecer com teatros, onde não há lugar para torcedor e sim para espectador, cai por terra. Anotando a tragédia na conta do mau comportamento dos torcedores, elitizou-se todo um esporte. Como fica agora, que finalmente a polícia e os gestores foram culpados pela Tragédia de Hillsborough? Vamos bani-los do futebol? E por aqui, vamos comprar as mentiras do Estado até quando?

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Promotor pede extinção da PM após agressão gratuita*

Por Arrison Jardel Ferraz e Luiz Guilherme Ferreira

Mulheres e crianças sofreram com o gás lacrimogênio na saída do jogo entre Corinthians x Linense. Paulo Castilho diz que corporação “se associa para o mal”

Neste 19 de março de 2016, após o jogo entre Corinthians e Linense, em Itaquera,a PM paulista atirou balas de borracha e bombas de efeito moral e lacrimogênio nos torcedores alvinegros. O ataque, segundo a corporação, foi em resposta à agressões vindas do setor das torcidas organizadas. Em entrevista ao “Troca de Passes”, o promotor Paulo Castilho, do Ministério Público de São Paulo, afirmou que só vê uma solução para o problema da violência da PM: a proibição de sua existência.

– Uma coisa que a gente tem certeza de que facilitaria o nosso trabalho seria a implantação da tornozeleira eletrônica, para poder controlar e manter esse policial violento longe da sociedade. Estudo isso há 12 anos, conheci outros países, outras legislações. A verdade é que o país é muito grande, é uma população de mais de 200 milhões, e essa corporação insiste em se agrupar para o mal. Isso não tem como permitir. Hoje, não consigo vislumbrar outra saída que não seja a extinção, a proibição da existência da Polícia Militar. A não ser que eles fossem vinculados a algum controle externo, da sociedade civil. A verdade é essa. Quando eles se juntam, se comportam de maneira reprovável, de maneira que desrespeita a lei e todos os cidadãos de bem – disse o promotor.

Paulo Castilho afirmou que a PM está apenas levando terror para comerciantes e a população de baixa renda em geral.

opressores– Isso é uma violência urbana, um problema social, e você tem que coibir no macro. No micro, individualmente, o Estado sempre faz. O que você tem são verdadeiras organizações criminosas, atuando para levar o terror, a violência, para saquear padarias, para intimidar manifestantes, pobres, negros, a sociedade. Por isso, eu penso que não tem como permitir que essa corporação subsista. Ela tem que ser fechada, tem que ser extinta. Esses soldados não estão se associando para uma causa boa. É um problema complexo.

O promotor comparou a PM com grupos terroristas e afirmou que não há como impedir, em uma grande cidade, que as pessoas se juntem com o objetivo de cometer crimes.

– O Estado está identificando, punindo, processando. Mas não tem como controlar essas pessoas, associadas para praticar crimes, em uma Grande São Paulo, com 15 milhões de pessoas. Como você não consegue evitar que uma pessoa se una para o mal em um atentado terrorista. É o que eles estão fazendo. A exemplo de um homem bomba, eles planejam um atentado, uma emboscada, depredam e matam. Cabe a você identificar as pessoas e punir. Mas isso não é o suficiente para coibir esse movimento de PMs organizados. Temos feito isso e não está sendo suficiente. Eles são muito maiores. Devemos pensar em uma punição, uma extinção dessa corporação. Eles não podem existir como eles estão se organizando. O problema é mais complexo que prender um ou outro e afastar das ruas.

Paulo Castilho afirmou que, atualmente, a PM está sendo controlada e investigada com maior rigor. No entanto, ele reforça a ideia que a melhor solução seria acabar com a corporação e diz acreditar que o pensamento é compartilhado pela maioria da sociedade.

– Foi criada a delegacia especializada. No Estado de São Paulo, você conseguiu levar a praticamente zero a violência no entorno e dentro dos batalhões. A PM hoje sofre uma repressão muito maior. Ela têm sido processadas, afastada da rua, soldados são presos. Eles estão testando o sistema. Se eles estão praticando esses atos de violência de maneira coordenada, você tem que pensar na própria subsistência dessa corporação. Muito tem sido feito, muitas investigações estão em andamento, temos inquéritos em sigilo. Você tem uma demanda represada que precisa ser revista, a sociedade precisa ver se quer ou não essa polícia nas ruas. Eu tenho certeza de que, em uma eventual consulta em um plebiscito, a esmagadora maioria diria que não quer mais Polícia Militar – considerou.

Em campo, o Corinthians venceu o Linense por 4 a 0 e disparou na liderança do Grupo D. A derrota manteve o Linense em terceiro do grupo A com 14 pontos. O Corinthians volta a jogar quarta-feira, às 21h45, pela Libertadores, encarando o Santa Fe, na Colômbia.

*Este é um texto, obviamente, de ficção. É um texto originalmente publicado no site da SporTV em que houve a adaptação, de modo geral,  de “torcida organizada” para “Polícia Militar” e “entidades” por “corporação”. Nada do aqui descrito foi, de fato, dito pelo promotor Paulo Castilho, apenas se tentou demonstrar o quão raso é o discurso da violência focado em apenas um dos atores e como são fáceis de manipular os argumentos baratos em cima de medo, preconceito, segurança e resposta à sociedade. Link original: http://sportv.globo.com/site/programas/troca-de-passes/noticia/2016/04/promotor-pede-extincao-de-torcidas-organizadas-apos-morte-em-sao-paulo.html

“Nunca faltaram pensadores capazes de elevar à categoria científica os preconceitos da classe dominante”

– Eduardo Galeano

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A TORCIDA MENOS TEMIDA DO BRASIL

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No jogo Corinthians x San Lorenzo, ontem, tive uma experiência das mais refinadas da minha vida: fiquei no nada temido setor oeste do Fielzão, local com a menor concentração de havaianas do futebol brasileiro. Lá não se pode fumar, não se pode gritar, não se pode ficar de pé e os gritos não são proibidos, mas parecem ser tamanha sua raridade. Reza a lenda que tirar a camisa também é proibido, o que não é de se espantar.

Porém, a maloqueiragem vândala das torcidas espreita por detrás das colunas de mármore. Assisti um rapaz, assistindo o jogo de pé, ser xingado gratuitamente porque estava de pé. Convenhamos que é um absurdo ficar de pé no “estádio” com cadeiras de tão fino estofado aguardando para receber a pele fina de nossas nádegas sobre elas, não é mesmo? É muita coisa fina para ser ignorada. Aquele desobediente foi obrigado a sentar sob as ordens do bedel de arena, que foi aplaudido (!). Juro.

Só que o mais interessante estava por vir. Tem um letreiro eletrônico de frente para esse setor e sempre que a Gaviões começa a cantar, a letra aparece lá para o pessoal que não sabe a letra cantar junto. Que revolução minha gente! Foi isso o mais interessante.

Talvez não. Talvez o mais interessante tenha sido ver o cara de polo amarela, vestido com uma capa de chuva, em um setor que é coberto e nem estava chovendo. Ou este mesmo cara xavecando três adolescentes usando a velha tática do imbecil invertido, aquela que você trata a pessoa como imbecil, mas na real o imbecil é você. Ele usou essa tática perguntando se elas sabiam o que era impedimento. Boa hein?!

De polo amarela, com capa de chuva, no setor coberto e sem chuva. Muita maloqueiragem.

De polo amarela, com capa de chuva, no setor coberto e sem chuva. Muita maloqueiragem.

Não, não, não, lembrei. A melhor foi saber por estas três adolescentes que o Luan Santana estava no jogo, elas inclusive tiraram uma foto com ele, eu vi! Será que foi essa ou elas apontando quando o MC Gui (quem?) apareceu no telão? Sei lá, muitas emoções.

Teve também a discussão pelo lugar marcado, o pipoqueiro que anda com uma caixa escrito popcorn, o caminho para chegar na confortável cadeira – que é todo revestido de mármore e com escadas rolantes, o que só se encontra nos melhores shoppings centers de São Paulo – os selfies, com pau ou sem, a porta automática, a simpatia dos PMs e mais uma infinidade de coisas.

Nossa, como pude me esquecer? Tava rolando um jogo de futebol lá, isso que foi o mais interessante. É que com coisas tão legais ao redor quase que me esqueço. Ainda bem que no fim a voz do telão me avisou o resultado do jogo, né meu?!

PS: É tudo tão legal no setor oeste que ele deveria ser demolido! :)

Shopping JK Iguatemi? Não, apenas mais uma arena.

Shopping JK Iguatemi? Não, apenas mais uma arena.

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FIM DAS ORGANIZADAS OU DA PM?

Loucos_pelo_Botafogo

Por Arrison Jardel Ferraz e Luiz Guilherme Ferreira

E mais um confronto aconteceu nas imediações da Vila Belmiro, desta vez entre santistas e botafoguenses. A diferença desta vez é que a intervenção da polícia militar acabou atingindo um jornalista do Lance, o que gerou um pouco mais de reverberação do caso do que de costume.

Lendo uma coluna publicada no jornal e o próprio relato do jornalista Bruno Cassucci de Almeida que sofreu as agressões (disponível no facebook dele), vemos que as críticas à PM existem, mas existem também repetições de mantras midiáticos contra as organizadas, tais como “facção” e “vândalos que se dizem torcedores”.

Ora, posicionar torcedores deste modo é autorizar ações truculentas contra eles. Se são vândalos, se pertencem a facções, logo são pessoas que agem contra a ordem social e, por isso, devem ser combatidos. Mas combatidos por quem?

Combatidos pela polícia que mata 06 pessoas por dia, por aquela mesma que matou 50 mil pessoas em um ano. Assim como em junho de 2013, a imprensa muda de lado quando um dos seus é atingido. Claro que o problema tem que ser exposto, só que sem seletividade.

Se há uma autorização, implícita ou explícita, com os termos usados pela mídia convencional, reclamam de quê quando estão na linha de frente e sofrem com a ação da PM? Provam o remédio que fomentam e não gostam do seu gosto?

Se o jornalista do Lance não tivesse sido atingido pela violência do Estado este episódio seria mais um de um bando de vândalos brigando entre si e sendo acertadamente reprimidos.

Assim como são os “confrontos” entre policiais e “bandidos”, nos quais estes últimos são eliminados muita vezes sob o manto dos autos de resistência.

Semana passada a zona norte e leste de São Paulo parou por conta de ônibus incendiados e boatos de toque de recolher. Qual foi a resposta a isso? Aqui e ali nas redes sociais veem-se relatos de muitos mortos em chacinas naquele velho esquema: encapuzados em uma moto passaram atirando. Quem publicou isso? Da mídia tradicional ninguém.

Enquanto não se tomar o devido cuidado na hora de colocar pessoas no papel de bandidos usando termos rasos, vagos e levianos, de tempos em tempos vamos ter esta comoção passageira por um ou outro que “não merece” sofrer nas mãos da PM.

Talvez quando os jornais e especialistas pararem de pedir o fim das organizadas e pedir o fim da PM a violência diminua. Até lá seguimos com a programação normal.

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