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Para cada clube, duas torcidas

 Por João Bruxo

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Nesta quinta-feira o Palmeiras jogou – e venceu a Ponte Preta por 2 a 0 – no Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho. O seu, o meu, o nosso.

No entanto não vou falar da bela surpresa que Alberto Valentim tem mostrado, nem das esperanças reacendidas nos mais otimistas. Sim, essas são coisas que nos fazem se apaixonar pelo futebol. Mas têm outras. Vou falar da torcida, do ônibus que sai da Marquês de São Vicente e vai ao Pacaembu e de como tudo isso é maravilhoso. Ir ao estádio.

Não estou falando de “experiência”. Estou falando de ir ao estádio. Aquela coisa corriqueira e deliciosa que a gente costumava fazer um tempo atrás. A um estádio propriamente dito. De cimentão mesmo, daqueles que você consegue se mexer sem bater o joelho numa maldita cadeirinha. Não essas novas arenas (a nossa, a dos rivais e tantas outras dessas que fizeram afora). Frias e calculistas. Projetadas para a vigilância.

Estive em Montevideo no começo do ano. Uma baita jornada, aliás. Mas me atenho ao fato de que a Mancha Verde, naquela ocasião, lançou uma música muito legal que dizia que o torcedor larga tudo para ver o Palmeiras jogar. Que outro lugar e situação poderiam contrariar a letra? De lá pra cá, a principal torcida organizada do Palmeiras tentou por diversas vezes cantar esta nova música, de letra mais longa, nos jogos da Arena, mas foi ontem, no bom e velho Pacaembu que ela pegou de verdade e o estádio inteiro, crianças inclusive, se contagiaram com o ritmo.

Meu amigo de arquibancada e companheiro de futebol de várzea e boemia (também um excelente jornalista) que muitos aqui conhecem como Leandro Iamin me chamou a atenção para isto que falei acima. “Sabe por que essa música foi lançada de verdade aqui no Pacaembu? Porque isso aqui é um estádio de verdade, as pessoas que vêm aqui, vêm aqui pra isso”. Leandrão, meu parceiro, não tem o que pôr nem tirar.

A caminho do santuário

Terminei minha jornada de trabalho nesta quinta por volta das cinco e meia da tarde e já corri para o ponto de ônibus. Um para a Marquês de São Vicente e, em seguida, outro até a Praça Charles Miller. Mas esse segundo demorou demais.

Normalmente eu fico louco da vida quando o ônibus atrasa tanto assim – o que não é saudável, pois moro em São Paulo e ando de ônibus. Mas o Palmeiras ia jogar no Pacaembu e torcedores iam acumulando no ponto de ônibus a cada minuto de atraso. E para além dos seres humanos, um grupo de maritacas, surpreendentemente tomava de assalto uma árvore no canteiro central da avenida e cantavam. Era a natureza prevendo a vitória.

Um rapaz, recém saído do trabalho, ainda se vestindo de verde me pergunta:

  • Esse ônibus vai pro Pacaembu?

Não ia. Era um ônibus que iria por Perdizes. Mas começamos a conversar. O cara era um trabalhador, assim como eu e a maioria desse Brasil. Depois de mais uns dez minutos de espera, dois Ana Rosa verde ao mesmo tempo. O de trás era o nosso, mas a ansiedade já fazia muitos companheiros se dirigem ao primeiro. Alguém gritou: “É o detrás, Parmera!”

E lá subimos nós naquele coletivo que já estava forrado de camisas verdes. Celulares e toda sorte de utensílios individualizados, daqueles que te deixam afastado do que acontece ao redor, foram ao seu devido lugar: os bolsos. Todo mundo conversando, cantando, pensando no Valentim, no jogo, no ano que vem. De resenha sobre viagens de visitante, imbróglios dentro de torcida, tudo. Falava-se sobre tudo o que diz respeito ao Palmeiras e ao futebol como um todo. O rapaz comentou comigo:

  • Pô, você viu que hoje só venderam 15 mil ingressos?
  • Melhor assim, respondi, são os 15 mil que vão agitar até o final.

Eu já esperava uma resposta dentro do senso comum que permeia essa modernidade de plástico do futebol moderno. Mas o jovem trabalhador, uns dez anos mais novo que eu, senão mais, respondeu:

  • Cara, você tem razão. Ali no Gol Norte da Arena, onde normalmente eu vou, o pessoal agita mesmo, mas desde que a WTorre comprou um pedaço das cadeiras, tá muito difícil de ir lá. Daí uma vez acabei indo na Superior e no meio do jogo um monte de gente nem aí. Sentado, olhando celular, jogando cartola.

E até a Charles Miller fomos aprofundando esse assunto, até que cada um foi encontrar a sua turma e se despediu.

O jogo e o Estádio

O jogo, ou melhor, a catarse coletiva, foi reflexo do que é o Pacaembu para o Palmeiras desde a sua reconquista na vitória contra os rivais, em que em dois minutos, Prass pegou um pênalti e Dudu, com sua pequena estatura, marcou de cabeça. Desde este exorcismo com requintes de crueldade, e ainda que muitos palmeiristas se recusem a aceitar devido a alguns fracassos recentes como em 2010 e 2013, o Pacaembu agora é nosso! E ninguém tasca. Nem o prefeito.

O time reencontrou o bom futebol e, contagiado pela torcida, também a contagiou. O resultado em termos práticos despertou a esperança dos otimistas. “São 9 pontos em 9 jogos, eu sou palmeirense, tenho que acreditar”, afirmou Gabriel Santoro, uma figurinha carimbada e fenômeno no youtube por sua produção audiovisual e artística. Confesso que não sou tão otimista assim, mas reconheço uma pequena possibilidade.

E nesse clima, a nova música da Mancha pegou: https://www.facebook.com/fabioluis.paiva.9/videos/1618882118173041/

Voltando pra casa

 Por volta das 11 e meia da noite, um vizinho e companheiro de bancada chamou um Uber Pool, aquele mais barato que, no caminho, pode pegar outros passageiros. Me aprumei, saquei cinco mango do bolso, dei pra ele e falei, “vamos pro bairro senão complica”!

Entramos no carro e ele deu uma volta para pegar um passageiro em um barzinho ali próximo do Mackenzie. Entrou um jovem estudante, da mesma idade do rapaz que eu havia conversado na ida. Vestia calça jeans e camisa branca.

  • Nossa galera, top, eu também sou Palestra pra caralho! Mas hoje não deu pra ir ao jogo pois não posso mais faltar nessa aula e também porque tá cheio de buceta aqui no bar, relatou.
  • Ah, é, tem que estudar mesmo – respondi tentando dar aquele corte no assunto.
  • É, mas eu assisti aqui no “PremierPlayMobileSocialNetworkHandApp” (não entendi exatamente aonde ele assistiu, mas fica esse registro)
  • Na minha época tinha que ouvir no radinho mesmo numa situação dessa – respondeu o vizinho, ríspido, tentando cortar o papo.

O rapaz prosseguiu, mexendo no celular, sem nem entender o que acontecia, e não era por conta das cervejas que tinha tomado, mas porque esse consenso é tão martelado pela Globo que viver, naturalmente, de modo que foge disso, é impensável:

  • E aqui no Cartola, fiz mais de 30 pontos com o Diego e o Réver, tô em primeiro na liga!
  • Como assim?
  • Diego e Réver fizeram dois gols hoje e eu escalei ele.

Pedi que me explicasse como funcionava o tal “jogo interativo oficial do futebol brasileiro”. Ele explicou nas mais sinceras palavras um verdadeiro site de apostas maquiado de game interativo. Curioso, no mínimo. Mas o uber chegou ao nosso bairro, e nos despedimos do motorista e inconveniente companheiro.

  • Boa noite a todos
  • A gente se vê, estou sempre na Arena! – respondeu para se despedir.

Modernidade sem realidade

Fiquei encucado com isso. O universitário e o trabalhador, da mesma idade. Um trocou o Pacaembu pelo “bar cheio de buceta” mas sempre está na Arena. O outro deu um jeito de sair mais cedo do trabalho, mesmo em tempos de “não pense em crise, trabalhe” pra acompanhar o time aonde quer que fosse, que antes do prélio estava muito desacreditado no campeonato. O jovem trabalhador esteve presente nesse momento que, como dito, nos deu um fio de esperança em 2017.

O problema não é a Arena em si. O Estádio Palestra Itália, reformado, continua maravilhoso. Perdeu um pouco daquela coisa romântica, do céu aberto e o fosso. Mas é um baita de um estádio, não tem o que falar. O problema não são as coisas, mas os projetos e as maneiras como as coisas são feitas.

O Estádio do Palmeiras, da forma como está, poderia ser mais Estádio do que Arena. Poderia ter, pelo menos, chutando minimamente, metade da sua capacidade voltada aos setores mais populares. Mas não. É menos de 20% da capacidade: cerca de 8 mil dos 40 mil que podem entrar. Podia-se retirar as cadeiras desse setor popular, podia-se desligar as câmeras de vigilância extensiva que atuam como se uma horda bárbara vá pôr tudo abaixo na menor frustração. Um aparato que, não tendo o que fazer, se ocupa de perseguir um torcedor que acenda um sinalizador, faça algum protesto ou pasmem, que xingue ostensivamente um dirigente malquisto. Nem as organizadas escapam com cada vez mais punições que utilizam as “imagens de segurança” das arenas. Que de tão boas que são poderiam identificar indivíduos infratores, mas preferem criminalizar instituições inteiras a cada cuspe na hora errada.

Temos tudo na mão! O Palmeiras é uma escola de futebol, a eterna academia, mas não só. É uma escola de arquibancada e de paixão incondicional como o seu povão e organizadas têm provado. Precisamos é que o clube corresponda a isso, e valorize essa torcida que o fez ser o que é. Não aqueles que se sentam o jogo inteiro, de olho no cartola, torcendo por jogadores do Flamengo e locupletando-se de uma modernidade que torna o estádio um lugar seguro pra ele. Os velhos estádios são hostis a gente assim. Imagina só um IPhone 59 despencando, sem querer, arquibancada amarela abaixo. Antes tínhamos uma só torcida. Hoje temos duas. E o Palmeiras (e os outros grandes clubes não fogem disso) precisam decidir o que querem da vida.

A grande verdade é que após a tiagoleifertização do futebol, até o Chico Lang parece ser um cara legal. Talvez por isso a gente nunca mais o tenha xingado na saída dos jogos.

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*João Bruxo é uma entidade satânica que vive em São Paulo, é mais podre que a cidade em que vive, e encarna em alguns palmeirenses que nasceram com espírito rebelde. Este texto poderia ter sido escrito por muitas mãos, ou apenas uma: a mão imaginária de João Bruxo.

 

 

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Pebolim foi inventado por poeta anarquista para crianças refugiadas da Guerra Civil Espanhola

Texto de Fabián Mauri, para a Revista Un Caño

Traduzido e adaptado por Raphael Sanz, para a Destilaria da Bola

Créditos: Revista Un Caño

Créditos: Revista Un Caño

 

Madrid, 1936.

Alejandro Campos Ramirez (1919-2007), um jovem galego oriundo de um vilarejo chamado Finisterre – do latin, “o fim da terra” – deambula pelas ruas da cidade e pressente que seus desejos talvez estejam a ponto de serem cumpridos. Alguma vez sonhou em ser um grande arquiteto, mas apenas trabalhou de pedreiro. E acontece que sua verdadeira vocação foi a poesia. Conseguiu um emprego que o fazia feliz e de alguma maneira o aproximava desse universo boêmio dos artistas que admirava: aprendiz na imprensa. Se considerava um idealista prático, um anarquista pacífico que aspira viver, algum dia, em um mundo em que os homens não precisem mais serem governados por nenhuma autoridade. Nesse cobertor  de sonhos aquecia-se às vésperas do estalar da Guerra Civil Espanhola.

Uma bomba caiu sobre a casa em que vivia e ficou preso debaixo dos escombros. Gravemente ferido, foi levado a um hospital, de onde saiu coxo e com problemas respiratórios, durante um longo tempo. Ali foram chegando refugiados de guerra, mulheres e muitas crianças mutiladas – que fizeram elevar sua sensibilidade de poeta. Anos mais tarde, em 2004, contou a um jornalista do diário La Vanguardia de Barcelona o episódio de sua vida pelo qual hoje é recordado.

“Era o ano de 1937. Eu gostava de futebol, mas já estava coxo e não podia jogar. E sobretudo me doía ver aqueles meninos também coxos, tão tristes porque não podiam jogar bola com os outros. E pensei: se existe tênis de mesa, também pode haver futebol de mesa! Consegui umas barras de aço e um carpinteiro basco, refugiado ali, Javier Altuna, me construiu bonecos de madeira. A caixa da mesa foi feita com madeira de pinheiro, creio, e a bola com cortiça aglomerada de boa qualidade. Isso permitia o controle da bola, dominá-la, passar com efeitos, e assim por diante”.

Com todo acerto, o jornalista catalão Victor Amela observou que “inventar um jogo que consiga neutralizar por um momento a ignomínia da guerra é como compor um poema com espaço e tempo”.

Não foi o futbolín – assim se chama o pebolim na Espanha – a única invenção sensível do poeta: em uma ocasião, apaixonado por uma pianista, inventou pra ela um artefato que permitia passar as pentagramas das partituras pressionando um pedal.

Quando acabou a guerra, fugindo do Franquismo Alejandro acaba exilado na França. Mais tarde sofreu quatro anos de cativeiro no Marrocos e uma vez liberado empreendeu sua aventura americana, cruzando o Atlântico. No Equador fundou a revista de Poesia Universal. Viveu um tempo na Guatemala, onde aperfeiçoou seu pebolim e trucou a rodada com um basquete de mesa – esse último sem grande sucesso. No México participou da intensa atividade intelectual da capital federal daquele país, e se encontrou com seu referente, o poeta espanhol León Felipe. Voltou para a Espanha nos anos 80 já como um consagrado editor e passou a chamar-se Alejandro Finisterre, fim da terra, princípio de sua vida.

Sempre foi reconhecido com a importância de ter inventado o mundialmente difundido jogo de pebolim: com tantos nomes ao redor do mundo. Metegol na Argentina, Futbolín na Espanha, Pebolim em São Paulo, Totó no Rio de Janeiro, e por aí vai… “Se eu não tivesse inventado, outra pessoa teria”, comentou Finisterre. Considerava – como Jean Cocteau – que “a poesia sempre é necessária, não sei para quê, mas é necessária”.

Morreu em 2007, quando as crianças do mundo já haviam substituído seu invento pelos vídeo games. E o poeta celebrou isto: “eu acredito no progresso, existe um impulso humano no caminho da felicidade, da paz, da justiça e do amor. Esse mundo um dia chegará”.

A nós, que juntos a tantas outras gerações fomos beneficiários diretos desse esplêndido invento, fruto da imaginação e da sensibilidade daquele poeta, deveríamos prometer em sua homenagem cada vez que joguemos, respeitar e fazer respeitar para sempre aquela regra – que é uma regra mundial de obrigação moral de todo e qualquer jogador – de que não vale ficar girando – apelando – a linha de jogadores.

 

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Madrid: Rayo Vallecano x Atlético de Madrid. Créditos: Raphael Sanz

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Santa Cruz de la Sierra (Bolívia): Oriente Petrolero x Blooming. Créditos: Raphael Sanz

 

 

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[Espanha] CE Júpiter, o time anarquista que escondia armas nas bolas de futebol

Retirado da Agência de Notícias Anarquistas

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Todas as boas histórias começam em um bar, e a do Clube Esportivo Júpiter cumpre o regramento. Em 1909, na antiga cervejaria Cebrían de Barcelona, onde agora está localizado o estabelecimento El Tio Che, os irmãos Mauchan fundaram um clube que desempenharia um papel importante durante a ditadura de Primo de Rivera, na Segunda República, na Guerra Civil e no franquismo.

Esses irmãos britânicos, trabalhadores fabris no bairro de Poblenou, batizaram o time com esse nome planetário e místico, inspirados pelo ganhador de uma competição de globos aeroestáticos celebrada na praia de Mar Bella. Já num primeiro momento, o clube refletiu o espírito obreiro do bairro, o maior expoente da Revolução Industrial na Catalunha e, por consequência, em toda Espanha.

“O Júpiter era o time de Poblenou, o pulmão industrial da Catalunha, e também era chamado do Manchester catalão. O bairro era, ademais, o quartel general dos anarquistas”, explica a Vice Sports Andreu Mitjans, que documentou a história do clube no Arquivo Histórico de Poblenou. Ali se estabeleceram figuras do anarquismo e do sindicalismo espanhol, como Buenaventura Durruti, e o bairro se converteu no centro nevrálgico da Confederação Nacional do Trabalho (CNT).

O escudo do clube já era uma declaração de intenções: reluzia sem funis a bandeira catalã escorada por uma estrela de cinco pontas azul. Essa proximidade aos catalães e a República alimentaria sua apaixonante e complicada história, que mistura futebol, fábricas, apitos monumentais e grande dose de censura, mas que também esconde armas e uma resistência férrea ao golpe de Estado de 1936.

Depois de alguns anos jogando modestamente no “Campo de La Bota”, que na realidade não era nada mais do que um descampado, a equipe se federou e começou a alcançar bons resultados nos anos vinte. Desafortunadamente, seus anos de esplendor coincidiram com os de ditadura, instabilidade e repressão em nosso país.

Em 1923, o general Primo de Rivera intentou um golpe de estado e a balança não se inclinou precisamente em favor dos interesses de um clube abertamente operário e anarquista. Nessa época, a equipe mudou pela primeira vez o escudo, devido ao fato do regime acreditar que a estrela e a “señera” [nome da antiga bandeira pertencente ao reino de Aragón] eram ofensivas. Não seria a última vez, e até Franco ordenou que trocassem o nome, mas isso foi mais adiante. Melhor irmos por ordem.

O clube mudou de aparência, mas a sua base social – que então girava em torno de 2000 sócios, que não é pouco para a época – era a mesma durante o período, e seus torcedores usavam as bolas para transportar pistolas com a escusa dos deslocamentos da equipe para outros campos da Espanha.

“As bolas antigas não estavam seladas hermeticamente como as de hoje, mas possuíam cadarços como de um tênis. Os anarquistas os desatavam, retiravam a câmara de ar e colocavam dentro a pistola desmontada”, confirma a Vice Agustí Guillamón, historiador barcelonês especialista em movimento obreiro e revolucionário da época.

Em 1925, apesar da repressão, do “jogo de pistolas” e da pouca simpatia que causavam entre os estamentos militares, o Júpiter ganhou o título de campeão da Espanha pelo grupo B, o que hoje corresponde a segunda divisão. A conquista do título coincidiu com outro êxito barcelonês, o do Barcelona FC na Copa da Espanha.

“Era uma equipe pioneira na Catalunha, das mais importantes, e sua história se mistura com a do Barça pelo incidente que provocou o fechamento do campo “De les Corts”, recorda Mitjans. Ambos clubes se reuniram no antigo coliseu azul-grená para celebrar seus respectivos títulos e jogar uma partida em homenagem a Sociedade de Corais Catalã.

A Marinha Real Britânica, que estava ancorada no porto de Barcelona por esses dias, assistiu ao encontro e interpretou a Marcha Real, então hino da Espanha, antes da partida. O público reagiu com uma acentuada pitada de desgosto e as autoridades fecharam o campo e castigaram o Júpiter com seis meses de suspensão. Apesar de ficar sem futebol, o clube não deixou de combater pela causa revolucionária.

“O clube dava ao movimento grande parte de seus ganhos e em pouco tempo o estádio se transformou em um arsenal”, relatou Júlio Nacarino, ex-presidente do clube, ao jornalista Andrea Sceresini. “Os trabalhadores, jogadores de futebol e anarquistas levavam suas batalhas uns ao lado dos outros”. Ainda que não existam provas claras, os investigadores da época acreditam ser verdade esse tumultuoso capítulo da história do clube, que situa o campo do Júpiter como centro de operações da resistência anarquista ao golpe de Estado de 19 de julho de 1936.

“Quando o rio sobe, a água leva. Nessas coisas sempre existem um ponto de lenda épica, mas é uma história certa”, aponta Mitjans em referência ao relato oral de que a tribuna do campo do Júpiter era como um arsenal clandestino.

“Do campo do Júpiter saíram dois caminhões para combater a insurreição fascista”, afirma Guillamón. “Sairam dali por dois motivos: primeiro porque era aonde viviam os membros importantes da FAI (Federação Anarquista Ibérica); e segundo, porque provavelmente debaixo da tribuna do Júpiter havia um armazém clandestino de armas”.

Todos sabemos como a coisa acabou, e com o início do franquismo o clube voltou a perder a identidade recuperada na Segunda República. “Ao regime, não sei muito bem porque, não agradava muito o nome do clube, assim o rebatizaram como Hércules”, explica Guillamón.

Curiosamente, o destino voltou a relacionar o Júpiter com as passagens mais escuras de nossa história. No antigo campo das Botas, onde nasceu o time e onde estão os edifícios do Fórum das Culturas, foi o lugar escolhido para fuzilar os inimigos da ditadura em Barcelona.

Em 1948, o clube recebeu um golpe que ainda perdura. A equipe que melhor refletia a luta de classes e o ativismo do Poblenou foi transladado pelo regime para o campo da Verneda, no distrito de Sant Martí de Barcelona. De fato, os planos originais do regime eram converter o clube em uma filial do RCD Espanyol e diluir o nome histórico do Júpiter, e com ele grande parte das pegadas anarquistas na cidade.

Afortunadamente, os planos não foram adiante e o Júpiter – que retorna a vestir com orgulho o seu escudo e cores originais desde os anos noventa -, segue combatendo nos dias de hoje na terceira divisão espanhola.

Ainda que não tenham – muitos – anarquistas e o futebol tenha se convertido em uma indústria do capitalismo reinante, a história do Júpiter nos recorda que houve um tempo em que o futebol foi muito mais do que pilhas e pilhas de dinheiro.

Fonte: https://sports.vice.com/es/article/jupiter-anarquia-lucha-dictadura-armas-franquismo-futbol

Tradução > Liberto

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PALMEIRAS, CACO BARCELLOS E REDE GLOBO

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São Paulo, terça-feira, 15 de novembro de 2016 – A torcida do Palmeiras toma o aeroporto de Congonhas e faz uma festa incrível para empurrar seu time rumo ao título brasileiro. A quatro rodadas do final, o time alviverde tinha 70 pontos, quatro a mais que o Flamengo, segundo colocado e com um jogo a mais. Absolutamente todos os veículos de comunicação saúdam o mar verde.

Rio de Janeiro, quarta-feira, 16 de novembro de 2016 – Está em trâmite na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) uma série de medidas visando a redução de gastos públicos, o que é feito, claro, sangrando os direitos do trabalhador. Cobrindo a manifestação dos servidores públicos contrários a tais medidas, Caco Barcellos foi expulso e agredido pelos presentes aos gritos de “golpista” e “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. A emissora soltou uma nota dizendo: “A Globo repudia qualquer tipo de hostilidade que impeça a transmissão da notícia ao espectador, único fim do trabalho jornalístico da Globo, que preza pela isenção e correção” (Ahãm).

Entre os dois fatos um denominador comum: a Rede Globo.

A tal festa incrível da torcida palmeirense já foi regra semanal dentro dos estádios. Não só da torcida alviverde como de incontáveis clubes Brasil afora antes da elitização de nossos estádios.

Não se trata apenas de erguer modernas arenas, mas de moldar o torcedor a elas. Para domesticar o torcedor e transformá-lo em um consumidor, é necessário incutir a nova modalidade de torcer, na qual não cabe mais balançar bandeiras, acender sinalizadores, tirar a camisa, sentar em lugares aleatórios, fazer churrasco no entorno, ficar bêbado, etc.

Muitos faziam isso, mas temos os especialistas: torcidas organizadas. Os mesmos que a Rede Globo, detentora dos direitos exclusivos de transmissão dos jogos, chama de “vândalos travestidos de torcedores” e “membros de facção”. Se são vândalos e são membros de facção devem ser combatidos da forma mais brutal possível pela Polícia Militar. Sim, aquela polícia que mais mata no mundo deve cuidar da ordem.

Mas por que? Para que as famílias voltem aos estádios, para que os jogos comecem sem fumaça, para que os “torcedores comuns” possam parar seus carros, sentar em seus lugares marcados, consumir com calma os produtos vendidos, balançar as bandeiras de plástico com o logo do patrocinador deixadas em seu assento pela diretoria. Enfim, para que o novo modo de torcer seja sinônimo de conforto, educação e desenvolvimento. Nem que para isso se chame de “evolução” policiais espancando pessoas nas arquibancadas.

Torcida palmeirense no aeroporto

Torcida palmeirense no aeroporto

Na outra ponta temos Caco Barcellos, funcionário da Rede Globo. Como jornalista é um monstro, escreveu seu primeiro livro, nos idos dos anos 80, na linha de frente da guerra na Nicarágua, “A Revolução das Crianças”, e posteriormente nos brindou com um trabalho contundente sobre a elite da PM paulista, o famoso “Rota 66”.

Porém, trabalha para a Globo (não que justifique) e estava no meio de uma manifestação. A regra da Globo para manifestações é criminalizar as que não a interessam e exaltar as que interessam. Convocaram para as manifestações pró-impeachment como sendo um belo piquenique dominical no parque. Talvez fosse, mas não é este o ponto.

Nas manifestações de 2013 no mesmo Rio de Janeiro (e no Brasil), usou todo o seu alcance para escandalizar o país no Jornal Nacional com os vândalos mascarados que barbarizavam pelas ruas. Criminalizaram o quanto puderam e conquistaram seu troféu: Santiago Andrade, cinegrafista da Band morto por um rojão solto por manifestantes.

Deitaram e rolaram na história, transfigurando aquele momento em um ataque grave à liberdade de impressa e como a prova definitiva do caráter terrorista de manifestantes que ousavam enfrentar a polícia e a ordem.

Caco Barcellos sendo agredido. O posicionamento da Globo coloca em risco seus profissionais

Caco Barcellos sendo agredido: o posicionamento da Globo coloca em risco seus profissionais. Evoca liberdade de imprensa para colher informações e depois deturpa a realidade de acordo com os seus interesses. Jornalistas são estigmatizados assim como sua empregadora faz com outros setores da sociedade.

Voltando um pouco no tempo, temos o apoio da Globo à ditadura militar, inclusive tentando esconder o movimento Diretas Já. Nos anos 80, o caso Proconsult, que foi uma tentativa de fraude eleitoral para evitar a vitória de Brizola no Rio. Começo dos anos 90 a manipulação descarada para que Collor vencesse Lula. Recentemente, a criminalização de todos os movimentos de rua, além do incentivo ao punitivismo puro e simples. Permanentemente, a criminalização da pobreza com “especialistas” explicando porque se deve usar fuzil nas favelas.

Democratizar a mídia é medida urgente. Urgente porque está intimamente ligada à liberdade na vida real, nas ruas, nos estádios, nas assembleias, comunidades, onde quer que seja. Nos espantamos com uma festa de torcida em um aeroporto e com um jornalista agredido. Temos razão, é de se espantar este deslocamento, as coisas fora do seu lugar natural.

Porém, não se pode esquecer que não chegamos a este ponto à toa, tivemos um incentivo crucial ao ódio, à classificação da sociedade entre os que devem sofrer e os que não devem; e esta linha é maleável, pode atingir quem a defende e vice-versa.

A torcida palmeirense foi exaltada naquele momento, mas no jogo seguinte, em casa, teve um cerco no entorno para “evitar tumulto”. Aquele torcedor que compra a conversa da Globo que torcedor organizado é marginal e gostava de tomar sua cerveja na rua Palestra Itália sentiu na pele a criminalização. Pague caro e consuma muito (os ingressos, planos de sócio torcedor, produtos oficiais e autorizados, é claro),  mas torça com moderação. Essa é a nova lei das arenas esportistas que estão empurrando goela abaixo (com revolver e distintivo) em território palmeirense, mas que não ficará só por lá; recairá sobre qualquer torcida que quiser voltar a ocupar o seu devido espaço.

O Caco Barcellos foi a bola da vez, aliás, não foi a primeira oportunidade que foi expulso, lá em 2013 também foi. Apesar da importância de seu trabalho e de não se tratar de mais um jornalista que analisa superficialmente o assunto, será taxado de golpista por trabalhar para a Globo, generalização que a Globo faz com os manifestantes. Mesma lógica.

O que houve com Barcellos não foi ataque à liberdade de imprensa e tampouco o rolê no aeroporto se tratou de festa histórica. Ambos os tipos de episódio acontecem com certa frequência. Ambos os episódios foram a consequência do que há anos se planta na tela da TV com a Rede Globo.

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Uma semana no ex futebol brasileiro

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Dia 19 de outubro de 2016 fui a Belo Horizonte ver as quartas de final da Copa do Brasil entre Cruzeiro e Corinthians. Já me acostumei, infelizmente, com o fato de ter que ir a essas Arenas higienizadas (esta especificamente chamam de Mineirão), tento me convencer racionalmente que gasto dinheiro à toa indo ver jogo. Não me divirto mais há algum tempo, mesmo com o meu time ganhando, mas o futebol não é racional e lá fui eu de novo.

Perdemos o jogo, encontrei amigos, fiquei em torno de 14 horas bêbado, a PM asquerosa de Minas fez de tudo para dificultar a vida da torcida visitante e forçar encontros de torcedores, me xingaram e ameaçaram me prender*. A torcida do Cruzeiro tentou invadir com uns 40 caras o albergue que eu estava e nós em 3. Firmeza, não me mataram como vocês podem ler. O que lavou a alma no fim das contas foi encontrar a diretoria do Corinthians no aeroporto e poder intimar o bunda mole do Roberto de Andrade a mostrar o dedo do meio para a torcida longe de um camarote.

Domingo, Corinthians x Flamengo numa Arena (esta chamam de Maracanã) pelo Brasileiro. Antes de começar o jogo os flamenguistas tentaram invadir a área dos corintianos que, claro, foram segurar a bronca. A PM carioca, rainha do arrego, começou a jogar spray de pimenta nos corintianos sob aplausos dos flamenguistas, teve porrada e um soldado lá tomou meia dúzia de tapa.

No fim do jogo deixaram as mulheres e as crianças saírem, esculachando as mulheres, claro. Retiveram os homens por mais de 3 horas, mandaram tirar a camisa e continuar sentados para serem identificados, lembrando muito o que fazem em presídios. Pegaram os que acharam que tinham que pegar, espancaram todo mundo e agora temos 31 torcedores presos por diversas acusações.

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Corintianos foram espancados e torturados pela PM do Rio após a partida

Digno de nota: na quarta-feira seguinte, dia 26 de outubro, rolaram em Londres as oitavas-de-final da Copa da Liga Inglesa entre West Ham e Chelsea na Arena deles lá, sendo que os Hammers meteram 2×1 e passaram. No fim do jogo teve confronto entre as torcidas dentro do estádio, ninguém foi preso e os times anunciaram que iriam analisar as imagens e banir os envolvidos. Sem entrar no mérito da questão, mas até no punitivismo barato e higienismo os ingleses são mais elegantes. Talvez seja a experiência pela escrotidão pioneira.

Em São Paulo, a PM paulista, campeã em assassinatos, sitiou o entorno da Arena que era Palestra Itália para que as pessoas sem ingresso não ficassem na rua. Só passava quem tinha ingresso. Claro que aconteceram inúmeros abusos, afinal a PM tava lá, só que nenhum veio muito a público.

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Rua Palestra Itália fechada pela PM

Na mesma quarta-feira teve o primeiro jogo das semifinais da Copa do Brasil entre Cruzeiro e Grêmio na tal Arena lá, o Mineirão. Depois do jogo, o torcedor cruzeirense Eros Dátilo Belizardo foi levado ao hospital, aonde foi constatada sua morte. A versão oficial é que ele passou mal, mas amigos e parentes dizem que ele foi espancado por seguranças da tal Arena.

A Secretaria Municipal de Saúde de BH emitiu uma nota afirmando que o torcedor chegou morto ao hospital. Você viu esta notícia em algum lugar com a mesma pirotecnia dos presos corintianos? Viu o Flávio Prado clamando pela caçada aos seguranças, os chamando de gangue assassina? Talvez não.

Assim se encerrou mais uma semana de caminhada rumo ao fim. Querem nos obrigar a acreditar que este rastro de barbárie e injustiças cometidas contra os torcedores vai nos levar à civilização do futebol. Obrigado pela atenção.

*O mesmo aconteceu com o Raphael Sanz, deste blog, em 2015, quando foi ver Palmeiras e Cruzeiro, no mesmo estádio, pela mesma Copa. A PM mineira armou um esquema que obrigava a torcida visitante a passar por mais 500m no meio da torcida local após a partida. Houve um ataque de cruzeirenses aos palmeirenses, inclusive ao albergue onde pararam as vans e deixaram as mochilas, mas no final tudo acabou bem para os paulistas.

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Utopia versus distopia

Por Raphael Sanz

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Finalmente chegou o grande dia em que vamos ser novamente campeões brasileiros. A última vez foi contra nosso maior rival e tínhamos na linha de ataque Edmundo, Evair e Rivaldo, três gênios já aposentados. Eu era uma criança feliz naquela época. Hoje temos uns tantos outros gênios tentando provar seu valor como os de ontem provaram. E estão conseguindo.

Chego à rua Turiaçu, esquina com a Caraibas, atrasado, e sou recebido pelos meus amigos. Parceiros de sofrimento em tempos de vacas magras que agora prometem uma festa e tanto. Bianchi teve um coma alcóolico no jogo de volta da semi-final, em casa, contra o Flamengo, que vencemos por 4×2 de virada após estarmos por duas vezes atrás do placar. Foi uma catarse coletiva, como todo bom jogo do Palmeiras é. Tudo bem que o empate era nosso, mas a vitória estonteante melhorou nossa semana. E muito. O grande Leandro Iamin está lá degustando um espetinho e me cumprimenta com um abraço fervoroso. Daqueles que o mundo poderia acabar ali mesmo, afinal seremos campeões. Ademir mal consegue conversar de tanta emoção. Gabriel Santoro já está em algum canto gravando seu vídeo e os irmãos Sciarra distribuem seu zine palmeirista por aí. O Tito, como sempre, se posta atrás do bar do Dissidenti que agora tem uma mesa de sinuca nos fundos, tornando-o o melhor bar do mundo. Leo AD e Del Vecchio discutem a escalação da grande final que se jogará dentre instantes nesse domingo de sol. Pedro e Drips chegam com um isopor cheio de cerveja e estão há dias sem dormir esperando o apito inicial. A derrota por 1 a 0 no Mineirão no jogo de ida não nos abalou nem um pouco.

O estádio é nosso, a rua é nossa, o bairro e a cidade são nossos. É verde por toda parte. Até a prefeitura zerou a tarifa do busão neste dia pra facilitar nossa ida a este momento grandioso. Não tem como a taça também não ser nossa. E não foi por acaso que perdi um dia de trabalho na terça-feira enquanto estava na fila da bilheteria para pagar 20 reais no meu ingresso. 20 mangos e 1 dia ganhos na minha vida. Depois compenso no banco de horas ou arrumo um atestado. Vai valer a pena.

Entrando pelo fosso da Turiaçu, ergue-se um jardim suspenso à nossa frente. Uma verdadeira maravilha da humanidade. A coisa mais linda em termos arquitetônicos que o futebol pôde proporcionar à humanidade. Após reforma que durou 3 anos, o gol das piscinas ganhou um grande paredão de arquibancada que aumentou nossa capacidade em 20 mil lugares sem que para isso precise ter medo da imensidão azul chamada céu, como as tais arenas que existem na longínqua Europa. O pessoal do prédio ali de trás hasteia sua bandeira alviverde enquanto os bandeirões, fogos, papeis picados e corações saltam de nossa arquibancada de cimento, recebendo e empurrando o time que vai mostrar que de fato é o campeão.

O gol do Atlético Mineiro aos 8 minutos não nos desanima e antes de acabar o primeiro tempo já viramos o jogo. A alegria se mistura aos bandeirões e rojões enquanto uma multidão do lado de fora comemora. Na segunda etapa, o terceiro gol era questão de tempo para matar o jogo. Nosso volante rouba a bola, abre para o lateral esquerdo que ensaia uma corrida pra linha de fundo mas recua para o meia armador que, num passe de mágica, ou melhor, num passe mágico, deixa nosso centro avante cara-a-cara com o goleiro do Galo e…

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Acordo meio desnorteado na cama. É dia de Palmeiras e Sport pela 32a rodada do Brasileirão de pontos corridos. O Palmeiras tem grandes chances de ser campeão, mas sem uma semi-final épica, nem tampouco uma final eletrizante. Precisa ganhar mais 4 jogos, dos 7 que faltam. E pronto.

Pego o ônibus para a rua Palestra Itália. Chegando lá não encontro meus amigos, mas a polícia militar que bloqueou todas as entradas de todas as ruas ao redor do estádio: Palestra Itália, Caraibas, Diana e Kayowaa. Só entra quem tem ingresso. Eu tenho, mas estou sem o comprovante de compra. O policial “embaça na minha” e quando consigo convencê-lo que meu cartão de sócio torcedor é verdadeiro entro e me deparo com dois tanques de guerra da tropa de choque e um torcedor palmeirense, negro, sendo duramente “enquadrado” por policiais. Fizeram o rapaz tirar a camisa e disseram palavras de baixo calão para o mesmo ali mesmo, na frente do estádio inteiro.

Sem churrasco e sem cerveja, dou a volta no quarteirão para adentrar um estádio que tem medo do céu e da luz do sol. Que tem ojeriza a bandeiras, fogos, papel picado e vizinhos. Que tem nojo de gente e de festa. Os telões dividem a atenção com o campo de jogo. A grama está ruim, afinal, a luz do sol não atravessa a cobertura que colocaram ali e para piorar qualquer show destrói o gramado. A solução mágica dos tecnocratas é limar essa arcaica grama natural e por uma sintética no lugar. As arenas nos afastam da imensidão do que restou de natureza em São Paulo. Policiais e seguranças do clube filmam a torcida em busca do menor delito. Afinal, são trabalhadores e precisam bater metas.

Meus amigos estão divididos. Felizes pela vitória e pela iminência de comemorar um título nacional. E tristes, mesmo com o time brigando de fato pelo título, por tudo o que perdemos enquanto povo futeboleiro em meio a uma modernidade artificial e sem coração. Especialmente tristes por não poderem ver o jogo juntos. Alguns, com condições de bancar os ingressos de 100 reais em média foram autorizados pela PM a frequentar a rua que há 96 anos é do Palmeiras. Outros não.

Trocamos palavras, gestos e votos de vitória à distância. Como à distância se posta cada vez mais o futebol daqueles que o fizeram grande.

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Foto de Fernando Sciarra

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Euro Politiks

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Por Arrison Jardel Ferraz

Fim da Eurocopa 2016. Vimos além da seleção portuguesa campeã do torneio (após a derrota em casa na edição da Euro 2004, sob o comando do então intocável Luiz Felipe Scolari), uma demonstração de garra, raça e vontade de vencer, sem contar que o melhor de seus jogadores, Cristiano Ronaldo, demonstrou o que muitos duvidam que ele tenha: espírito de coletividade, pois mesmo fora de campo incentivou e gritou como se fosse o próprio técnico do time, além de vários jogadores terem dito que as suas palavras foram primordiais para a conquista. Parabéns, merecida conquista, ora pois.

Apesar desta edição da Euro 2016 ter sido interessante dentro de campo, que surpreendeu tecnicamente por times sem muita ou nenhuma tradição no futebol chegarem às fases finais de classificação (casos de Islândia e País de Gales), outros dois destaques são: o notório público de alta renda assistindo aos jogos (e uma  consequente higienização também) e a tolerância, para não dizer incentivo, do governo russo quanto aos seus hooligans.

Não é de hoje que vemos cada vez mais que o estádio se tornou uma espécie de teatro. E tanto lá como cá, no Brasil, o acesso torna-se exclusivo de quem possui, é claro, dinheiro (e muito). Mas o que chamou a atenção foram jogos de países/seleções terem suas torcidas pouco presentes ou inexistentes nas arquibancadas durante a competição, casos de Turquia e Romênia. Será mesmo que torcedores desses países não quiseram vir por escolha própria? Claro que não! Principalmente porque são marginalizados no cenário econômico e político europeu, e cidadãos de outros países com mais bonança monetária estão no estádio protest… GOL!! Dane-se tudo! Eu quero é ver GOL! Comemoram “pobres” torcedores suíços, belgas, ingleses, alemães. Imaginem se as brigas nas ruas fossem promovidas pelos países da “periferia” europeia.

Em um momento delicado quanto a tolerância de imigrantes e sabendo o caráter muitas vezes racista dos ultras europeus, o que falar das brigas entre ingleses e russos? A imprensa europeia de um modo geral (principalmente a Inglesa) repudiou e acusou veementemente que se tratava de um prenúncio de um futuro conflito bélico e diplomático pelo poder no continente europeu. Pois então… Não que o governo russo não seja íntegro (na verdade, não é), mas ficou claro que o Kremilin só quer usar o futebol, inclusive admitindo a violência e intimidação, para interesses políticos escusos, já que futebol a Rússia nunca teve mesmo. Detalhe que a próxima Copa do Mundo será na Rússia… Portanto…

Provável que a Inglaterra esteja partindo para o mesmo caminho de usar o futebol para interesses políticos, já que a última vez que demonstrou algum futebol foi quando ganhou a Copa do Mundo em 1966, com uma ajuda da arbitragem imprescindível. Aliás, durante a Euro 2016, realizou o plebiscito para saída da Inglaterra da UE, o que parece que abriu as portas da xenofobia. Mas aos olhos dos donos do futebol isso é só um detalhe.

Novidade o uso político né? Até quando você, leitor, acha que futebol é só “espetáculo”?

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