PALMEIRAS, CACO BARCELLOS E REDE GLOBO

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São Paulo, terça-feira, 15 de novembro de 2016 – A torcida do Palmeiras toma o aeroporto de Congonhas e faz uma festa incrível para empurrar seu time rumo ao título brasileiro. A quatro rodadas do final, o time alviverde tinha 70 pontos, quatro a mais que o Flamengo, segundo colocado e com um jogo a mais. Absolutamente todos os veículos de comunicação saúdam o mar verde.

Rio de Janeiro, quarta-feira, 16 de novembro de 2016 – Está em trâmite na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) uma série de medidas visando a redução de gastos públicos, o que é feito, claro, sangrando os direitos do trabalhador. Cobrindo a manifestação dos servidores públicos contrários a tais medidas, Caco Barcellos foi expulso e agredido pelos presentes aos gritos de “golpista” e “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. A emissora soltou uma nota dizendo: “A Globo repudia qualquer tipo de hostilidade que impeça a transmissão da notícia ao espectador, único fim do trabalho jornalístico da Globo, que preza pela isenção e correção” (Ahãm).

Entre os dois fatos um denominador comum: a Rede Globo.

A tal festa incrível da torcida palmeirense já foi regra semanal dentro dos estádios. Não só da torcida alviverde como de incontáveis clubes Brasil afora antes da elitização de nossos estádios.

Não se trata apenas de erguer modernas arenas, mas de moldar o torcedor a elas. Para domesticar o torcedor e transformá-lo em um consumidor, é necessário incutir a nova modalidade de torcer, na qual não cabe mais balançar bandeiras, acender sinalizadores, tirar a camisa, sentar em lugares aleatórios, fazer churrasco no entorno, ficar bêbado, etc.

Muitos faziam isso, mas temos os especialistas: torcidas organizadas. Os mesmos que a Rede Globo, detentora dos direitos exclusivos de transmissão dos jogos, chama de “vândalos travestidos de torcedores” e “membros de facção”. Se são vândalos e são membros de facção devem ser combatidos da forma mais brutal possível pela Polícia Militar. Sim, aquela polícia que mais mata no mundo deve cuidar da ordem.

Mas por que? Para que as famílias voltem aos estádios, para que os jogos comecem sem fumaça, para que os “torcedores comuns” possam parar seus carros, sentar em seus lugares marcados, consumir com calma os produtos vendidos, balançar as bandeiras de plástico com o logo do patrocinador deixadas em seu assento pela diretoria. Enfim, para que o novo modo de torcer seja sinônimo de conforto, educação e desenvolvimento. Nem que para isso se chame de “evolução” policiais espancando pessoas nas arquibancadas.

Torcida palmeirense no aeroporto

Torcida palmeirense no aeroporto

Na outra ponta temos Caco Barcellos, funcionário da Rede Globo. Como jornalista é um monstro, escreveu seu primeiro livro, nos idos dos anos 80, na linha de frente da guerra na Nicarágua, “A Revolução das Crianças”, e posteriormente nos brindou com um trabalho contundente sobre a elite da PM paulista, o famoso “Rota 66”.

Porém, trabalha para a Globo (não que justifique) e estava no meio de uma manifestação. A regra da Globo para manifestações é criminalizar as que não a interessam e exaltar as que interessam. Convocaram para as manifestações pró-impeachment como sendo um belo piquenique dominical no parque. Talvez fosse, mas não é este o ponto.

Nas manifestações de 2013 no mesmo Rio de Janeiro (e no Brasil), usou todo o seu alcance para escandalizar o país no Jornal Nacional com os vândalos mascarados que barbarizavam pelas ruas. Criminalizaram o quanto puderam e conquistaram seu troféu: Santiago Andrade, cinegrafista da Band morto por um rojão solto por manifestantes.

Deitaram e rolaram na história, transfigurando aquele momento em um ataque grave à liberdade de impressa e como a prova definitiva do caráter terrorista de manifestantes que ousavam enfrentar a polícia e a ordem.

Caco Barcellos sendo agredido. O posicionamento da Globo coloca em risco seus profissionais

Caco Barcellos sendo agredido: o posicionamento da Globo coloca em risco seus profissionais. Evoca liberdade de imprensa para colher informações e depois deturpa a realidade de acordo com os seus interesses. Jornalistas são estigmatizados assim como sua empregadora faz com outros setores da sociedade.

Voltando um pouco no tempo, temos o apoio da Globo à ditadura militar, inclusive tentando esconder o movimento Diretas Já. Nos anos 80, o caso Proconsult, que foi uma tentativa de fraude eleitoral para evitar a vitória de Brizola no Rio. Começo dos anos 90 a manipulação descarada para que Collor vencesse Lula. Recentemente, a criminalização de todos os movimentos de rua, além do incentivo ao punitivismo puro e simples. Permanentemente, a criminalização da pobreza com “especialistas” explicando porque se deve usar fuzil nas favelas.

Democratizar a mídia é medida urgente. Urgente porque está intimamente ligada à liberdade na vida real, nas ruas, nos estádios, nas assembleias, comunidades, onde quer que seja. Nos espantamos com uma festa de torcida em um aeroporto e com um jornalista agredido. Temos razão, é de se espantar este deslocamento, as coisas fora do seu lugar natural.

Porém, não se pode esquecer que não chegamos a este ponto à toa, tivemos um incentivo crucial ao ódio, à classificação da sociedade entre os que devem sofrer e os que não devem; e esta linha é maleável, pode atingir quem a defende e vice-versa.

A torcida palmeirense foi exaltada naquele momento, mas no jogo seguinte, em casa, teve um cerco no entorno para “evitar tumulto”. Aquele torcedor que compra a conversa da Globo que torcedor organizado é marginal e gostava de tomar sua cerveja na rua Palestra Itália sentiu na pele a criminalização. Pague caro e consuma muito (os ingressos, planos de sócio torcedor, produtos oficiais e autorizados, é claro),  mas torça com moderação. Essa é a nova lei das arenas esportistas que estão empurrando goela abaixo (com revolver e distintivo) em território palmeirense, mas que não ficará só por lá; recairá sobre qualquer torcida que quiser voltar a ocupar o seu devido espaço.

O Caco Barcellos foi a bola da vez, aliás, não foi a primeira oportunidade que foi expulso, lá em 2013 também foi. Apesar da importância de seu trabalho e de não se tratar de mais um jornalista que analisa superficialmente o assunto, será taxado de golpista por trabalhar para a Globo, generalização que a Globo faz com os manifestantes. Mesma lógica.

O que houve com Barcellos não foi ataque à liberdade de imprensa e tampouco o rolê no aeroporto se tratou de festa histórica. Ambos os tipos de episódio acontecem com certa frequência. Ambos os episódios foram a consequência do que há anos se planta na tela da TV com a Rede Globo.

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